
Assista aqui ao trailer oficial do filme.
Sessões aos sábado, 19h30 no Centro Cultural de Botucatu (ao lado do Cine Nelli) Entrada:1kg de alimento não perecível
Não são novidades para o cinema produções sobre a figura mitológica de vampiros, e há muito tempo o assunto é abordado em filmes ora bem realizados, como Entrevista com o Vampiro, de Neil Jordan, ou em baboseiras comerciais como sua sequência, A Rainha dos Condenados. Em geral, o que falta a essas produções menos interessantes é o que Deixe Ela Entrar apresenta em demasia, como personagens bem construídos, que por sua vez estão justificados em uma trama inteligente, realizada com o propósito principal contrário ao de proporcionar apenas entretenimento.
No início do filme conhecemos Oskar, um garoto de aparência incomum que vive praguejando contra alguns colegas de escola, que costumeiramente o agridem. Enraivecido pelas chacotas e perseguições diárias, Oscar teme as revidar. É durante um desses momentos de indignação que ele conhece Eli, uma estranha nova vizinha, que aos poucos demonstra possuir grandes habilidades, não sentir frio e que apenas sai de casa durante a noite. Para o espectador, é o suficiente para compreender o segredo da garota.
O relacionamento dos dois cresce à medida que percebem a solidão os assola. Enquanto Oskar opta pelas frias e solitárias brincadeiras fora de casa, deixando a mãe e a televisão para trás, Eli o procura cada vez mais por sentir uma conexão com o garoto. A vampira pré-adolescente aos poucos vai dando pistas de sua real identidade à Oskar, mas este se mostra despreocupado, interessado primeiramente na companhia e cumplicidade da garota.
A complexidade dos personagens centrais apenas aumenta conforme a história se desenvolve, e a gama de sentimentos que ambos dividem fica implícita, aparente apenas por pequenas indicações e traduzida em uma interessante metáfora: o vidro que separa o encontro das mãos dos protagonistas em um determinado momento, embora não seja um recurso visual inovador, representa a barreira presente no relacionamento dos dois, que mesmo estando muito ligados, possuem um obstáculo intransponível que entre eles.
O roteiro de John Ajvide Lindqvist é instigante por esses e outros motivos, quando exige do espectador a interpretação de certos fatos que expõe durante sua construção, e nunca os esmiúça para assim facilitar sua inteligibilidade. O texto dá o tempo exato necessário para que as duas tramas paralelas do filme se desenvolvam, amadurecendo sem pressa o rancor de Oskar por aqueles que o humilham na escola, enquanto compõe seu estranho amor por Eli, dando ênfase também na condição maldita que dificulta a vida da garota. Lindqvist adapta em Deixe Ela Entrar seu livro homônimo, e por isso é possível confiar na transposição do texto para a tela de forma fidedigna, sem exagerar no que é convencional ou recorrente em filmes do gênero. O escritor, fã confesso de Morrissey, não esconde ainda que o título de seu livro e filme são baseados em uma composição do cantor, chamada Let The Right One Slip In, que diz o seguinte em determinado trecho: “Eu diria que você tem todo o direito de dar uma mordidinha na pessoa certa e dizer: “O que fez com que você demorasse tanto?"”.
Na direção, Tomas Alfredson também responde pelas escolhas inteligentes para compor a história do envolvimento dos dois adolescentes. O diretor opta por cenas que privilegiam seu elenco e o texto de Lindqvist, valorizando com paciência a trama que, caso fosse acelerada, perderia muito de seu significado. Alfredson mostra também imensa habilidade na condução dos dois jovens interpretes, ainda mais quando seu filme exige de ambos a capacidade de tornarem seus personagens críveis em meio à ficcionalidade metafórica proposta pelo projeto.
Mesmo que algumas vezes Alfredson e Lindqvist entreguem o filme a certas obviedades, como o corpo que aparece em um lago congelado, são várias as sutilezas que ambos inserem em Deixe Ela Entrar, tornando o longa muito mais provocador. O personagem que mora com Eli e que é seu servo, por exemplo, é apresentado através de uma figura paterna, mas poderia com alguma interpretação ter sido outro envolvimento da garotinha, que esteve ao seu lado por muito tempo enquanto envelhecia, contemplando a imortalidade dela. O pai ausente de Oskar é outro caso interessante. Quando está com o garoto ambos se mostram extremamente cúmplices e afetuosos um com o outro, mas a chegada de outro homem à casa do pai deixa o garoto bastante desconfortável. Quem seria ele? Apenas um amigo ou poderia tal personagem ser um atual envolvimento romântico de seu pai? Essas e outras indagações podem surgir e, mesmo não sendo respondidas, apenas acrescentam ao longa a qualidade de não se desenvolver repleto por explicações que não acrescentariam muito à trama.
Como não poderia deixar de ser após a repercussão de Deixe Ela Entrar, criticado positivamente em muitos festivais e vencedor de mais de 40 prêmios mundo afora, Oskar e Eli ganharão suas versões americanas, em um filme comandado por Matt Reeves, diretor de Cloverfield - Monstro. Aproveitando-se talvez do fenômeno adolescente Crepúsculo, teremos em breve outro exemplo do cinema comercial americano atual, extremamente carente de originalidade, que importa produções aos montes para suprir a falta de competência da maioria de seus profissionais. Felicidade daqueles que conhecerem a obra original antes.
Baseado no livro "Alerta Vermelho", escrito pelo ex-tenente da Força Aérea Britânica, Peter George, o filme "Dr. Fantástico" dirigido por Stanley Kubrick (que também dirigiu "2001: Uma Odisséia no Espaço", "Lolita" e "Laranja Mecânica") é uma das mais famosas e cultuadas comédias de humor negro já produzidas.
Para escrever uma crítica à altura deste clássico não basta apenas falar das atuações, da trilha sonora ou do roteiro. É necessário dissecar o filme em todos os aspectos. Para os mais atentos, tudo no filme tem um duplo sentido e os menores detalhes (aqueles que passam desapercebidos) se bem observados lhe darão outra visão da história.
A começar pela atuação do primoroso Peter Sellers (considerado um dos melhores comediantes do cinema, que estrelou também “A Pantera Cor de Rosa”), em Dr. Fantástico representa três personagens, dando um tom único ao filme. Sellers interpreta o inglês Capitão Mandrake, da RAF (Royal Air Force); o presidente dos Estados Unidos, Mr. Muffley e finalmente o Dr. Fantástico, um ex-cientista nazista que com o fim do III Reich se torna o conselheiro do presidente americano (sim, o roteiro é recheado dessas ironias).
Sellers é tão genial em suas atuações que quase não percebemos que esses três personagens são interpretados pela mesma pessoa. Por exemplo, quando está representando o presidente dos EUA, sua voz é calma, controlada, porém ele sempre se apresenta tenso. Como oficial da RAF ele muda a voz e tem sotaque inglês. É desastrado, porém disciplinado, como todo inglês. Entretanto é como Dr. Fantástico que Sellers se supera, falando com sotaque alemão e preso a uma cadeira de rodas.
Dr. Fantástico não tem o controle de suas mãos e faz a todo tempo, involuntariamente, a saudação nazista “Zieg Hail” para o presidente dos EUA - vejam só, novamente, que ironia. É interessante também observar as caras e trejeitos que o presidente dos EUA faz quando é “saudado” e a expressão no rosto do Dr. Fantástico quando seu braço simplesmente se contrai seguindo de um estrondoso “Hail!”.
Sua tripla atuação, representando papéis antagônicos, significou para a indústria cinematográfica uma inovação, afinal de contas, temos momentos em que dois de seus personagens dialogam entre si, configurando desta maneira uma novidade no cinema até então. Mérito para Kubrick e Sellers. Na realidade Peter faria inicialmente quatro papéis, interpretando também o piloto do avião bombardeiro Major T.J. “King” Kong.
Para continuar dissecando o filme é interessante falar um pouco do roteiro. O filme, de 1964, foi indicado a quatro estatuetas do Oscar e conta a história de um ataque nuclear "acidental". Filmado durante o auge da Guerra Fria, mostra o General Jack D. Ripper (nome dado em referência a Jack, o Estripador) enlouquecido e convencido de que os comunistas estão poluindo "os preciosos fluídos corporais da América" e por conta disso ordena um ataque nucelar a União Soviética.
Seu ajudante, o inglês Capitão Mandrake (Peter Sellers), tenta desesperadamente uma maneira de suspender o ataque. Sellers protagoniza uma das cenas mais hilariantes do filme, quando tenta de qualquer maneira explicar, sob a mira de um fuzil, para um soldado americano a senha para cancelar o ataque, enquanto fala de um telefone público. Enquanto isso, o presidente dos EUA (Sellers, novamente) liga, do famoso telefone vermelho de emergência, para explicar para o bêbado premier soviético, que os EUA irão explodir uma bomba nuclear, acidentalmente, na URSS, explicando para o premier que impedir o ataque é erro tolo.
A partir de então a história é alternada sempre em três cenários: a sala de guerra; a base militar onde o general Ripper está sitiado e o avião bombardeiro que carrega a temida bomba atômica, pilotado pelo texano Major T.J. “King” Kong (a ironia do nome deste personagem está no final do filme, que é simplesmente fantástico!).
A propósito, sobre o Major T.J. “King” Kong cabe um destaque. Observando bem o filme eu percebi que em um certo momento sua voz mudava de intensidade e parecia que havia sido dublado. Depois de pesquisar um pouco descobri que realmente havia sido dublado um pequeno trecho do filme. Trata-se de uma mudança feita de última hora – feita pouco antes do lançamento – é uma fala do diálogo do Major, dentro do avião, com seus pilotos. No momento em que ele revisa o kit de sobrevivência à bomba, o Major diz que o kit é tão completo que daria para passar bons momentos em Dallas, entretanto foi feita uma modificação e o ator dublou por cima a palavra Vegas. Isso porque o presidente Kennedy tinha acabado de ser assassinado em Dallas, em novembro de 1963.
Além de fazer uma ácida crítica à Guerra Fria, Stanley Kubrick aproveita também para criticar a libido masculina. Por exemplo, o General Turgidson (nome que faz referência a sua libido inchada), é um dos conselheiros do presidente. Turgidson é convocado as pressas para compor a mesa da Sala de Guerra (um imenso cenário, onde o presidente se reúne com os conselheiros). O telefonema para o general é atendido por sua secretária, com quem ele tem um caso, que por sua vez aparece apenas de calcinha e sutiã deitada na cama. Em paralelo, no avião bombardeiro, um local apertado e claustrofobórico um soldado folheia uma Playboy, em que a modelo da capa é justamente a secretária do general. (Ora veja só, mais uma ironia!) De volta à sala de guerra, o general Turgidson (que nutri verdadeiro ódio aos comunistas), recomenda veemente ao presidente que o melhor mesmo é de fato explodir bombas nucleares na URSS e que os comunistas são um perigo a nação.
Neste meio-tempo o embaixador russo Sadesky (que recebe esse nome no filme em homenagem ao Marquês de Sade) revela a existência de um dispositivo de retaliação automático caso haja um ataque à Rússia. A existência da máquina é confirmada pelo Dr. Fantástico, que sugere uma saída para a crise. A construção de um imenso bunker nas cavernas, onde a proporção de mulheres para homens seria de 10 para 1, lógico que o general Turgidson aprova a idéia instantaneamente.
Dentre as várias ironias da história outra que é impossível deixar de citar é quando o presidente dos EUA tenta separar uma briga entre o embaixador Sadesky e o general Turgidson, dizendo: “Vocês não podem brigar aqui, por Deus, aqui é a Sala de Guerra!”. Outra sacada de Kubrick é mostrar insistentemente na base militar um letreiro que diz: “Paz é a nossa profissão”, quando na realidade estamos prestes a provocar uma tremenda guerra nuclear.
É difícil escrever uma crítica sobre um filme que eu considero um dos melhores já feitos. Principalmente quando estamos falando dos filmes de Stanley Kubrick, que já havia filmado antes outras obras primas, entretanto é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores, deste diretor que é considerado pela crítica mundial como um gênio do cinema. Entre seus melhores filmes, alguns já citados acima, estão também: “Laranja Mecânica”, “De Olhos Bem Fechados” e “Nascidos para Matar”.
Já lançado em DVD, o filme é difícil de ser comprado e principalmente de ser encontrado para aluguel nas locadoras, entretanto, vale a pena procurar um pouquinho para comprar o DVD e se divertir com essa louca história nuclear.
Contundente, surpreendente e marcante. Assim é Glória Feita de Sangue, drama sobre a Primeira Guerra Mundial que permanece forte como uma obra-prima cinematográfica sobre o tema da guerra. Estabeleceu de uma vez por todas e de forma brilhante o status de grande diretor que Stanley Kubrick já esboçara em "O Grande Golpe" feito no ano anterior.
Kirk Douglas, um dos principais responsáveis pela execução do filme (que encontrara rejeição dos estúdios devido ao tema delicado do roteiro), faz o papel do Coronel Dax, comandante de um destacamento que faz oposição aos alemães na fronteira da França. Relutantemente ele aceita do arrogante general Mireau a missão suicida de tomar a colina de Ant Hill, dominada pelos inimigos. A investida é realizada, mas não é bem-sucedida, e as conseqüências do fracasso determinam o tom do resto do filme. O general instaura corte marcial para julgamento de parte da tropa por covardia diante do inimigo, cuja punição esperada é o pelotão de fuzilamento. É então que Dax, na vida civil um advogado em direitos humanos, decide assumir a defesa dos soldados e tentar reverter a decisão absurda.
O filme foi proibido por décadas em vários países, inclusive a França. Sua força reside em mostrar de forma transparente os jogos de política e interesse por trás de uma guerra, que muitas vezes terminam por sacrificar as vidas de muitos soldados em resposta à arrogância de militares incompetentes. Os diálogos são incisivos, marcantes, e em alguns momentos recheados de metáforas que atingem profundamente a figura intocável do sistema militar. Kirk Douglas e George MacReady estão excelentes como Dax e Mireau, respectivamente, assim como o resto do elenco. Curiosidade: Susanne Christian, que aparece cantando na inesquecível seqüência final do filme, viria a ser a futura sra. Kubrick. (Dur: 87 minutos)