Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)sábado, 9 de abril de 2011
09/04: Morangos Silvestres (Ingmar Bergman, 1957)
Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)Crítica: Morangos Silvestres (1957)
por Sindicato dos CinéfilosExtraído de http://sindicatodoscinefilos.wordpress.com/2010/10/05/morangos-silvestres-1957/
A obra de Ingmar Bergman já se encontra inscrita no cânone cinematográfico. Tal qual Machado de Assis ou Fiódor Dostoiévski para a literatura universal, só para citar dois exemplos, a produção bergmaniana é preciosa para o cinema. Sua filmografia é vasta, mas se tivéssemos de resumi-la em uma única palavra, talvez a melhor fosse: interiores. Daí, pode-se desdobrar o que configura a grande busca do diretor: o entendimento do que se passa no coração dos homens, a angústia que qualquer um tem diante da existência e de sua finitude, as incongruências da vida a dois, o silêncio que paira, latente e lancinante, entre os homens, ainda que se fale muito e se dialogue muito. Temas universais, como se vê, ainda que quase toda sua obra tenha sido filmada na longínqua Suécia.
No caso de Morangos Silvestres, a chave para que se penetre no longa não está presente desde seu título, um tanto obscuro, mas interessante. O interesse de Bergman no filme é flagrar a memória, uma das mais importantes ferramentas que um indivíduo tem, pois se trata de uma aliada do conhecimento.
A memória específica de que o sueco fala no filme é a de um professor de idade avançada, que tem um prêmio importante para receber na cidade onde morou, por sua contribuição como docente e como médico. Para chegar ao local da honraria, toma seu carro, e para lá segue com sua nora. No caminho, é tomado por lembranças de episódios de sua longa vida. Lembranças boas e ruins, que trazem à boca e ao coração gosto de mel ou de fel, como ocorre com qualquer indivíduo. O mergulho feito pelo personagem em suas memórias é acompanhado pelo espectador, que flagra a infância do personagem, na qual ele costumava colher morangos silvestres, o que justifica o título dado ao filme. O idoso relembra festas, diálogos, pessoas, cores, sabores, texturas e emoções que o atravessaram ao longo do tempo.
Ainda que em preto e branco, a história é contada com belas imagens, e num ritmo lento para os padrões contemporâneos. Lentidão que cabe às recordações de alguém que já não tem mais seus vinte anos. E vale lembrar também que o longa foi rodado no distante ano de 1957, época em que Bergman dirigira outra pérola: O Sétimo Selo. Apesar de longe no tempo, o cinema de Bergman não ficou datado. Suas questões são ainda atuais, pois o ser humano é sempre ser humano, em qualquer lugar ou momento histórico.
Os filmes do cineasta evocam todo tipo de discussão: filosófica, existencial, psicanalítica. A preocupação aqui não é enveredar por nenhum desses caminhos, mas apenas descrever o êxtase gerado pela contemplação de pequenas epifanias de alguém que já percoreu uma extensa trajetória, o que Bergman faz como poucos. Ele desnuda o humano, expondo suas fragilidades, tendo a câmera como cúmplice. É como se, em certa medida, o espectador também fosse desnudado, a partir da identificação que tem com as cenas apresentadas.
São esses fatores que, somados, dão beleza, graça e vitalidade a Morangos Silvestres. É cinema autoral, que não se faz preocupado em arrebatar grandes platéias, e que deleita olhos enfadados de efeitos visuais escalafobéticos. Um cinema que se faz sem traço algum de maniqueísmo, sem a preocupação de se colocar um herói e seu antagonista. Até porque, sabe-se muito bem, nós mesmos podemos ser nossos maiores inimigos.
Assistir ao filme é tarefa obrigatória. Mas é uma obrigação que e cumpre com extremo prazer por aqueles que se interessam por vislumbrar a dimensão do humano, e que desejam compartilhar, ainda que pela simples contemplação, a dúvida sobre o sentido da vida, a maior inquietação que temos.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Crítica: A Carruagem Fantasma (Victor Sjöström, 1921)
por Eugênio VitalExtraído de http://olugardosangue.blogspot.com/2007/09/krkarlen-1920.html
Um dos aspectos mais marcantes e originais da estrutura narrativa de A Carruagem Fantasma resulta da utilização de uma série de flashbacks e, até, de flashbacks dentro de flashbacks que vão desvendando, de um modo não linear ou cronológico mas antes em função dos estados emocionais das personagens, as relações que estas mantêm entre si. Através desta técnica, quase inaudita para a época, Sjöström consegue tornar o enredo do filme complexo, mas de fácil compreensão.
Do ponto de vista formal, A Carruagem Fantasma destaca-se pelo uso de uma sucessão de exposições duplas que materializam os episódios mais fantásticos: a chegada da Carruagem envolta em nevoeiro, a imagem fantasmagórica do seu condutor, o périplo nocturno do veículo recolhendo as almas dos mortos, o encontro entre o fantasma de David e a enfermeira agonizante. O êxito arrebatador que o filme obteve ficou a dever-se, também, ao domínio perfeito da montagem paralela, ao rigor demonstrado no enquadramento e composição dos planos, ao elaborado tratamento fotográfico, à excelência dos encadeamentos da acção e à subtil mistura da dimensão onírica e fantástica da história com o realismo descritivo aplicado ao mundo rural do séc. XIX.
O perfeccionismo de Sjöström e do director de fotografia, Julius Jaenzus, e a complexidade das técnicas utilizadas levaram a que o filme, rodado em Maio de 1920, só estreasse na véspera do Ano Novo de 1921 — a escolha da data não terá sido por acaso!
A Carruagem Fantasma pode ser colocado a par de outras grandes obras como Broken Blossoms (1919), de D. W. Griffith, Sunrise (1927), de Friedrich Wilhelm Murnau, ou La Passion de Jeanne d'Arc (1928), de Carl Theodor Dreyer, todos eles tributos gloriosos à dignidade de um estilo cinematográfico marcado por um carácter experimental e inovador, fruto da visão pessoal dos seus criadores.
Ingmar Bergman, que considerava Victor Sjöström um dos seus mestres, disse que via o filme pelo menos uma vez por ano.
Comentário de Ingmar Bergman a respeito do filme A Carruagem Fantasma (Victor Sjöström, 1921)
O cineasta sueco Ingmar Bergman (foto acima) disse a seguinte frase a respeito do filme A Carruagem Fantasma, de Victor Sjöström (foto abaixo).segunda-feira, 14 de março de 2011
Programação Março 2011: As Influências de Ingmar Bergman.
O Cine Clube Ybitu Katu exibe:
19/03: A Carruagem Fantasma (Victor Sjöström, 1921)
Suécia, véspera de Ano Novo. Três bêbados evocam uma lenda que afirma que se a última pessoa a morrer no ano for uma grande pecadora, ela irá guiar a Carruagem fantasma que recolhe as almas dos mortos. Duração: 93 minutos.
26/03: A Palavra (Carl Theodor Dreyer, 1955)
Uma família de fazendeiros, unida por fortes laços emocionais, passa por momentos de tensões provocados por pequenas desavenças. Sua rotina, após retorno de um dos filhos do patriarca, é modificada pela sua aparente loucura, que tudo indica, deriva de um estudo radical teosófico, que o fez acreditar ser Jesus Cristo. Nem todos aceitam que Johannes Borgen seja demente e fanático. E essa situação estará à prova, depois que um ente querido fica doente. Adaptação da peça teatral de Kaj Munk, pastor e dramaturgo, muito conhecido nos países escandinavos, que foi assassinado pelos nazistas. A Palavra é considerado uma obra-prima dentre os filmes que exploram o poder da fé, do amor e do sobrenatural. Isso se deve a maneira "realista" e "naturalista" que enfoca o tema. Ovacionado no Festival de Veneza, com o Leão de Ouro em 1955, é considerado um dos mais belos filmes em preto-em-branco já produzidos. Duração: 125 minutos.

