quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Programação Setembro de 2011: O Futebol no Cinema

O Futebol é o esporte mais praticado e popular do mundo e a sua influência no cotidiano das pessoas foi inúmeras vezes retratado no cinema, seja nas brincadeiras das crianças, seja em guerras e disputas políticas.

O Cine Clube Ybitu Katu exibe:

03/09: Linha de Passe (Walter Salles & Daniela Thomas, 2008) - Brasil
O filme conta a história de quatro irmãos que vivem na periferia de São Paulo. Com a ausência do pai, precisam lutar por seus sonhos. Reginaldo, o mais novo, procura obstinadamente seu pai que nunca conheceu. Dario, prestes a completar 18 anos, sonha com uma carreira como jogador de futebol profissional. Dinho, frentista em um posto de gasolina, busca na religião o refúgio para um passado obscuro. Dênis, o irmão mais velho, já é pai de um filho e ganha a vida como motoboy. No centro desta família está Cleuza, que, aos 42 anos, está grávida do quinto filho. Duração: 113 minutos.

10/09: Two Half Times in Hell (Zoltán Fabri, 1962) - Hungria
Para o aniversário de Hitler, os alemães decidem organizar uma partida de futebol contra os prisioneiros húngaros durante a Segunda Guerra Mundial. Eles determinam que Ónodi, um famoso jogar de futebol, organize o time. Ónodi por sua vez exige comida, uma bola e dispensa do trabalho para treinar. Porém, ele é convencido pelo “time” a fugir, assim que encontram uma oportunidade. O filme de Fábri é bonito e intenso. Duração: 140 minutos.

17/09: O Medo do Goleiro Diante do Penalti (Win Wenders, 1972) - Alemanha
Baseado em obra de Peter Handke, o filme é centrado na figura do goleiro Joseph Bloch. Após ser substituído em uma partida, ele deixa o campo e passa a noite com uma atendente de cinema. Sem motivos, ele estrangula a moça na manhã seguinte. Pelos jornais, percebe que a polícia está cada vez mais perto e, sem se importar, vai a um jogo de futebol. Duração: 101 minutos.

24/09: O Viajante (Abbas Kiatostami, 1970) - Irã
Em Mossafer, Kiarostami construiu uma brilhante parábola sobre um garoto em idade escolar, negligenciado pelos pais, que utiliza de quaisquer meios para viajar até Teerã e poder assistir ao jogo da seleção nacional de futebol. Duração: 70 minutos.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

20/08: Zelig (Woody Allen, 1983)

Zelig - Woody Allen (1983)

Sinopse
m pseudo-documentário sobre a vida de Leonard Zelig (Woody Allen), o homem-camaleão, que tinha o dom de modificar a aparência para agradar as outras pessoas. Duração: 80 minutos

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

13/08: Manhattan (Woody Allen, 1979)

Manhattan - Woody Allen (1979)

Sinopse
Um escritor de meia-idade divorciado (Woody Allen) se sente em uma situação constrangedora quando sua ex-mulher decide viver com uma amiga e publicar um livro, no qual revela assuntos muito particulares do relacionamento deles. Neste período ele está apaixonado por uma jovem de 17 anos (Mariel Hemingway), que corresponde a este amor. No entanto, ele sente-se atraído por uma pessoa mais madura, a amante do seu melhor amigo, que é casado. Duração: 95 minutos

Crítica: Manhattan (Woody Allen, 1972)

por Rodrigo Carreiro
Extraído de http://www.cinereporter.com.br/criticas/manhattan/

“Manhattan” (EUA, 1979) é um desses filmes que expõem, da maneira mais dura possível, o enorme abismo que separa público e crítica cinematográfica. Ao longo dos anos, especialistas e estudiosos de cinema aprenderam a amar esse filme e considerá-lo como o melhor da longa e prolífica carreira do cineasta. Por outro lado, “Manhattan” não costuma ganhar palavras agradáveis dos habituais fãs do diretor. Muita gente acha que o filme é, na verdade, decepcionante. Afinal de contas, quem está com a razão?

Minha resposta, entre as muitas possíveis: nem os críticos e nem o público. “Manhattan” não é o melhor filme de Woody Allen, posto que pode ser disputado tranqüilamente por vários outros grandes filmes do mestre novaiorquino (“Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “A Rosa Púrpura do Cairo” e “A Outra”, só para citar alguns). Mas é um trabalho ambicioso, que marcou uma fase de transição importante para a carreira de Allen. “Manhattan” transita entre a comédia romântica, a crônica de costumes e a homenagem a uma cidade neurótica. Talvez por mirar em três alvos tão diferentes, Woody Allen não tenha conseguido agradar a gregos e troianos.

Na verdade, não agradou nem a ele mesmo; na época do lançamento do filme, Woody Allen chegou a se oferecer para dirigir outro filme de graça para a Universal, o estúdio que bancou a obra, por achar que tinha feito um filme ruim. Depois, mudou de opinião. Em parte, fez isso devido à excelente recepção de críticos respeitados, como Roger Ebert.

Os elogios vieram por uma parte de especialistas que conseguiu compreender a verdadeira intenção de Woody Allen. Em 1979, o cineasta iniciava uma guinada ambiciosa na carreira cinematográfica. Allen desejava abandonar definitivamente o personagem cômico que havia criado em filmes como “Bananas” e “A Última Noite de Boris Grushenko”, e passar a filmar histórias mais densas, de humor mais refinado, com um toque de análise da condição humana. Algo na linha do grande ídolo de Allen, o diretor sueco Ingmar Bergman.

“Manhattan”, portanto, não é uma comédia anárquica como “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, que havia dado o Oscar ao cineasta dois anos antes e permanecia vívido na memória do público. O filme tem uma fotografia esplêndida de Gordon Willis, em preto-e-branco, e caminha num ritmo tranqüilo. Não provoca gargalhadas a cada minuto, mas traz um enfoque crítico e bem-humorado a um aspecto da condição humana que Woody Allen iria, a partir dali, inspecionar repetidamente em seus filmes: a frivolidade dos relacionamentos amorosos nos grandes centros urbanos.

Isaac Davis (Allen) é o protagonista. Ele escreve um programa de TV bem-sucedido, mas não gosta do que faz. Foi abandonado pela mulher, Jill (Meryl Streep), que a trocou por uma garota; ela ameaça escrever um livro contando os podres do casal. Davis namora com uma garota de 17 anos, Tracy (Mariel Hemingway), e sofre porque não acredita numa relação com uma adolescente.

Nesse ínterim, o melhor amigo dele, o professor Yale (Michael Murphy), começa a trair a esposa com uma excêntrica intelectual da cidade, Mary Wilkie (Diane Keaton). No começo Davis a odeia, mas então algo muda dentro dele, e os dois começam a se aproximar. A confusão amorosa, como se pode ver, está armada. Não é um triângulo amoroso, com um rolo complicado que ninguém sabe direito onde começa, e muito menos onde vai terminar.

O texto limpo e preciso de Woody Allen ganha a tradução visual adequada nas mãos de Gordon Willis, que comanda um tour pelos principais pontos turísticos de Nova York (o museu Guggenheim, o Planetário, a Ponte do Brooklyn, cafés badalados) e integra perfeitamente cada um desses ambientes à história. A fotografia em preto-e-branco não enfatiza os contrastes, mas o jogo de sombras e as tonalidades acinzentadas, o que ajuda a imprimir ao filme o ritmo nostálgico que ele pede.

No final das contas, “Manhattan” é um filme de atores; uma comédia sem piadas – o que talvez seja a causa das críticas negativas que recebe. Woody Allen mantém parte da persona que construiu para si mesmo, o intelectual tagarela e inseguro, mas oferece, na verdade, uma versão mais rica e complexa de si mesmo. E o desempenho espontâneo de Mariel Hemingway confere o misto de jovialidade e sofisticação que o filme pede.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

03/08: Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo (e tinha medo de perguntar) (Woody Allen, 1972)

Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo (e tinha medo de perguntar) - Woody Allen (1972)

Sinopse
Woody Allen pega o livro sério sobre sexo de David Reuben e transforma seus capítulos na mais pura avacalhação. Prepare-se para ver um corpo humano por dentro em pleno ato sexual, um cientista que quer criar a máquina de sexo, a mulher que só tem orgasmo em locais perigosos... Muita confusão na melhor fase de Woody Allen. Duração: 87 minutos

Programação de Agosto: Woody Allen

Um dos principais comediantes do cinema norte-americano, Woody Allen encontrou uma boa maneira de fazer psicanálise: levando seu divã para o cinema. Com diálogos ágeis e humor ácido, expõe as fraquezas humanas enquanto critica a sociedade americana e a comunidade judaica à qual pertence.

Cine Clube Ybitu Katu exibe:

06/08: Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo (e tinha medo de perguntar) (1972)
Woody Allen pega o livro sério sobre sexo de David Reuben e transforma seus capítulos na mais pura avacalhação. Prepare-se para ver um corpo humano por dentro em pleno ato sexual, um cientista que quer criar a máquina de sexo, a mulher que só tem orgasmo em locais perigosos... Muita confusão na melhor fase de Woody Allen. Duração: 87 minutos

13/08: Manhattan (1979)
Um escritor de meia-idade divorciado (Woody Allen) se sente em uma situação constrangedora quando sua ex-mulher decide viver com uma amiga e publicar um livro, no qual revela assuntos muito particulares do relacionamento deles. Neste período ele está apaixonado por uma jovem de 17 anos (Mariel Hemingway), que corresponde a este amor. No entanto, ele sente-se atraído por uma pessoa mais madura, a amante do seu melhor amigo, que é casado. Duração: 95 minutos

20/08: Zelig (1983)
Leonard Zelig (Woody Allen) é um artista inseguro que o obriga a imitar as pessoas ao seu redor física e mentalmente. Conhecido como o artista camaleão, Zelig começa a fazer um tratamento para cura-se desse mal que o persegue. Lentamente, Zelig desenha sua personalidade, mas quando as marcas do passado começam a aparecer, o homem camaleão tenta fugir desse passado obscuro. Duração: 79 minutos

27/08: Rosa Púrpura do Cairo (1985)
Em área pobre de Nova Jersey, durante a Depressão, uma garçonete (Mia Farrow) que sustenta o marido bêbado e desempregado, que só sabe ser violento e grosseiro, foge da sua triste realidade assistindo filmes. Mas ao ver pela quinta vez "A Rosa Púrpura do Cairo" acontece o impossível! Quando o herói da fita sai da tela para declarar seu amor por ela, isto provoca um tumulto nos outros atores do filme e logo o ator que encarna o herói viaja para lá, tentando contornar a situação. Assim, ela se divide entre o ator e o personagem. Duração: 81 minutos

sexta-feira, 29 de julho de 2011

30/07: Decálogo (Krzystof Kieslowski, 1989) - CAPÍTULOS IX e X

Decálogo - Krzystof Kieslowski (1989)

*Sobre a série Decálogo: São 10 capítulos com cerca de uma hora cada. O cineclube exibirá 2 episódios por sábado. Os capítulos são independentes, portanto não tem importância caso você perca algum sábado. Entretanto, para o total deleite desta bela obra, recomenda-se que se vejam todos os capítulos.
Não são filmes religiosos.

Sinopse
Realizado para a televisão polonesa em 1989, Decálogo é um conjunto de filmes inspirados nos Dez Mandamentos. Ambientadas no mesmo condomínio de Varsóvia, a capital da Polônia, as histórias ilustram conflitos morais e dramas familiares. Vencedor do Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Cinema de Veneza, Decálogo consagrou internacionalmente Kieslowski. Uma obra simplesmente monumental. Direção: Krszystof Kieslowski.

Decálogo 9 - Não Desejarás a Mulher do Próximo
Ao descobrir que o marido é impotente, mulher envolve-se co um jovem amante, criando uma situação conflituosa para si e seu marido. 56 minutos.

Decálogo 10 - Não Cobiçarás As Coisas Alheias
Com a morte de um filatelista que em vida mal se dedicava a sustentar a família, uma verdadeira fortuna em selos é descoberta. Seus dois filhos são obrigados a tomar medidas de segurança para proteger a inesperada herança. 56 minutos.


"O único trabalho que pode ser chamado de obra-prima no cinema de meu tempo" (Stanley Kubrick sobre o 'Decálogo')

sexta-feira, 22 de julho de 2011

23/07: Decálogo (Krzystof Kieslowski, 1989) - CAPÍTULOS VII e VIII

Decálogo - Krzystof Kieslowski (1989)

*Sobre a série Decálogo: São 10 capítulos com cerca de uma hora cada. O cineclube exibirá 2 episódios por sábado. Os capítulos são independentes, portanto não tem importância caso você perca algum sábado. Entretanto, para o total deleite desta bela obra, recomenda-se que se vejam todos os capítulos.
Não são filmes religiosos.

Sinopse
Realizado para a televisão polonesa em 1989, Decálogo é um conjunto de filmes inspirados nos Dez Mandamentos. Ambientadas no mesmo condomínio de Varsóvia, a capital da Polônia, as histórias ilustram conflitos morais e dramas familiares. Vencedor do Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Cinema de Veneza, Decálogo consagrou internacionalmente Kieslowski. Uma obra simplesmente monumental. Direção: Krszystof Kieslowski.

Decálogo 7 - Não Furtarás
Garota entrega sua filha para a avó criar, e se passa por sua irmã. Quando a criança está com 6 anos, a verdadeira mãe resolve aproximar-se, levantando antigas mágoas entre as duas mulheres. 57 minutos.

Decálogo 8 - Não Levantarás Falso Testemunho
Pesquisadora judia encontra-se com uma professora de Ética da universidade que, há 45 anos, negara-lhe ajuda durante a Segunda Guerra Mundial, pois sendo católica, não podia cometer falso testemunho. 56 minutos.


"O único trabalho que pode ser chamado de obra-prima no cinema de meu tempo" (Stanley Kubrick sobre o 'Decálogo')

Artigo: O Decálogo de Kieślowski e o debate sobre os Mandamentos

por Márcia Junges e Patricia Fachin
Extraído de
http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3072&secao=321

Marcus Mello analisa a exibição do Decálogo I e acentua que essa série divide a produção do cineasta polonês

Uma obra que marca uma guinada temática na filmografia do diretor polonês Krzysztof Kieślowski. De acordo com Marcus Mello, da Usina do Gasômetro, de Porto Alegre, “Kieślowski aborda cada um dos mandamentos de forma extremamente original, colocando em permanente discussão a verdade de cada um deles. Sua relação com os dogmas da Igreja Católica não é nem um pouco tranquila e, embora o sentido de sagrado em seus filmes seja uma constante, sua visão muito pessoal dos mandamentos parece revelar uma leitura agnóstica da chamada ‘Lei de Deus’”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O senhor pode fazer uma breve apresentação de quem foi Krzysztof Kieślowski?

Marcus Mello - Kieślowski foi o principal nome do cinema polonês entre os anos 1980 e 1990, e, sem dúvida alguma, é um dos mais importantes e influentes diretores surgidos nos últimos 50 anos. Sua morte prematura não o impediu de deixar como legado uma obra grandiosa, que reflete sobre o mundo contemporâneo com impressionante lucidez.

IHU On-Line - Como o senhor caracteriza as produções cinematográficas de Kieślowski? Há diferença entre a fase polonesa e a francesa?

Marcus Mello - Kieślowski tem uma obra vasta, mas sua primeira fase é menos conhecida pelo público. Na Polônia, dedicou-se inicialmente ao cinema documental, realizando vários filmes que abordam questões sociais e políticas importantes, mas sem muita repercussão internacional. É a partir do reconhecimento da crítica estrangeira em relação à série Decálogo que seu nome passa a ser conhecido fora da Polônia. O Decálogo também marca uma guinada temática em sua filmografia. Seus filmes da fase francesa, que viriam a seguir (A Dupla Vida de Verônica e a Trilogia das Cores), iriam revelar um cineasta mais preocupado com questões metafísicas, para quem a morte torna-se um tema recorrente e crucial.

IHU On-Line - A série Decálogo é baseada nos Dez Mandamentos. Como o diretor aborda cada um deles e os relaciona com conflitos morais?

Marcus Mello - Kieślowski aborda cada um dos mandamentos de forma extremamente original, colocando em permanente discussão a verdade de cada um deles. Sua relação com os dogmas da Igreja Católica não é nem um pouco tranquila e, embora o sentido de sagrado em seus filmes seja uma constante, sua visão muito pessoal dos mandamentos parece revelar uma leitura agnóstica da chamada “Lei de Deus”.

IHU On-Line - Como os temas ética e estética se relacionam na obra do diretor polonês?

Marcus Mello - Ética e estética são elementos indissociáveis no cinema de Kieślowski. Ele foi um diretor que sempre foi movido por preocupações éticas, traduzidas numa obra de profundo sentido humanista.

IHU On-Line - Em que medida o Decálogo proporciona aos espectadores a oportunidade de refletir sobre os conflitos contemporâneos?

Marcus Mello - Cada episódio do Decálogo está ambientado num conjunto gigantesco de apartamentos em Varsóvia. Este cenário pode ser visto como um microcosmo no qual estão representados os principais conflitos do final do século XX, com suas vertiginosas transformações políticas, tecnológicas e comportamentais. Para muitos críticos, o Decálogo é a grande obra sobre o estertor do regime comunista no leste europeu, cuja derrocada (em 1989) ele irá anunciar claramente.

IHU On-Line - Como os pilares dos princípios cristãos são retratados na obra? De que maneira o diretor conseguiu torná-los universais?

Marcus Mello - Como eu já havia dito, a questão da religião em Kieślowski é nebulosa. Ele chegou a ser acusado de agnóstico por publicações católicas em diversos momentos de sua carreira, já que sua relação com Deus é sempre problemática. Tome-se como exemplo o primeiro episódio do Decálogo, que coloca em cena a morte de uma criança e a revolta de seu pai diante desse fato terrível. Ao invadir a igreja e destruir o altar no final do filme, esse pai desesperado desperta no espectador sentimentos ambíguos em relação à justiça de Deus, o que acaba tendo um efeito bastante perturbador.

IHU On-Line - A partir dos princípios dos Dez Mandamentos, como Kieślowski retrata os ideais da humanidade: ódio, amor, culpa, sob a perspectiva humanística?

Marcus Mello - O Decálogo, assim como os filmes da fase francesa de Kieślowski, são um libelo humanista de enorme densidade e profundidade filosófica. São filmes que revelam sim um sentido de sagrado, mas é como se o diretor identificasse esse sentido apenas no humano e em suas contradições e imperfeições. Sua obra parece dizer que, se Deus existe, esse Deus é cruel e ausente, cabendo apenas ao homem a responsabilidade de alcançar alguma forma de transcendência na vida. Transcendência que se dá, quase sempre, através da criação artística, como mostram as personagens de Irène Jacob em A Dupla Vida de Verônica e Juliette Binoche em A Liberdade é Azul

sexta-feira, 15 de julho de 2011

16/07: Decálogo (Krzystof Kieslowski, 1989) - CAPÍTULOS V e VI

Decálogo - Krzystof Kieslowski (1989)

*Sobre a série Decálogo: São 10 capítulos com cerca de uma hora cada. O cineclube exibirá 2 episódios por sábado. Os capítulos são independentes, portanto não tem importância caso você perca algum sábado. Entretanto, para o total deleite desta bela obra, recomenda-se que se vejam todos os capítulos.
Não são filmes religiosos.

Sinopse
Realizado para a televisão polonesa em 1989, Decálogo é um conjunto de filmes inspirados nos Dez Mandamentos. Ambientadas no mesmo condomínio de Varsóvia, a capital da Polônia, as histórias ilustram conflitos morais e dramas familiares. Vencedor do Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Cinema de Veneza, Decálogo consagrou internacionalmente Kieslowski. Uma obra simplesmente monumental. Direção: Krszystof Kieslowski.

Decálogo 5 - Não Matarás
Um crime ocorrido em Varsóvia une três personagens: um desocupado, um taxista e um advogado em início de carreira. Episódio que deu origem, posteriormente, ao longa Não Matarás. 57 minutos.

Decálogo 6 - Não Pecarás Contra a Castidade
Jovem tímido declara seu amor a uma vizinha e fica decepcionado ao descobrir que ela encara com extrema liberdade uma possível relação entre eles. Foi posteriormente transformado no longa Não amarás. 56 minutos.


"O único trabalho que pode ser chamado de obra-prima no cinema de meu tempo" (Stanley Kubrick sobre o 'Decálogo')

Artigo: Um cinema humanista de primeira qualidade

Na visão do cineasta Carlos Gerbase, Kieślowski conseguiu construir uma obra verdadeiramente autoral e coerente


Nesta semana, entrevistamos o cineasta Carlos Gerbase sobre o diretor. Gerbase respondeu as breves perguntas que seguem, por e-mail, falando não apenas do Decálogo, mas comparando com outra obra prima de Kieślowski: a Trilogia das Cores. Nela, Gerbase crê que “há uma preocupação com os grandes desafios éticos do mundo contemporâneo, ao mesmo tempo em que certos valores ditos ‘universais’ são questionados e, de certa forma, resgatados”. Para ele, principalmente no filme Branco, Kieślowski “oferece ao espectador sua perplexidade com algumas soluções do nosso tempo. É como se ele dissesse: esse mundo parece tão sem sentido, tão absurdo, que alguém precisa encontrar, urgentemente, bases um pouco mais sólidas para aliviar a nossa angústia”. “Mas, é claro”, continua Gerbase, “ele não sabe que bases são essas. A filosofia e as religiões procuram essas bases, e talvez, por isso, o trabalho de Kieślowski possa ser classificado como filosófico e religioso”.

Carlos Gerbase é um cineasta gaúcho, integrante da Casa de Cinema de Porto Alegre. É também professor de cinema na PUCRS, escritor e músico, tendo sido membro da banda Replicantes como baterista e depois, vocalista.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais os principais pontos que marcam a trajetória do diretor polonês Krzysztof Kieślowski?

Carlos Gerbase - Ele é um cineasta que conseguiu construir uma obra verdadeiramente autoral e coerente, que alcançou distribuição internacional. Não são muitos os diretores do leste europeu que conseguem, em relativamente pouco tempo, um reconhecimento assim.

IHU On-Line - Como você define ou qualifica a obra Decálogo, projeto de dez médias-metragens?

Carlos Gerbase - Prefiro destacar apenas um filme da série: "Não matarás". É um dos filmes mais impressionantes sobre a morte (e a culpa de quem mata) que já foram produzidos. A cena em que o motorista de táxi é assassinado dura tanto tempo, e é tão angustiante, que o espectador pode ficar nauseado. Nesses tempos de mortes espetaculares, executadas às dúzias, com sentido mais coreográfico que emocional, essa cena é um exemplo de cinema humanista de primeira qualidade.

IHU On-Line - O que caracteriza a ética do cotidiano e o sentido da vida humana na obra de Kieślowski?

Carlos Gerbase - Na Trilogia das Cores, creio que há uma preocupação com os grandes desafios éticos do mundo contemporâneo, ao mesmo tempo em que certos valores ditos "universais" são questionados e, de certa forma, resgatados. A moral é sempre histórica, como já dizia Nietzsche, mas isso não resolve todos os nossos problemas de avaliação. É muito difícil fazer uma reflexão sobre o sentido da vida no cinema, mas Kieślowski não foge da luta. E me parece que, principalmente no "Branco", ele oferece ao espectador sua perplexidade com algumas soluções do nosso tempo. É como se ele dissesse: esse mundo parece tão sem sentido, tão absurdo, que alguém precisa encontrar, urgentemente, bases um pouco mais sólidas para aliviar a nossa angústia. Mas, é claro, ele não sabe que bases são essas. A filosofia e as religiões procuram essas bases, e talvez por isso o trabalho de Kieślowski possa ser classificado como filosófico e religioso.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

09/07: Decálogo (Krzystof Kieslowski, 1989) - CAPÍTULOS III E IV

Decálogo - Krzystof Kieslowski (1989)

*Sobre a série Decálogo: São 10 capítulos com cerca de uma hora cada. O cineclube exibirá 2 episódios por sábado. Os capítulos são independentes, portanto não tem importância caso você perca algum sábado. Entretanto, para o total deleite desta bela obra, recomenda-se que se vejam todos os capítulos.
Não são filmes religiosos.

Sinopse
Realizado para a televisão polonesa em 1989, Decálogo é... um conjunto de filmes inspirados nos Dez Mandamentos. Ambientadas no mesmo condomínio de Varsóvia, a capital da Polônia, as histórias ilustram conflitos morais e dramas familiares. Vencedor do Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Cinema de Veneza, Decálogo consagrou internacionalmente Kieslowski. Uma obra simplesmente monumental. Direção: Krszystof Kieslowski.

Decálogo 3 - Guardarás Domingos e Feriados
Para procurar seu marido, desaparecido durante a véspera do Natal, mulher pede ajuda a um antigo amante, relembrando, durante o encontro, o relacionamento tumultuado que tiveram no passado. 56 minutos.

Decálogo 4 - Honrarás Pai e Mãe
O relacionamento afetuoso entre um viúvo e sua filha de 20 anos sofre alterações quando esta descobre, por meio de cartas escritas pela mãe, que ele não é seu verdadeiro pai. 56 minutos.


"O único trabalho que pode ser chamado de obra-prima no cinema de meu tempo" (Stanley Kubrick sobre o 'Decálogo')

Artigo: "Decálogo" de Kieślowski: o cinema repensando a ética

por Moisés Sbardelotto
Extraído de http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3071&secao=321

Em "Decálogo", diretor polonês Krzysztof Kieślowski aborda questionamentos éticos a partir de cenas do cotidiano, embasadas nos mandamentos bíblicos.

É difícil qualificar o que o diretor polonês Krzysztof Kieślowski (1941-1996) conseguiu realizar em sua obra "Decálogo" (1988), um projeto de dez médias-metragens. Seria um filme dividido em dez partes ou uma série para a televisão? Uma obra laica, já que nunca se refere a Deus, ou que possui uma teologia profunda, cujo título apenas faz referência? Seria uma obra que faz refletir sobre graves questões éticas que embasam o agir humano, ou, pelo contrário, apresenta a complexidade da vida humana, mostrando que qualquer lei moral ou valor ético são de um simplismo quase infantil?

O próprio Kieślowski nos ajuda a desfazer um pouco o mistério de sua obra. "Durante 6.000 anos, essas regras [os Mandamentos] estiveram inquestionavelmente certas. E, mesmo assim, nós as desobedecemos todos os dias. As pessoas sentem que algo está errado na vida. Há uma espécie de atmosfera que faz com que as pessoas, agora, se voltem para outros valores. Elas querem contemplar as questões básicas da vida, e provavelmente é essa a real razão para querer contar essas histórias [em 'Decálogo']".

A ética do cotidiano

Em "Decálogo", as dez histórias, independentes, possuem uma unidade temática e narrativa rara. Kieślowski manteve a mesma equipe técnica durante a realização de todos os episódios, com exceção do diretor de fotografia, que mudava em cada filme. A série completa, originalmente, foi produzida para a TV polonesa, coescrita por Krzysztof Piesiewicz, com trilha sonora de Zbigniew Preisner.

As dez histórias se passam em um conjunto residencial da Varsóvia, na Polônia contemporânea, onde pessoas comuns enfrentam problemas cotidianos, mas que apresentam profundas questões existenciais sobre amor, culpa, solidão, amizade, tristeza, medo, colocando em xeque o sentido da condição humana.

A obra, muito aclamada pela grande maioria dos críticos, é hoje considerada a obra-prima de Kieślowski, um dos diretores europeus mais influentes da história do cinema. É autor de outros clássicos como "A dupla vida de Veronique" (1990) e a "Trilogia das Cores" ("A liberdade é azul", 1993, "A igualdade é branca" e "A fraternidade é vermelha", ambos de 1994). Com "Decálogo", Kieślowski ganhou nove prêmios internacionais, incluindo o prêmio da crítica da 13ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, de 1988, e o prêmio FIPRESCI do Festival de Cinema de Veneza do mesmo ano.

O projeto inicial da obra envolvia a produção de um pequeno filme sobre cada um dos Dez Mandamentos, a ser exibido na TV local. Mas Kieślowski preferiu uma reflexão mais ampla, a partir da decadência dos valores em uma Polônia em transformação durante o século XX, marcada pelo nazismo e pelo ateísmo. Ao iniciar os trabalhos, porém, preferiu retirar todas as referências históricas e geográficas locais e deu dimensões mais universais à obra.

Assim, mesmo que a história se passe em um apartamento frio e monótono de um país do Leste Europeu, na verdade, dentro daquelas paredes, desenvolve-se um drama universal: um pai e professor universitário, dividido entre a crença científica e a fé religiosa; uma mulher que engravida de seu amante e resolve abortar; outra mulher que, para procurar seu marido desaparecido, pede ajuda a um antigo amante; uma jovem de 20 anos que descobre, por meio de cartas escritas pela mãe, que o homem viúvo com quem vive não é seu verdadeiro pai; três personagens (um desempregado, um taxista e um advogado novato) reunidos por causa de um crime; um jovem que declara seu amor a uma vizinha; uma garota que entrega sua filha para a avó criar; o encontro entre uma pesquisadora judia com sua ex-professora universitária que, há 45 anos, negara-lhe ajuda durante a Segunda Guerra Mundial; uma mulher que se envolve com um jovem amante após descobrir a impotência sexual de seu marido; uma família em busca de segurança após a morte de seu patriarca, um filatelista, que deixou uma grande fortuna.

Histórias singelas e comuns, mas que questionam profundamente, em cada decisão, em cada circunstância, as "certezas" da vida. Nem tudo é preto ou branco: é em uma zona incerta que a desobediência dos personagens a um dos mandamentos bíblicos se coloca. Decisões certas ou erradas? O espectador não é convidado a dar seu veredito final: espera-se que ele reflita eticamente: o que eu faria em seu lugar?

Os desafios da convivência humana

Foi por isso que outro grande diretor do século XX, Stanley Kubrick, do clássico "Laranja Mecânica" (1971), relutou em escrever um posfácio ao livro publicado com os roteiros de "Decálogo", exatamente para não simplificar e reduzir a obra. Porém, afirma Kubrick, Kieślowski e Piesiewicz "tiveram a habilidade muito rara de dramatizar suas ideias, em vez de apenas falar sobre elas". Ao apresentá-las por meio da ação dramática da história, comenta Kubrick, "eles ganharam o poder adicional de permitir que os espectadores descubram o que realmente está acontecendo", em vez de simplesmente ficarem sabendo por meio de um narrador. Segundo ele, em "Decálogo", "você nunca vê as ideias vindo e só percebe muito depois o quão profundamente elas atingiram o seu coração".

Em época de preparação para a Páscoa, a obra irá permitir uma reflexão profunda sobre as possibilidades e os limites éticos da convivência humana nas situações mais comuns do dia-a-dia. Em uma análise cristã, a Páscoa nos relembra as consequências extremas que nossas decisões podem acarretar, mesmo que vislumbremos sempre a vitória, manifestada na Ressurreição de Cristo. Em uma perspectiva laica, a vida nos propõe desafios e situações em que nos é exigido um posicionamento, uma resposta pessoal. Nossa esperança é que essa contrapartida pessoal nos leve à felicidade. Por isso, acompanhando as histórias de "Decálogo", podemos pensar sobre a nossa postura ética diante de situações extremas que talvez ainda não vivemos, ou diante de situações comuns que enfrentamos cotidianamente, mas cujas consequências passam-nos despercebidas.

Nesse sentido, há em toda a série um personagem anônimo, interpretado por Artur Barciś, que não fala absolutamente nada, em nenhum dos filmes, apenas presenciando os momentos chave das histórias, sem nunca tomar parte neles. Alguns veem nesse personagem a representação do divino. Mas, talvez, essa seja a postura que nós, enquanto espectadores, somos chamados a ter: durante a exibição, apenas acompanhar de perto tudo aquilo que os personagens vivem, sem julgá-los. Depois que as luzes se acendem, do lado de fora da sala de exibição, nossa vida diária nos oferecerá, talvez, as mesmas situações. E, nesse momento, seremos convidados a fazer uma escolha pessoal, não mais embasada em "tábuas de pedra", mas sim em "tábuas de carne", em nossos corações, como diria Paulo de Tarso, séculos mais tarde, a respeito do Decálogo bíblico. Para que "vivais e sejais felizes, e vossos dias se prolonguem", como disse Moisés, há 6.000 anos, ao transmitir os mandamentos ao povo.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

02/07: Decálogo (Krzystof Kieslowski, 1989) - CAPÍTULOS I E II

Decálogo - Krzystof Kieslowski (1989)

*Sobre a série Decálogo: São 10 capítulos com cerca de uma hora cada. O cineclube exibirá 2 episódios por sábado. Os capítulos são independentes, portanto não tem importância caso você perca algum sábado. Entretanto, para o total deleite desta bela obra, recomenda-se que se vejam todos os capítulos.

Sinopse
Realizado para a televisão polonesa em 1989, Decálogo é... um conjunto de filmes inspirados nos Dez Mandamentos. Ambientadas no mesmo condomínio de Varsóvia, a capital da Polônia, as histórias ilustram conflitos morais e dramas familiares. Vencedor do Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Cinema de Veneza, Decálogo consagrou internacionalmente Kieslowski. Uma obra simplesmente monumental. Direção: Krszystof Kieslowski.

Decálogo 1 - Amarás a Deus Sobre Todas as Coisas
O primeiro episódio trata das emoções a que o ser humano está exposto durante sua passagem pela Terra. Neste, um professor universitário que acredita na razão e nas forças das leis da ciência, convive com seu filho de 10 anos, dividido entre a crença científica paterna e a fé religiosa de uma tia. 53 minutos.

Decálogo 2 - Não Tomarás Seu Santo Nome em Vão
Mulher engravida de seu amante e resolve abortar, caso seu marido, gravemente enfermo, se recupere. Uma reflexão profunda sobre morte e uma nova vida, quando elas conflitam entre si, e a visão do grande diretor polonês. 57 minutos.


"O único trabalho que pode ser chamado de obra-prima no cinema de meu tempo" (Stanley Kubrick sobre o 'Decálogo')