Mostrando postagens com marcador Charles Chaplin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Charles Chaplin. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de maio de 2010

08/05: Tempos Modernos (Charles Chaplin, 1936)

Tempos Modernos - Charles Chaplin (1936)

Sinopse
Um operário de uma linha de montagem, que testou uma "máquina revolucionária" para evitar a hora do almoço, é levado à loucura pela "monotonia frenética" do seu trabalho. Após um longo período em um sanatório ele fica curado de sua crise nervosa, mas desempregado. Ele deixa o hospital para começar sua nova vida, mas encontra uma crise generalizada e equivocadamente é preso como um agitador comunista, que liderava uma marcha de operários em protesto. Simultaneamente uma jovem rouba comida para salvar suas irmãs famintas, que ainda são bem garotas. Elas não tem mãe e o pai delas está desempregado, mas o pior ainda está por vir, pois ele é morto em um conflito. A lei vai cuidar das órfãs, mas enquanto as menores são levadas a jovem consegue escapar. Duração: 86 minutos
Antes da sessão haverá uma pequena palestra ministrada pela socióloga Fabiane Cancian assim como um debate ao final da sessão também mediado por ela. Além disso, antes da sessão estarão sendo projetadas fotografias de Lewis Hine, fotógrafo americano empenhado em denuciar os abusos trabalhistas do início do século XX.

Crítica: Tempos Modernos (Charles Chaplin, 1936)

por Pedro Henrique
Extraído de http://tudoecritica.blogspot.com/2009/08/tempos-modernos.html

O homem contra a máquina. Não só a máquina robótica e mecânica, mas a do sistema, que manipula e corroi a humanidade, a sociedade e o próprio sistema sócio-econômico mundial. Um sistema envenenado pela cobiça do homem. Uma luta infinita rumo à auto-destruição. Acredite, com muita alegria, criatividade e inteligência, Charles Chaplin fez de Tempos Modernos uma fábula do homem e da máquina, da fome e do poder, do comunismo e do capitalismo. É também um filme anárquico, quase filosófico, mas que crê num futuro rentável, apaziguado e consumido pela paz, onde homens e máquinas poderão caminhar lado a lado, não em direções opostas. Uma grande ideia e um argumento brilhante, mas que dificilmente funcionaria nas mãos de qualquer outro diretor - deste e de outros tempos. Além disso, o filme que de melhor maneira representa o poder da imagem e como ela pode contar uma história.

Em 1936 (data de lançamento de Tempos Modernos), o cinema falado já existia há dez anos, mas Chaplin continuava mudo. Na verdade, arriscou algumas falas aqui, mas nada mais que rádios, máquinas e o dono da fábrica, que "não guarda nenhuma semelhança com Henry Ford". Ademais, manteve a estrutura do cinema mudo, com diálogos textuais na tela quando as imagens não podiam imprimir o que se passava. Mais uma vez, a nível de sua filmografia, funcionou - e como nunca. Funcionou porque Chaplin era um mímico, um imitador elegante. Sabia como ninguém causar impressões, descrever cenários e personagens com o poder do gesto, do corpo e da alma. Tinha ética, linha de conduta, muitas ideias, sonhos, vontade de fazer. E fez.

Aqui, Chaplin satiriza, torna movimentos corporais parte da história, do subtexto argumentativo. Populariza e imortaliza seu personagem, o maior de todos: Carlitos, vulgo vagabundo. Dá voz (pela primeira e última vez) ao personagem em uma cena antológica, cantando uma canção inteligível. Um verdadeiro apanágio. Surge também como um alerta de que o homem, que da terra e de outros animais tira riqueza, pode viver em paz com a máquina. Há uma cena em especial que pincela esse argumento de Chaplin com exatidão, que é quando o vagabundo dança em volta de uma máquina enquanto os outros funcionários o perseguem. Ali, ele é um anarquista, pois diz não ao domínio, ao controle, à escravidão. Nesta cena, a máquina vira sua aliada, pois para impedir que seus colegas furiosos o peguem ele liga a máquina sempre quando alguém a desliga, fazendo-os voltar ao trabalho e deixando-o dançar, pois seus colegas ainda são reféns dela. Perfeita composição.

O filme trava um duelo simpático com o consumismo, desferindo golpes elegantes contra esta condição em que vivemos. Chaplin não critica tão somente a mecanização, mas também a outras questões sociais da época: comunismo, anarquismo, grande depressão americana, consumismo, fome, pobreza. Trabalhando com Paulette Goddard (sua excelentíssima esposa na época das filmagens e atriz muita bonita e simpática), o diretor fez um filme do coração, do pensamento revolucionário. É o último filme mudo de Chaplin, e que, mesmo não tendo diálogos, conta com música e efeitos sonoros.

Como poucos, fazia valer do seu talento cômico. Carlitos, que aqui aparece derradeiramente, continua sensacional e muito bem vivido pelo seu criador. Aquele personagem é o cérebro de Chaplin, por isso o ícone mundial do repertório cinematográfico das grandes estrelas. Em Tempos Modernos, aliás, temos uma nova perspectiva no final, quando o diretor muda a tomada final pela primeira vez. Um novo caminho, talvez o fim de uma Era de sofrimento e miséria para uma nova de riqueza e felicidade, porque Chaplin nunca deixou de sonhar. O vagabundo era um gentleman, e tem aqui o seu tour de force.

Na crítica e na sátira, Chaplin não perdoava. Sua visão esquerdista era ampla e certeira, alfinetando a alta classe com categoria. Além disso, é lindo ver um gênio em ação, pois Chaplin conhecia todo processo da máquina e trabalhava intensamente em todas as áreas desde o início de seus filmes. Aqui, mais uma vez, em prol do desenvolvimento de uma obra-prima. Tempos Modernos sempre será um filme a ser lembrado e citado nas salas de debate. Chaplin era um formador de opiniões, que pensava na humanidade e na vida por trás das câmeras. Para Chaplin, o que realmente importava num filme não era a realidade, mas sim o que dela podemos extrair a imaginação. Isso é Tempos Modernos.

Artigo: Tempos Modernos (Charles Chaplin, 1936)

Por Cesar Dutra Inácio
Extraído de http://www.tempopresente.org/index.php?option=com_content&task=view&id=1395&Itemid=83


O anti-herói tragicômico Carlitos, em sua faceta trabalhador industrial talvez tenha sido quem melhor traduziu a Grande Depressão (1929-1941) nos Estados Unidos. Charles Chaplin com seu filme Tempos Modernos (Modern Times, 1936) sintetizou como ninguém o período histórico marcado pelo desemprego em massa, queda acentuada do produto interno bruto em decorrência do declínio da produção industrial e dos preços das ações subseqüente à Quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929.

A Grande Depressão gerou grandes repercussões para a nação norte-americana – cerca de 325 bilhões de dólares foram perdidos só em bens. O declínio econômico trazido pela Depressão teria custado aproximadamente um ano e dois meses de emprego. Entretanto, a fenda no padrão de vida não se configurou de forma equânime para todas as parcelas da população estadunidense. Oficiais das Forças Armadas, pilotos de linhas aéreas, professores universitários e alguns operários especializados se mantiveram estáveis. Alguns norte-americanos ainda conseguiram prosperar em seus negócios, chegando em poucos casos acumular fortunas significativas. É evidente que a maior parte da população não se enquadrou nesse perfil. (GRAHAM JUNIOR, 1976)

Trabalhadores de áreas marginais sensíveis (como barbeiros, músicas, jardineiros, etc.) foram aqueles que mais sentiram as repercussões negativas da crise. Professores primários, principalmente, os que trabalhavam em escolas públicas, somados a arquitetos, pequenos comerciantes e agricultores sofreram um severo declínio em suas atividades. Os cidadãos que não eram detentores do perfil sócio-ideal de trabalhador (não-brancos, judeus, homens de meia idade e velhos, etc.) tiveram na Depressão a antecipação do tempo de dependência e angústia do fim da vida.

Em suma, a Grande Depressão delineou um quadro de mazelas sócio-econômicas traduzido no desmoronamento das esperanças e no desespero pela sobrevivência, sobretudo das camadas mais baixas da população que encarou fome, superpopulação, desnutrição e doenças.

A indignação com os turbulentos anos de crise que se configuravam não poderia ter se ausentado do mundo das artes. Dentre as formulações artísticas da época, o cinema talvez tenha sido um dos maiores elementos de crítica – seja pelo molde realista seja pela sutileza da comédia. Mesmo correndo o risco de transformarem-se em fracassos comerciais, filmes como Black Legion (1937) com sua contestação a violências raciais e I Am Fugitive from a Chain Gang (1935), crítica ao tratamento dado aos presos, ganharam destaque pela ousadia e posição política firme contra os despropérios de uma nação assolada pela crescente crise. Contudo é com o talento do humor de Charles Chaplin em sua obra Tempos Modernos (Modern Times, 1936) que a crítica ao modo de produção capitalista e à reprodução social burguesa que se deu de forma mais genial.

Chaplin esforça-se em delinear não somente concepções que abrangem as questões trabalhistas em si, mas também uma perspectiva de humanidade em que a busca pela felicidade é uma constante. A frase do início do filme pontua a idéia central da obra: “Tempos Modernos. Uma história sobre a indústria, a iniciativa privada e a cruzada da humanidade em busca da felicidade.” (CHAPLIN, 1936)

O personagem de Chaplin representa o trabalhador da primeira metade do século XX em vários aspectos, contudo simultaneamente ressalta o desajuste à modernidade burguesa. Por um lado, o industrial worker se destaca da multidão como individualidade heróica que se identifica com o público-massa (construção característica de Hollywood), mas por outro, pontua uma tentativa frustrada de inserção na sociedade capitalista traduzida na busca pelo anonimato (configurando-se em um anti-herói problemático). (ALVES, 2005)

A constante sensação de estranhamento com relação à sociedade é o elemento central da tragicomicidade da película. Tanto no ambiente de trabalho quanto em seu cotidiano sempre há um desajuste à realidade.

O ambiente fabril nos traz muitas informações sobre os elementos constitutivos do modo de produção capitalista e da sociedade norte-americana da época. A linha de montagem fordista com sua extrema especialização produz partes de mercadorias não-identificadas — Chaplin não nos deixa saber o que está sendo produzido. Somente sabemos que é uma fábrica de componentes elétricos (Electro Steel Corp.). O trabalhador perde a noção total de produto dada à divisão de tarefas. Desse modo, o trabalho ganha caráter abstrato.

Em uma cena mais adiante, Carlitos volta à fábrica só que agora na condição de assistente de manutenção das máquinas. Uma leitura possível é que o velho que acompanha Chaplin represente os antigos artesãos metalúrgicos. A cena em que o funcionário mais antigo fica preso nas engrenagens pode demonstrar que o novo capitalismo marcado pelo taylorismo-fordismo suplantara o sistema de produção artesanal.

Destaca-se também nesse ambiente a tentativa de controle total do funcionário por parte do capitalista. O capataz controla a linha de produção no que diz respeito ao seu andamento, enquanto o capitalista dita a velocidade da produção através de uma grande tela a la Big Brother como na obra literária 1984 de George Orwell (1949). A utilização de uma tela para o controle dos funcionários – o personagem de Chaplin é observado até dentro do banheiro! – já tinha sido realizada no clássico filme de ficção científica, Metropolis do cineasta alemão Fritz Lang em 1926.

A ligação com a máquina (fetiche do capital) é tão grande que o trabalhador industrial passa a ser parte dela. Tanto que Carlitos é engolido por ela e, após um dia estressante dia de trabalho é imbuído pela loucura. Já que não há o trabalhador perfeito como em Metropolis (Lang, 1926) – onde é criado um robô incansável de afeições humanas – tenta-se fazer do ser humano uma máquina — com a realização de trabalhos cansativos e repetitivos em uma aviltante jornada de trabalho diária.

Um outro exemplo de controle total do capitalista sobre o funcionário é a tentativa de utilização da Máquina Alimentadora Bellows. O mecanismo é anunciado por um vendedor mecânico (a máquina substitui o vendedor humano!) como “um artefato prático para alimentar seus empregados enquanto trabalham”. (CHAPLIN, 1936) Assim, procura-se eliminar os tempos mortos da produção tal como concebe a teoria taylorista. A tentativa é desastrosa. A sopeira dá uma pane e quase eletrocuta o industrial worker interpretado por Charles Chaplin.



O sentimento de inadequação de Carlitos com a realidade também se estende a outras atividades exercidas pelo personagem. Logo após sair da prisão, ele procurou outro emprego: conseguiu em um estaleiro naval. Esforça-se em seguir as ordens de um superior: procurar um pedaço de madeira que fosse parecido com o que ele tinha em suas mãos. Depois de explorar um pouco o terreno finalmente o encontra. Mas é nesse ponto que ocorre a confusão. Por ainda estar ambientado com a fábrica, não percebe as diversas utilizações possíveis do material madeira, haja vista que devido à especialização de seu trabalho, somente consegue apreender um uso para mesma. No caso, a madeira que achou – dentre as várias funções possíveis para ela – servia como trava para o navio ainda em construção. O navio para seu desespero desliza e afunda por completo no lago. Os demais funcionários observam a cena estarrecidos. Carlitos envergonhado decide voltar para a prisão por se sentir inadaptado para aquela realidade. (ALVES, 2005)

Devido a esse estranhamento constante, o personagem chaplino não consegue permanecer por muito tempo no mesmo emprego. Como um artista circense que foi desde a infância, Carlitos se desdobra em funções que vão desde operário da indústria, passando por vigia de loja de departamento e auxiliar de manutenção de máquinas até garçom e showman em um bar à noite. O personagem não chega a ser exatamente o que mais tarde o sociólogo Huw Beynon chamou de trabalhador hifenizado, uma vez que tal categoria se caracteriza no emprego baseado em um contrato que não segue uma padronização específica no qual o trabalho pode ser temporário ou ocasional; autônomo, doméstico ou franqueado; por meio expediente ou integral; em que diversas atividades são exercidas pelo mesmo indivíduo em diferentes horários do dia ou da noite. (BEYNON, 1995) Carlitos teve vários empregos, porém não permaneceu atrelado a eles simultaneamente. O personagem de Chaplin não teve várias ocupações com o objetivo de tentar completar sua renda mensal ou semanal, mas sim devido à sua inadaptação ao serviço. A mudança de emprego é constante. Portanto, a questão é o estranhamento e não a flexibilização do mundo do trabalho.

Charles Chaplin não se conteve em explicitar apenas o mundo do trabalho: evidenciou também o desdobramento da modernidade burguesa na vida social. A internação no hospício – provavelmente inspirado em sua mãe que também teve um surto nervoso –, assim como a clausura no presídio – após ter sido confundido com um líder comunista – retrata os espaços onde os que não servem para o trabalho são alocados pela sociedade burguesa. (HALE, 2006; ALVES, 2005)

O sofrimento seja físico ou mental é fruto do processo de industrialização frenético em que o doce trabalhador – de tantas atribuições – é na verdade a figura mais atormentada do filme. A cena em que Chaplin canta e dança ao som da música Nonsense Song é o real momento em que o industrial worker pode se libertar. Naquele momento ele pode ser ele mesmo, gozando da liberdade plena de sua vontade.

No final do filme a sua viagem para o horizonte junto à Paulette Goddard pode ser interpretada como a morte social dos personagens. Tentar escapar da sociedade burguesa – simbolizada pela caminhada na estrada vazia sem nada a frente – é algo inconcebível, haja vista que não podemos nos isolar socialmente. Desse modo, o Vagabundo (The Tramp) e a Garota (The Gamin) parecem estar destinados a não-existência. (SUSMAN apud GOLDMAN, 2004)



Portanto, o filme de Charles Chaplin reportou-se às péssimas condições de trabalho — as árduas horas de trabalho e o desempenhar repetitivo do apertar parafusos e puxar de alavancas — decorrente da maior especialização da linha de produção fordista. Com tal divisão de tarefas não é mais permitido ao trabalhador saber o que afinal estava produzindo: como o trabalhador não participa das demais etapas do processo produtivo ele perde a noção total de produto. Tanto que para expressar esse fenômeno, Chaplin não nos deixa saber que produto a indústria no filme está produzindo.

As características do fordismo ainda estão presentes no mundo atual. O sociólogo Huw Beynon, especialista do mundo do trabalho, ao reiterar Ritzer ressalta que tal concepção, não só de trabalhador, mas também de consumidor ainda estariam em voga:

“Muitas características do fordismo também são encontradas no estilo de McDonald's: a homogeneidade dos produtos, a rigidez das tecnologias, as rotinas padronizadas de trabalho, a desqualificação, a homogeneização da mão-de-obra (e do freguês), o trabalhador em massa e a homogeneização do consumo (...) nestes e em outros aspectos, o fordismo continua vivo e forte no mundo moderno.” (RITZER apud BEYNON, 1995, p.12)

Nesse sentido, Tempos Modernos (Modern Times, 1936), último filme mudo produzido por Charles Chaplin ainda soa atual. Em uma sociedade marcada pela complexidade, onde os indivíduos são regrados pelos segundos precisos do relógio, Carlitos conquistou o mundo com sua simplicidade convertendo-se em um dos maiores gênios do cinema de todos os tempos – sejam eles modernos ou não!

BIBLIOGRAFIA

ALVES, Giovanni. A batalha de Carlitos: trabalho e estranhamento em Tempos Modernos, de Charles Chaplin. In: ArtCultura. Uberlândia, V.7, No.10, Janeiro-Junho de 2005.

BEYNON, Huw. A destruição da classe operária inglesa? In: Revista Brasileira de Ciências Sociais. No.27, Ano 10, Fevereiro 1995. p.5-17).

CHAPLIN, Charles. Tempos Modernos. Título original: Modern Times. Preto & Branco. Legendado. Duração: 87 min. Warner, 1936.

GOLDMAN, Jonathan E. Double Exposure: Charlie Chaplin as Author and Celebrity. In: M/C Journal. Volume 7. Issue 5. November/2004.

GRAHAM JUNIOR, Otis L. Anos de Crise – A América da Depressão e na Guerra, 1933-1945. In: LEUCHTENBURG, William E. (org.) O Século Inacabado – A América desde 1900. V.1. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1976. p.367-475.

HALE, Aaron. Chaplin – an essay. Disponível em http://www.csse.monash.edu.au/~pringle/silent/chaplin/aaronhale.html Acessado em 25 de Julho de 2006.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Reprise dos mais votados - 08/07 - O garoto - Charles Chaplin

O garoto - Charles Chaplin (1921).

Sinopse
O filme conta a história de um bebê que é abandonado pela mãe que não tem condições de criá-lo e que é encontrado e criado pelo vagabundo. Conforme os anos se passam, o garoto e o vagabundo se tornam uma dupla perfeita, bolando diferentes esquemas para conseguir o dinheiro para seu sustento. Duração: 68 minutos.

quarta-feira, 25 de março de 2009

28/03 - O grande ditador

O grande ditador - Charles Chaplin (1940)

Sinopse
Em meio a Segunda Grande Guerra Mundial, judeus estavam sendo esmagados pelo preconceito alemão. Chaplin, genialmente, interpreta os dois protagonistas da história: o ditador Adenoid Hynkel (em clara referência a Hitler) e o barbeiro Judeu. Irônico e atrevido, este filme lhe causou sua expulsão dos Estados Unidos, mas criou também uma obra-prima única com uma das melhores mensagens anti-guerra já transmitidas ao homem. Duração: 124 minutos

Crítica - O grande ditador

por Rodrigo Cunha
Extraído de http://www.cineplayers.com/critica.php?id=254


Charles Chaplin é um gênio. Isso é um fato que não há como discutir, que foi construído ao longo dos anos, conforme seus filmes iam sendo produzidos. É praticamente impossível que, uma pessoa que assista TV ou veja filmes, não o conheça, mesmo que indiretamente. Chaves, por exemplo, a famosa série de TV da vila e de pessoas atrapalhadas, é inteiramente baseada nas obras de Chaplin, inclusive com algumas cenas e falas retiradas de seus filmes. Como um bom amante de Cinema, não poderia deixar de comentar uma de suas maiores obras, talvez a que eu mais goste, talvez a mais crítica, com certeza a mais política de todas: O Grande Ditador.

O filme foi o primeiro a ter uma cópia restaurada e redistribuída autorizada pela família do ator, escritor e diretor (sim, Chaplin era isso tudo em seus filmes, e sempre brilhante), o que nos faz duvidar da legalidade e qualidade desses DVD´s que rondam as bancas brasileiras (se bem que eles ajudam, e muito, as pessoas a conhecerem as obras de Chaplin). Apesar de ter sido produzido em 1940 (13 anos após a estréia do som no Cinema), este foi apenas o primeiro filme totalmente falado de Carlitos. Antes disso, ele havia aberto sua boca (e mesmo assim não para falar) somente em Tempos Modernos (outro clássico), na cena em que ele canta de improviso para um bar lotado. Chaplin sempre acreditou que o som tiraria o expressionismo, o que, hoje em dia, realmente aconteceu. Demorou, mas ele abriu a boca.

A história aqui é em meio a Segunda Grande Guerra Mundial, onde os judeus estavam sendo esmagados pelo preconceito alemão. Chaplin, genialmente, interpreta os dois protagonistas da história: o ditador Adenoid Hynkel (em clara referência à Hitler) e o barbeiro Judeu. Irônico e atrevido, logo no início da projeção lemos uma mensagem que diz que qualquer semelhança dos personagens com a realidade é mera coincidência. Só que essa ousadia lhe rendeu alguns efeitos colaterais, como ter sido expulso dos EUA. Tudo devido a esta sátira em meio ao apogeu do criticado, coragem sem igual na época.

Durante suas duas horas e cinco minutos de produção (sem nunca ficar cansativo ou chato!), o filme é inteiramente feito de cenas clássicas do Cinema, sendo que a maior delas, sem sombra de dúvidas, é a que Hynkel brinca com o globo do mundo. Uma cena sempre imitada, jamais igualada. Seus movimentos, o significado, ela é inteiramente encantadora. Outra cena extremamente engraçada é o discurso alemão, sendo que nenhuma palavra sequer pode ser entendida. O esbravejamento, a calma, tudo é perfeitamente compreensível somente pelos movimentos. O ditador alemão também divide hilárias situações com o outro ditador, Napoloni (satirizando Mussolini), onde os dois ficam em uma constante disputa de ego. A cena da barbearia, onde os dois ficam subindo as cadeiras para que o outro olhe para cima, e a briga de comida são críticas fortíssimas empregadas de maneira inteligente e extremamente divertidas. Este também foi o último filme de Chaplin com sua ex-mulher Goddard, assim como o último que teve presença do bigodinho.

O filme foi indicado para o Oscar nas categorias de melhor filme, ator, roteiro, ator coadjuvante e trilha sonora. Isso é, no mínimo, irônico. Expulso e consagrado, no mesmo lugar, na mesma época. Aqui ele realmente tinha algo a dizer com suas palavras. O discurso final, englobando tudo o que havia criticado durante o filme, é emocionante. A cegueira das pessoas também é criticada nessa cena. Como todas aquelas pessoas, que se dizem fiel, conseguiram confundir seu maior ídolo com um simples judeu com suas roupas? E as condecorações? Será que os militares não teriam percebido? O filme é também menos engraçado do que os tradicionais, reservando-se mais em contar a história em certos momentos. Apesar desse fato e das cenas já comentadas, algumas outras não são menos engraçadas: o vôo de cabeça para baixo do avião, o judeu tentando controlar o canhão, o judeu fazendo a barba ao som de uma famosa ópera. Enfim, o filme é Chaplin, apenas com uma história mais séria para se contar.

O Grande Ditador é um dos melhores filmes que eu já vi, sem sombra de dúvidas. Esteja preparado para todas aquelas piadas ‘bobas’ que você está acostumado principalmente se assistir Chaves, pois foi tudo originado aqui. Só que, ao mesmo tempo, há excelentes sacadas e um tom extremamente irônico a diversos acontecimentos sérios satirizados. Indispensável, aconselho até aqueles que não gostam de filmes antigos por seu charme e poder de encantar a todos que estiverem assistindo.




segunda-feira, 9 de março de 2009

14/03 - O garoto

O garoto - Charles Chaplin (1921). Duração: 68 minutos

Sinopse
O filme conta a história de um bebê que é abandonado pela mãe que não tem condições de criá-lo e que é encontrado e criado pelo vagabundo. Conforme os anos se passam, o garoto e o vagabundo se tornam uma dupla perfeita, bolando diferentes esquemas para conseguir o dinheiro para seu sustento.

Assista aqui a um pequeno trecho do filme.

Crítica - O garoto


por Caio Lucas Martins Matos
Adaptado de http://www.cineplayers.com/comentario.php?id=6852


“Um filme que pode lhe trazer sorrisos, e talvez, alguma lágrima.”

É a primeira coisa que lemos com o início do “drama”. Sim, nunca classifiquei nenhum filme de Chaplin como comédia. Na maioria das vezes ele fez romances, mas o primeiro longa-metragem seu que causou um grande impacto nas pessoas foi “O Garoto”. Um drama que mostra uma sensibilidade imensurável por parte de um vagabundo que recebe a missão de criar uma criança. Criança essa que foi se adaptando ao modo de vida de Carlitos, inclusive nas malandragens. A compaixão foi poucas vezes tão intensa como nessa pérola do cinema mudo. Cinema mudo que construiu inúmeros momentos de felicidade.

Temos sempre que comparar os melhores trabalhos de Chaplin. “O Garoto” não é mesmo melhor que “Em Busca do Ouro”, ou “Luzes da Cidade”, ou “Tempos Modernos” e menos ainda a “O Grande Ditador”. Os momentos de risos não são tantos como esses próximos que vieram em sua carreira. O que encanta realmente é o tema central do roteiro, uma criança abandonada ser criada por um vagabundo. Chaplin já era uma das personalidades mais conhecidas do mundo, mas esse é tão importante que após sua realização só apareceram obras tocantes e singulares.

“The Kid” abriu as portas do gênio para o sentimentalismo. Isso foi muito importante em sua carreira. Coloca pra atuar ao seu lado Jackie Coogan, o filho, que com certeza promoveu uma das melhores atuações infantis da história da sétima arte. E pela primeira vez a magia que envolve o filme não foi criada por Chaplin, e sim por seu coadjuvante. Juntos aparecem em cenas antológicas, a única vez em que o vagabundo aparece sozinho e sublimemente é em seu sonho. O fim reserva uma sensação de emoção mais profunda ainda.

segunda-feira, 2 de março de 2009

07/03 - Curtas - Chaplin

Vida de Cachorro (A dog's life) - Charles Chaplin -1918. Duração: 40 minutos
O vagabundo Carlitos salva a vida de Scraps, um cachorro que está sendo atacado por outros cães. Com Scraps escondido dentro de suas calças, o vagabundo entra num salão de baile, onde uma cantora é explorada pelo proprietário do estabelecimento. Quando ladrões roubam a carteira de um milionário bêbado, Carlitos tem a chance de mudar de vida.

Carlitos Presidiário (The Adventurer) - Charles Chaplin -1917. Duração: 31 minutos
Chaplin interpreta um foragido que escapa dos guardas da polícia. Logo, ele se vê comprometido em ajudar uma simples família após salvar uma moça (Edna Purviance) por quase ter sido afogada. Mas o chefe da família (Eric Campbell), faz de tudo para que o foragido volte para a cadeia.

Carlitos Guarda-Noturno (Easy street) - Charles Chaplin -1917. Duração: 20 minutos
Carlitos é um vagabundo que conhece Edna em um centro de ajuda social no bairro por onde perambula. Para impressioná-la, ele aceita ocupar o posto vago do policial que supervisiona a Easy Street, na verdade uma rua sem lei. Ele tem qe enfrentar o vigarista que domina a rua, e ajudar os pobres e defender as mulheres. O poste de luz qua aparece na cena da briga ente o personagem de Chaplin e o vigarista acabou caindo em cima de Chaplin durante as filmagens, e ele foi parar no hospital.

Biografia - Charles Chaplin

Charles Spencer Chaplin nasceu no dia 16 de abril de 1889 às 20 horas, em um subúrbio de Londres. Sua mãe, Lili Harley, era atriz de comédia. Seu pai, também artista do music-hall, abandonou a família quando Charles ainda era pequeno. Um grave problema de laringite acabou com a carreira da jovem Lili Harley, obrigando Charles Chaplin a debutar artisticamente com apenas cinco anos de idade. O teatro, muito freqüentado por soldados, não era propriamente um local "seletivo", mas foi onde o pequeno Chaplin pôde demonstrar pela primeira vez o seu grande talento para a interpretação.

Os primeiros anos da vida de Chaplin se passaram em orfanatos, e foi neles onde Chaplin encontrou todos os elementos que utilizaria mais tarde nos roteiros dos filmes que dirigiu e interpretou. Essa primeira etapa da sua vida não tinha o humor nem a ironia com a qual o cineasta sensibilizou o público do mundo inteiro.Felizmente, Chaplin acabou construindo a sua vida com a única coisa positiva que poderia ter herdado da sua família: a paixão pelo teatro. Graças a seu pai, comemorou o seu oitavo aniversário contratado por uma companhia de bailarinos chamada Eight Lancashire Lads. Pouco depois, a morte de seu pai e a internação da sua mãe em um sanatório marcariam a vida de Chaplin profundamente. Nessa época assinou seu primeiro contrato estável como ator, interpretando um mensageiro em uma versão de Sherlock Holmes. Com esse trabalho, melhorou sua situação financeira. Nesse mesmo ano conseguiu um emprego no Circo Casey, onde pôde desenvolver as suas habilidades cômicas. Já na primeira apresentação, conseguiu arrancar sonoras gargalhadas do público pela maneira desesperada com a qual recolhia as moedas atiradas à arena.

O adolescente Chaplin conseguiu um lugar na companhia do acrobata Fred Karno, apresentado por seu irmão Sidney. Karno, que fazia sucesso com espetáculos de mímica, chegou a ter cinco companhias, apresentando-se em todas simultaneamente. Chaplin rapidamente superou o artista Harry Weldon, com quem dividia o número e, em 1909, teve a sua primeira temporada em Paris.Chegando em Paris, conheceu os favores das prostitutas, e a cidade onde os irmãos Lumiére, George Méliés e Max Linder fizeram nascer a magia do cinematógrafo. Anos mais tarde, Max Linder diria: "Chaplin teve a gentileza de me confessar que os meus filmes o levaram a fazer os seus próprios filmes. Chamou-me de mestre, mas fui eu que tive o prazer de aprender com ele".

Naquela época, o mundo das imagens animadas ainda lutava para conseguir uma linguagem própria e um reconhecimento social. Depois de outra turnê pelo norte da Inglaterra, Karno ascendeu Chaplin a primeiro ator das representações que a companhia faria nos Estados Unidos, em 1910. Toronto e Nova Iorque foram as primeiras paradas desta turnê, antes de prosseguir para o oeste. A Broadway não assimilou o humor inglês, mas Chaplin chamou a atenção de alguns jornais e de um jovem espectador, que nessa época trabalhava para o cinema; era Mack Sennett, que voltaria a encontrar Chaplin dois anos mais tarde, em uma nova turnê pelos Estados Unidos. Enquanto estava na Filadélfia, em 1913, Chaplin recebeu um telegrama pedindo-lhe que fosse até um escritório no centro da Broadway. Ali funcionava a sede da Keystone Comedy Film Company, onde lhe ofereceram um salário de 150 dólares para que fizesse três filmes por semana. Depois de algumas negociações, Chaplin acabou aceitando o trabalho e, ao chegar em Los Angeles, reencontrou Mack Sennett, que seria seu novo chefe.

Chaplin dividiu camarim com estrelas da casa, como Ford Sterling, Roscoe Arbuckle e Mabel Normand. No início, Chaplin teve que se adaptar ao estilo de Sennett, com perseguições policiais e exibições de insinuantes banhistas. O seu primeiro filme, estreado em fevereiro de 1914, mostrava as aventuras de um personagem cômico na redação de um jornal. Em seu segundo filme, Corrida de automóveis para meninos (1914), criou um personagem que logo seria identificado pelo público. Sennett pediu-lhe que se vestisse de maneira engraçada. "Pensei que poderia usar umas calças muito grandes e uns sapatos enormes, além de uma bengala e um chapéu coco. Queria que tudo fosse contraditório: as calças folgadas, o paletó apertado, o chapéu pequeno e os sapatos enormes. Não sabia se deveria parecer velho ou jovem, mas quando me lembrei que Sennett tinha pensado que eu era bem mais velho, coloquei um bigodinho que me daria alguns anos sem esconder a minha expressão". Assim nasceu o famoso "Tramp" (que os povos dos países de idioma espanhol passaram a chamar de "Carlitos").

As disputas com outros diretores e a ambição dificultaram sua relação com a Keystone, depois de ter filmado 35 longas-metragens em apenas um ano. Não foi difícil conseguir, em 1915, um contrato com a Essanay, a produtora que tinha por estrela principal Gilbert M. Anderson, o famoso Bronco Billy dos primeiros filmes western. A partir desse contrato, Chaplin começou a ganhar 1.250 dólares por semana e uma bonificação extra de 10.000 dólares, com a qual formou uma equipe bastante competente, consolidando uma técnica e um estilo próprios. Insatisfeito com os estúdios da Essanay em Chicago e em São Francisco, instalou-se em Los Angeles. Desde o primeiro dos quinze filmes que realizou para essa produtora, teve a colaboração de Rollie Totheroth, seu fiel câmera durante sua carreira nos Estados Unidos. Contratou Edna Purviance como primeira atriz dos filmes que realizaria nos próximos quinze anos , logo após ter começado a dirigir, percebeu "que o posicionamento da câmera não era apenas uma questão psicológica, ms também constituía a articulação da cena; na verdade, era a base do estilo cinematográfico".

O sucesso de Chaplin foi consolidado pelo contrato com a Mutual em 1916. Em troca de 10.000 dólares semanais e de uma bonificação inicial de 150.000 dólares, Chaplin comprometeu-se a entregar doze curtas-metragens de duas bobinas, dentre os quais estão algumas das sus primeiras obras-primas: "No Armazém" (1916), "Rua da paz" (1917), "O balneário" (1917), "O emigrante" (1917). A produtora colocou um novo estúdio à sua disposição, o Lone Star, e o cineasta pôde trabalhar com liberdade, rodeado por uma equipe de fiéis colaboradores como os atores Eric Campbell, Henry Bergman, Albert Austin e Edna Purviance. A respeito de seu envolvimento com Edna Purviance, o próprio Chaplin reconheceu na sua autobiografia: "Como Balzac, que achava que uma noite dedicada ao sexo significava a perda de uma página de algum dos seus romances, eu também achava que seria perder um ótimo dia de trabalho nos estúdios".Quando os Estados Unidos decidiram entrar na Primeira Guerra Mundial, em 1917, Chaplin utilizou a sua popularidade para vender bônus de guerra com Mary Pickford e Douglas Fairbanks. Dessa experiência surgiram dois filmes: The Bond e Nas Trincheiras (1918), uma paródia do exército. Apesar do compromisso com a Cia. First National, o cineasta se uniu a Fairbanks, Pickford e ao realizador David Grifith para criarem juntos a companhia United Artists.

A primeira intenção era romper o monopólio de Hollywood, mas Chaplin só pôde começar a dedicar-se à United Artists depois de rodar nove filmes que havia prometido à First National. Entre eles, rodou Vida de Cachorro (1918), Os Clássicos Vadios (1921), O Peregrino (1923) e O Garoto (1921). Essa obra-prima de seis rolos contou com a participação do pequeno Jackie Coogan e teve que ser montada longe do domínio dos diretores do estúdio. Nessa mesma época, Chaplin, que já era um cineasta, casou-se com a atriz Mildred Harris, em outubro de 1918, quando ela tinha apenas dezessete anos, tiveram um filho que morreu logo depois de ter nascido, e o casamento durou pouco. Em setembro de 1921, oito anos depois da sua chegada aos Estados Unidos e quando ainda não tinha concluído o seu contrato com a First National, Chaplin decidiu viajar à Europa. A sua passagem por Paris e Londres foi memorável. Durante essa viagem, conheceu várias personalidades do mundo da cultura e escreveu um livro, My Trip Abroad, baseado nessa experiência. Edna Purviance deveria ter interpretado o papel de Josefina no filme sobre o imperador francês, mas, nesse momento, outras mulheres surgiram na vida de Chaplin.

A primeira foi a sua própria mãe, que se mudou de Londres para uma casa na costa da Califórnia, onde o seu filho a instalou sob os cuidados de uma enfermeira. Nessa casa, a velha atriz assistiu com grande orgulho todos os filmes de Chaplin, até morrer, em 1928, durante a filmagem de O Circo, filme com que Chaplin ganhou o seu primeiro Oscar. A segunda destas mulheres, com a qual Chaplin teve uma relação muito agitada foi Peggy Hopkins Joyce, dona de uma conta bancária de três milhões de dólares. Ela contava histórias sobre as suas relações sentimentais, como a de um jovem que se suicidou por sua causa em Paris. Chaplin não deixou nenhuma dessas histórias escapara e inspirou-se nelas para o filme A Opinião Pública (1923), sua estréia definitiva na United Artists, que curiosamente não contou com a presença do "Tramp".

Chaplin também tinha conhecido Pola Negri, quando a atriz alemã estreou em Hollywood. A relação de Pola Negri com Chaplin foi um escândalo alimentado pela imprensa sensacionalista, com manchetes que anunciavam um casamento que nunca chegou a ocorrer. A aventura foi rapidamente superada pela chegada de uma jovem admiradora mexicana, que vestiu o pijama de Chaplin, meteu-se na sua cama e depois tentou envenenar-se diante da porta da sua casa. Porém Chaplin acabou sucumbindo aos encantos de Lita Grey. Lita, ainda adolescente, conseguiu ser escolhida para protagonizar a primeira comédia de Chaplin para a United Artists, o longa-metragem Em Busca do Ouro (1925). Durante as filmagens, Lita demonstrou sintomas de gravidez, e o cineasta, que sabia que manter relações sexuais com uma menor era um delito, resolveu casar-se rapidamente com ela. Em junho de 1925, nasceu Charles Chaplin Jr. e, nove meses mais tarde, o segundo filho, Sidney Earle. Mas a relação entre o casal deteriorou-se e o divórcio foi anunciado em agosto de 1927.

Nas suas memórias, Chaplin guarda um prudente silêncio sobre esse casamento, alegando que "como temos dois filhos que amo muito, não entrarei em detalhes". A única satisfação desse casamento infeliz foi a substituição da sua esposa por Geórgia Hale como protagonista de Em Busca do Ouro. Durante as filmagens, Chaplin conheceu a atriz Marion Davies, amante do magnata William Randolph Hearst e anfitriã de festas memoráveis na sua mansão de San Simeón. Um outro importante produtor que esteve em contato com Chaplin foi Josef Von Sernberg. Ele produziu um filme intitulado The Seagull, baseado em um relato do próprio Chaplin sobre os pescadores da costa californiana. Edna Purviance e Eve Sothern eram as protagonistas, mas o produtor ficou insatisfeito com o resultado, retirando o filme de circulação e destruindo-o antes de ter estreado. Chaplin dirigia, depois, O Circo, mas a liberdade de que tinha gozo até então parecia estar com os dias contados. Em 1927, enquanto Chaplin recebia o cientista Albert Einstein na sua mansão e emprestava a sua quadra de tênis para o produtor soviético Serguei Eisenstein relaxar, o produtor Joseph M. Schenk assumiu a presidência da United Artists. O maior problema foi a aparição do cinema sonoro.

A partir da estréia do filme O cantor de Jazz, em outubro de 1927, o cinema começou a incorporar o som. Chaplin começou as filmagens de Luzes da Cidade (1928) e percebeu que o cinema mudo tinha seus dias contados. Apesar disso, não admitia que o "Tramp" falasse e, depois de interromper as filmagens por algumas semanas, decidiu tomar partido por seu personagem e opor-se totalmente ao cinema sonoro. Em uma entrevista para a revista Motion Pictures Herald, declarou: "Detesto os talkies. Eles chegaram para destruir a arte mais antiga do mundo, a arte da mímica. Derrubam o edifício atual do cinema. A beleza plástica continua sendo a coisa mais importante do cinema.O cinema é uma arte pictórica". Ao contrário de Eisenstein, que conseguiu adaptar o som à sua revolucionária concepção de montagem, a partir do Manifesto do Contraponto Orquestral, de 1930, Chaplin foi ainda mais reacionário.

Ao retomar as filmagens de As Luzes da Cidade, decidiu que o seu filme incorporaria uma partitura sonora que ele mesmo compôs, baseada na popular La violetera, mas vetou o uso da palavra. Só uma pessoa com tanto poder em Hollywood, como ele, poderia ter tomado uma decisão tão radical; alugou uma sala de exibição em Nova Iorque, com mais de mil lugares, onde exibiu o filme durante doze semanas. A estréia de Luzes da Cidade em Londres foi o pretexto para uma outra viagem à Europa. Dentre as personalidades públicas, políticas e culturais com as quais entrou em contato, estavam Winston Churchill, Mahatma Gandhi, John Maynard Keynes, George Bernard Shaw, H. G. Wells, Aristide Briand, a condessa de Noailles, além de alguns membros da realeza.

Chaplin era uma celebridade mundial e era também uma personalidade pública que nunca escondeu sua simpatia pelo socialismo e pela defesa das classes oprimidas. Somerset Maugham escreveu: "Tenho a impressão de que sente saudade dos subúrbios. (...) Acho que se lembra, com nostalgia, da liberdade da sua juventude difícil, com a pobreza e as amargas privações, e sabe que nunca estará satisfeito". O cineasta escreve na sua biografia: "Esta maneira de querer fazer com que a pobreza do próximo seja atraente é péssima. Eu ainda não conheci um pobre que sinta falta da pobreza ou que se sinta livre sendo pobre".

Depois da crise de Wall Street, com o New Deal e com a efervescência dos movimentos fascistas europeus, a consciência de Chaplin intensificou-se: "Eu não sou patriota. Como se pode tolerar o patriotismo, quando seis milhões de judeus foram assassinados em seu nome?". O cineasta transferiu essas inquietações para os seus dois únicos longas-metragens feitos durante os anos trinta.

O primeiro filme, Tempos Modernos (1936), é uma sátira sobre a alienação dos operários no processo de produção em série. O protagonista continua sendo o "Tramp", que não diz nenhuma palavra durante todo o filme. O segundo filme é ainda mais radical: apesar de toda a prudência que Hollywood manteve com relação ao nazismo até 1938, Chaplin não duvidou em caricaturar Adolf Hitler. O Grande Ditador (1940), de Chaplin, e Confessions of a Nazi Spy (1939), de anatole Litvak, foram os dois primeiros filmes americanos a declararem guerra ao nazismo. Na Alemanha, nos países ocupados ou aliados o filme foi proibido, os países neutros tiveram que esperar um outro momento político para exibirem o filme. Nem todos os americanos se identificaram com o discurso pacifista que o protagonista divulga no final (confira aqui). Franklin D. Roosevelt recebeu Chaplin, pessoalmente, na Casa Branca, depois de ter solicitado uma projeção privada de O Grande Ditador, sendo seu único comentário bastante lacônico: "Sente-se, Charlie, o seu filme nos está dando muitas dores de cabeça".

Pelo simples fato de ter sido o diretor e intérprete do filme, Chaplin foi rotulado pelos movimentos anticomunistas que surgiram depois da Segunda Guerra Mundial. Rodar um filme antinazista e expressar argumentos humanitários em favor de uma nação aliada eram motivos suficientes para ser mal visto nos Estados Unidos, que, paradoxalmente, estavam em guerra com a Alemanha e ao lado da União Soviética. Nessa época, Chaplin já tinha conhecido a sua quarta esposa. Era Oona O'Neil, filha do famoso dramaturgo Eugene O'Neil. Os dois se casaram em 1943, em uma pequena cidade da costa da Califórnia. Uma curiosa coincidência fez com que, nessa mesma época, Chaplin decidisse filmar Monsieur Verdoux (1947(, baseado em um biografia de Landru, um sádico assassino que matava mulheres depois de seduzi-las. Apesar da idéia de rodar esse filme ter sido de Orson Welles, o cineasta inglês decidiu realizar o projeto e fazer o primeiro filme em que o "Tramp" estaria excluído definitivamente. Monsieur Verdoux não apenas foi censurado pela Motion Picture Association, mas também por um amplo setor da imprensa e por algumas organizações de direita. O filme acabou sendo um verdadeiro fracasso. O círculo de intelectuais formado por Salka Viertel, Clifford Odets, Aldous Huxley, Hanns Eisler, Theodor Dreiser e Bertold Brecht fortaleceu a sua imagem antiamenricana.

Nessas circunstâncias, o Comitê de Atividades Antiamericanas incluiu Chaplin numa primeira lista de "testemunhas hostis", tornando-se conhecidos como "os dez de Hollywood". Como Chaplin demorou a ser citado, decidiu antecipar-se e declarar por escrito: "Para a sua conveniência, direi o que eu acho que desejam saber. Não sou comunista e nunca fiz parte de nenhum partido ou organização política na minha vida. Sou o que vocês chamam de traficante da paz. Espero que não se sintam ofendidos por isso".

Apesar desse ambiente totalmente hostil, Chaplin ainda rodou outro filme nos Estados Unidos, Luzes da Ribalta (1952), um melodrama sobre um artista do music-hall que dedica seus últimos anos de vida a incentivar a carreira de uma jovem bailarina. Nesse filme, Chaplin trabalhou com Buster Keton, outro grande ator cômico da época. Em setembro de 1952, Chaplin recebeu a visita de funcionários do Departamento de Imigração por causa da suspeita sobre a sua militância comunista, a falta de patriotismo que tinha impedido a sua nacionalização e a suspeita de adultério.Eram os últimos dias de Chaplin nos Estados Unidos. Com a desculpa de tirar umas férias, foi para Nova Iorque apresentar Luzes da Ribalta à imprensa e, junto com sua mulher e os quatro filhos do casal, embarcou para Londres, no Queen Elizabeth. Depois de dois dias de viagem, Chaplin recebeu um telegrama comunicando a abertura de uma nova investigação, solicitada pelo Fiscal Geral do Estado, na qual voltavam a aparecer as antigas acusações sobre suas atividades políticas e sua vida particular, o que significou a ruptura definitiva com o país onde tinha vivido durante quarenta anos.

A estréia de Luzes da Ribalta (1952) em Londres, Paris e Roma fez com que Chaplin viajasse bastante pela Europa, instalando-se em uma mansão perto da cidade suíça de Vevey. Oona voltou aos Estados Unidos para resolver questões bancárias, pegar os negativos dos filmes de Chaplin e, de volta à Europa, no consulado americano de Lausanne, renunciou à sua cidadania. Chaplin também devolveu seu visto de regresso, alegando que "já estava velho demais para agüentar tantas bobagens". Mesmo assim continuou a encontrar-se com importantes políticos como Winston Churchill - que o censurou por não ter respondido à sua felicitação pela estréia de Luzes da Ribalta -, Kruschov, Nehru e Chu En-Lai, sem abandonar completamente a possibilidade de continuar trabalhando para o cinema. Apesar de Chaplin ter escrito a sua autobiografia entre 1958 e 1964, não mencionou em nenhum momento o filme Um rei em Nova Iorque (1956). O filme, rodado em Londres, foi sua vingança definitiva por todas as humilhações passadas nos Estados Unidos.

Nove anos mais tarde, em 1965, Chaplin retomou um antigo roteiro que havia escrito para Paulette. A Condessa de Hong Kong foi protagonizado por Sofia Loren e Marlon Brando. Chaplin interpretou um pequeno papel de garçom e o filme teve uma péssima crítica na Europa. Apesar disso, o cineasta ainda viveu o suficiente para receber vários prêmios.Em 1971, a Academia de Hollywood quis restaurar a sua reputação nos Estados Unidos com um Oscar especial "pela incalculável contribuição à arte do século: o cinema". Um ano mais tarde recebeu outro Oscar com um sabor especial, o de melhor trilha sonora pelo filme Luzes da Ribalta, que por não ter estreado em Los Angeles pôde ser candidato ao Oscar vinte anos depois. Nessa ocasião Chaplin decidiu voltar aos Estados Unidos e pisou um palco pela última vez, sendo aplaudido durante muitos minutos. Três anos mais tarde, a rainha da Inglaterra o nomeou cavaleiro do Império Britânico. Em 1977, na fria madrugada de 25 de dezembro, o cineasta deu seu último suspiro, aos oitenta e oito anos de idade.Morria o gênio de infância triste que, com os seus filmes, fez com que milhares de espectadores do mundo inteiro rissem e chorassem.

Extraído de http://www.casadobruxo.com.br/ilustres/chaplin.htm


Filmografia

Keystone studios
1914
Making a Living (2 de Fevereiro)
Kid Auto Races at Venice (7 de Fevereiro)
Mabel's Strange Predicament (9 de Fevereiro)
Between Showers (28 de Fevereiro)
A Film Johnnie (2 de Março)
Tango Tangles (9 de Março)
His Favourite Pastime (16 de Março)
Cruel, Cruel Love (26 de Março)
The Star Boarder (4 de Abril)
Mabel at the Wheel (18 de Abril)
Twenty Minutes of Love (20 de Abril)
Caught in a Cabaret (27 de Abril)
Caught in the Rain (4 de Abril)
A Busy Day (7 de Maio)
The Fatal Mallet (1 de Junho)
Her Friend the Bandit (4 de Junho) (único filme perdido de Chaplin)
The Knockout (11 de Junho)
Mabel's Busy Day (13 de Junho)
Mabel's Married Life (20 de Junho)
Laughing Gas (9 de Junho)
The Property Man (1 de Agosto)
The Face on the Bar Room Floor (10 de Agosto)
Recreation (13 de Agosto)
The Masquerader (27 de Agosto)
His New Profession (31 de Agosto)
The Rounders (7 de Setembro)
The New Janitor (14 de Setembro)
Those Love Pangs (10 de Outubro)
Dough and Dynamite (26 de Outubro)
Gentlemen of Nerve (29 de Outubro)
His Musical Career (7 de Novembro)
His Trysting Place (9 de Novembro)
Tillie's Punctured Romance (14 de Novembro)
Getting Acquainted (5 de Dezembro)
His Prehistoric Past (7 de Dezembro)

Essanay studios
1915
His New Job (1 de Fevereiro)
A Night Out (15 de Fevereiro)
The Champion (11 de Março)
In the Park (18 de Março)
A Jitney Elopement (1 de Abril)
The Tramp (11 de Abril)
By the Sea (29 de Abril)
His Regeneration (7 de Maio)
Work (21 de Junho)
A Woman (12 de Julho)
The Bank (9 de Agosto)
Shanghaied (4 de Outubro)
A Night in the Show (20 de Novembro)
Burlesque on Carmen (18 de Dezembro)

1916
Police (27 de maio)

Mutual Film Corporation
1916
The Floorwalker (15 de Maio)
The Fireman (12 de Junho)
The Vagabond (10 de Julho)
One A.M. (7 de Agosto)
The Count (4 de Setembro)
The Pawnshop (2 de Outubro)
Behind the Screen (13 de Novembro)
The Rink (4 de Dezembro)

1917
Easy Street (22 de Janeiro)
The Cure (16 de Abril)
The Immigrant (17 de Junho)
The Adventurer (22 de Outubro)

First National
1918
A Dog's Life (14 de Abril)
The Bond (29 de Setembro)
Shoulder Arms (20 de Outubro)

1919
Sunnyside (15 de Junho)
The Professor (não-completado)
A Day's Pleasure (15 de Dezembro)

1921
The Kid (6 de Fevereiro)
The Idle Class (25 de Setembro)

1922
Pay Day (2 de Abril)

1923
The Pilgrim (26 de Fevereiro)

United Artists
1923
A Woman of Paris (26 de Setembro)

1925 The Gold Rush (26 de Junho)

1928
The Circus (6 de Janeiro)

1931
City Lights (6 de Fevereiro)

1936
Modern Times (5 de Fevereiro)

1940
The Great Dictator (15 de Outubro)

1942
The Gold Rush (19 de Maio) (re-editado com trilha sonora e narração por Chaplin)

1947
Monsieur Verdoux (11 de Abril)

1952
Limelight (16 de Outubro)

The British Production
1957
A King in New York (12 de Setembro)

1967
A Countess from Hong Kong (5 de Janeiro)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Programação Março - 2009 - Charles Chaplin

Um dos maiores artistas da história do cinema, o inglês Charles Chaplin encanta platéias há gerações, atuando, escrevendo, dirigindo, produzindo e financiando os seus próprios e inesquecíveis filmes.
O Cine Clube Ybitu Katu exibe:
07/03: Curtas - Vida de Cachorro (1918), Carlitos Presidiário (1917) e Carlitos Guarda-Noturno (1917)
14/03: O garoto (1921)
21/03: Luzes da Cidade (1931)
28/03: O grande ditador (1941)