quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Crítica: Cidade dos Sonhos (David Lynch, 2001)

por Marina Alves
Extraído de http://cinemacomrapadura.com.br/criticas/84185/cidade-dos-sonhos-2001-84185/


Típico caso de “ame ou odeie” em Hollywood, David Lynch tem como marca pessoal histórias complexas e bizarras, que instigam e confundem o espectador que se propõe a mergulhar no universo onírico do diretor. No caso de “Cidade dos Sonhos” – que em seu título original recebe apenas o nome de uma famosa avenida de Hollywood chamada “Mulholland Drive” – não é diferente. Para desfrutar do cinema de Lynch precisa-se estar escolado: os mínimos detalhes e as mais estranhas cenas aparecem sempre por algum motivo. Nada escapa por entre os dedos do meticuloso diretor que utiliza a objetiva da câmera como uma lupa de investigador, preocupando-se em colher as pistas com cuidado, mas não fazendo questão de organizá-las de modo coerente.

“Cidade dos Sonhos” não é um filme filosófico nem filme que instiga grandes reflexões, mas uma verdadeira aula de linguagem cinematográfica. Alguns dos motivos pelos quais tornou-se um clássico contemporâneo são mais fáceis de observar: David Lynch sempre trabalha com diretores de arte e diretores de fotografia que sabem como fazer emergir da tela um clima sombrio e, para isso, os usos constantes dos cenários em tons de vermelho e azul ajudam a dar personalidade ao filme. Esse recurso foi anteriormente utilizado em outros de seus filmes, como “Veludo Azul” e “Twin Peaks”.

A novidade, entretanto, é o recurso da fragmentação da narrativa, que contribui para dificultar o entendimento do filme. Entender, aliás, é algo que Lynch não espera que aconteça, pois, questionado em entrevistas na época em que “Cidade dos Sonhos” estreou, o diretor fugia das perguntas que culminavam em apelos para dicas de resolução desse quebra-cabeça.


Naomi Watts encarna uma aspirante a atriz que nós conhecemos no decorrer do filme por Betty. A história de Betty é inclusive muito parecida com a história da própria atriz, que demorou cerca de 20 anos para conseguir o reconhecimento da indústria do cinema. Betty, porém, acaba conhecendo uma misteriosa mulher que se envolveu em um acidente de carro e que, olhando para um pôster do filme de Rita Hayworth, resolve adotar o nome da atriz, já que perdeu a memória e não se lembra do seu próprio. Na bolsa de Rita (Laura Harring), elas encontram muito dinheiro e uma estranha chave azul, a primeira grande incógnita do filme que é a responsável pelo turning point mais para frente. Rita acaba lembrando-se de alguns fatos e Betty resolve ajudá-la a decifrar o enigma por trás do misterioso acidente que aconteceu em Mulholland Drive.

Em meio aos testes que Betty realiza para conseguir uma boa personagem em algum filme, as duas protagonistas acabam se apaixonando. Quando Rita acorda e pede que Betty a acompanhe até o Clube Silêncio, finalmente podemos sentir David Lynch no roteiro.
Em uma das cenas mais elogiadas pelos fãs e por parte da crítica que elogiou o diretor, o apresentador do “teatro” tenta nos avisar de que o que estamos vendo é apenas uma ilusão. A trilha sonora envolvente de Angelo Badalamenti dá lugar a uma versão em espanhol da música “Crying” de Roy Orbison, um dos momentos mais intensos da película.


Quando Rita resolve usar a chave azul para abrir a caixa que encontrou no Clube, tudo vira de pernas para o ar. A sensação do espectador é que, ao invés de ter encontrado a peça necessária para resolver o mistério, Rita abriu uma verdadeira caixa de Pandora, liberando a dolorosa verdade cheia de simbolismos das histórias de ambições e sonhos que permeiam Hollywood. Falar além disso seria estragar o exercício de percepção e concentração que David Lynch nos propõe.

Aqueles que procuram uma saída fácil para a trama ou sua auto-resolução ao término dos 145 minutos cometem um terrível engano, pois Lynch nunca gostou de entregar o jogo para seu público e, nesse caso em especial, até mesmo os mais atentos podem se perder. Não existe apenas um final para o filme, possibilitando que criemos tantos finais quanto nossa imaginação permitir. “Cidade dos Sonhos” não é um filme para ser compreendido, e sim absorvido como uma aula de cinema.

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