Mostrando postagens com marcador Bang Bang. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bang Bang. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

19/11: Curta-metragem: Blábláblá (Andrea Tonacci, 1968) e Longa Metragem: Bang Bang (Andrea Tonacci,1971) - COM A PRESENÇA DE ANDREA TONACCI

Blábláblá - Andrea Tonacci (1968)

Sinopse
O sentido do poder e da palavra em crise situam o homem que os manipula numa idêntica crise pessoal, humana. A farsa do discurso de intenção humanista é total e absoluta. Um ditador num momento de uma grave crise nacional, institucional, confrontado na cidade e no campo por revoltas e guerrilha, na busca de uma paz ilusória, faz um longo pronunciamento pela televisão. Mas a realidade impõe-se à sua ficção e o controle da situação escapa-lhe das mãos. Sobra-lhe uma patética confissão antes de ser tirado do ar. Duração: 28 minutos.

Bang Bang - Andrea Tonacci (1971)

Sinopse

Homem neurastênico que, durante a realização de um filme, se vê envolvido em várias situações como o romance com uma bailarina espanhola, perseguições, discussões com um motorista de táxi e o enfrentamento com um bizarro trio de bandidos. Um dos filmes mais revolucionários da história do cinema brasileiro. Duração: 86 minutos.

NÃO PERCAM: A SESSÃO CONTARÁ COM A PRESENÇA DO DIRETOR ANDREA TONACCI. APÓS A SESSÃO, ANDREA TONACCI PARTICIPARÁ DE UM DEBATE SOBRE OS SEUS FILMES E A PRODUÇÃO CINEMATOGRÁFICA BRASILEIRA.

Biografia: Andrea Tonacci

Sem dúvida um dos maiores nomes do cinema nacional, Andrea Tonacci nasceu em Roma em 1944 e veio para ao Brasil com a família aos nove anos de idade, indo morar em São Paulo, onde reside até hoje. Foi pioneiro no país no uso de equipamento de vídeo portátil e um dos principais integrantes do chamado Cinema Marginal, ao lado de Rogério Sganzerla, Julio Bressane e Carlos Reichenbach. Seu primeiro filme foi o curta Olho por Olho (1965). Depois, vieram Blablablá (1968), com Paulo Gracindo, e o clássico Bang Bang (1970), considerado obra-prima do Cinema Marginal e um dos maiores filmes da história do cinema nacional. Entre 1977 e 1984, foi bolsista da John Simon Guggenheim Memorial Foundation, dedicando-se à pesquisa da linguagem audiovisual. Nesse mesmo período, realizou ampla documentação das culturas indígenas das Américas, com filmes como Conversas do Maranhão (1977), Guaranis do Espírito Santo (1979) e Os araras (1980/81). Nos anos 2000, volta a produzir um longa-metragem, o aclamadíssimo Serras da Desordem (2006), premiado em diversos festivais nacionais e internacionais e considerado por muitos, um dos melhores filmes brasileiros do século XXI. Atualmente, ele produz, escreve, dirige e fotografa documentários, ficcção e filmes institucionais. Ele ainda possui e dirige a Extrema, uma produtora dedicada a filmes independentes.

Crítica: Bang Bang (Andrea Tonacci, 1971)

por Carlos Fernandes
Extraído de http://setimofilme.wordpress.com/

UM CINEMA ANTIFILME

Um cinema que se afasta do filme. Que o nega. Por vezes, o ridiculariza. E continua sendo cinema. Em estado puro. Seria possível? Basta assistir Bang Bang e você poderá verificar como. Para vocês terem uma idéia, é muito difícil elaborar uma boa sinopse do filme. A melhor sinopse possível do filme é feita por um de seus próprios personagens: “Era uma vez três bandidos muito maus. Dizia-se que um deles era a mãe dos outros, mas nada se sabia ao certo. Roubavam tudo, matavam tudo, comiam tudo. Mas isso também não se sabia ao certo”.

E, mesmo assim, está muito, mas muito aquém do que realmente é este filme. Ou seria um antifilme?

Um cara discute com um taxista, o mesmo cara aparece com uma cabeça de macaco e canta para o espelho, bandidos dão tiros para todo o lado e comem o tempo todo, o mesmo cara que discutira com o taxista trava dois diálogos totalmente non-sense com um bêbado e, posteriormente com uma mulher. Ao fundo da discussão com a mulher, os assaltantes fazem caretas. O macaco aparece em um tiroteio. O cara discute com o taxista novamente. Tudo isso acontece, sem lógica nenhuma, sem ligação nenhuma, tudo solto, deixando-te atordoado. Há um enorme esforço anti-narrativo. O diretor Andrea Tonacci explode a narrativa e tenta recolher os cacos dela. Depois de recolhidos, explode novamente. E faz isso ciclicamente, ao longo de todo o filme. Ao final, o bandido “mãe”" tentar nortear a narrativa e fala aquele texto que transcrevi no primeiro parágrafo. Você fica esperando por mais e eis que então surge uma torta que atinge sua cara, no melhor estilo O Gordo e o Magro. E a narrativa explode novamente. E você continua atordoado, sem entender nada.

Ou melhor, entendendo nada, mas ao mesmo tempo, entendendo tudo. Sim, entendendo tudo. E, de repente, você deixa de estar atordoado pela aparente falta de lógica dos planos, mas atordoado por conta da espetacular beleza cinematográfica do filme.

Bang Bang faz parte de um movimento cinematográfico brasileiro que foi chamado de Cinema Marginal surgido no final da década de 60 e que tem como marcos iniciais A Margem (Ozualdo Candeias, 1967), Matou a Família e foi ao Cinema (Julio Bressane, 1968) e o ES-PE-TA-CU-LAR O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla, 1968). O Cinema Marginal surge como um contraponto ao Cinema Novo, acusando-o de ter se aburguesado, de ter se tornado mercadoria, de ter se tornado um cinema de estética européia, longe do contato com a realidade brasileira. O Cinema Marginal propunha uma radicalização, que os filmes deveriam ser sujos, “mal feitos”, narrativamente desestruturados. Propunham uma “estética do lixo”, um estilo que seria mais apropriado para um país pobre e dominado como o Brasil. Realizar um cinema totalmente subdesenvolvido. Julio Bressane, diretor marginal, diria em uma entrevista: “Do jeito que está, só temos uma maneira de filmar: com lixo”.

O Cinema Marginal preocupou-se em descrever a identidade subdesenvolvida brasileira, exibindo as nossas maiores vergonhas: a alienação, o comodismo e a falta de educação. Pelas telas desfilavam personagens renegados à margem, da boca do lixo, como trabalhadores braçais, bandidos (que viram heróis, como O Bandido da Luz Vermelha), traficantes e prostitutas. Devido a esse subdesenvolvimento do povo e dos tempos de censura e repressão por conta da ditadura militar, os cineastas marginais eram pessimistas em relação à transformações políticas e socias e recheavam seus filmes com ironia, deboche e sarcasmo, as únicas armas que viam como instrumentos para denúncia social do país. No filme, O Bandido da Luz Vermelha, o próprio bandido fala uma frase que resume bem essa proposta: “Quando a gente não pode fazer nada a gente avacalha… avacalha e se esculhamba.” Entretanto, essa esculhambação não trazia satisfação; carregava-se os filmes de agressividade como forma de auto-flagelação.

Bang Bang talvez seja o mais debochado e ousado filme do movimento. Além de exibir as características dos filmes marginais, ele vai além na questão da desestruturação narrativa e rompe totalmente com ela, propondo um completo descomprometimento com a linha narrativa. É a torta na cara quando o bandido vai explicar a história. Além disso, Tonacci deixa a câmera visível e rompe com a barreira público/filme; nos colocando em direto contato com os personagens. Os bandidos riem para a câmera porque estão rindo de nós, sujos, pobres, subdesenvolvidos. Somos ignorantes como eles. Os diálogos são grosseiros porque somos grosseiros. É um macaco que canta “Eu sonhei que estavas tão linda” e nós assistimos. Por fim, Tonacci ainda satiriza os filmes policiais americanos, desconstruindo os tiroteios, perseguições de carro e a figura do bem contra o mal. Naquele momento, no Brasil, os carros não perseguiam os bandidos e era muito difícil de diferenciar esses dos mocinhos.

Assistir Bang Bang nos coloca para refletir sobre a covardia do cinema nacional dos últimos anos. Salvo uma ou outra exceção, sinto que atualmente falta coragem para se romper barreiras e buscar um novo cinema, sem fórmulas, sem convencionalismos. Precisa-se buscar uma visão ousada e inovadora. Buscar uma nova maneira de fazer cinema. Uma nova maneira de se expressar artisticamente. Que Bang Bang sirva de inspiração.

Crítica 2: Bang Bang (Andrea Tonacci, 1971)


Se fosse lançado hoje, Bang Bang dificilmente se adaptaria às demandas dos multiplexes. E não porque brasileiro não gosta de cinema brasileiro — qual brasileiro, qual cinema? Mas porque seu significado não pode ser instantaneamente consumível. Sem circulação desvairada de imagens e sem as facilidades de artifícios e clichês do cinemão, não dá pra ver de relance. Este não é “fast-food”.

Primeiro longa de Andrea Tonacci, reúne todos os elementos para ser tachado de pretensioso. Desestrutura a ordem narrativa, não tem enredo coerente, desconstrói continuamente seus pressupostos cinematográficos. Signo de uma arte profundamente consciente de si mesma, como no primeiro Godard, Bang Bang interroga as premissas implícitas com que o abordamos, e brinca com os nossos hábitos de percepção. Daí os personagens portarem-se explicitamente como atores e a câmera comparecer na ação. São vários episódios autônomos, sempre com ação absurda e diálogos insólitos. Há planos elaborados de interiores, e longos travellings em ruas e estradas. Os personagens entre o grotesco e o icônico incluem o cantor boçal (Paulo César Pereo), o mágico, a musa lânguida saída do cinema mudo, três metralhas absolutamente indefectíveis: um cego armado de revólver, um galã cafajeste, um travesti comilão. O áudio imprevisível freqüentemente contrapõe-se à imagem.

Então, é disso que se trata o filme? dotar-nos de consciência crítica diante do material fílmico e desacreditar as operações de ilusão? Seria essa a razão da presença do mágico, abduzido de Meliés? uma violência exasperada contra o código? Se assim fosse, seria justo o adjetivo “pretensioso”. Está-se em 1971 e pouca a pertinência para repetir a década anterior, na sua obsessão nuvelevaguesca em afirmar um cinema moderno e autônomo. Com menos razão ainda, se se tratasse de mero exercício de estilo por Tonacci, em academismo ou autorismo bobos. Toda poética autofagocitante padece de sério defeito, que é pressupor a imersão do espectador na história dessa arte, e assim tê-lo por adestrado em seus métodos e técnicas. Há quem considere o autoquestionamento permanente o motor e a essência da arte moderna, do impressionismo à Pop Art. Tradição moderna, traição moderna. No entanto, se, por um lado, não se deve subestimar o público; por outro, não há razão de considerá-lo um cinéfilo selvagem que viu todos os filmes do universo e perscruta a compreensão total da arte. Além disso, um cinema que celebra a si mesmo já é caduco de nascença. E um filme para cineastas, um luxo decadente. Não.

A força de Bang Bang reside mais no jogo livre de dissolução de significados do que na autoconsciência crítica. Mais numa erótica fílmica que escancara a obra e se excita por entre seus signos, do que na ruptura de convenções e códigos. Assim, essencialmente anárquico, o longa tem afinidades com o extremo rigor formal de O Bandido da Luz Vermelha (Sganzerla, 68), na segurança da direção e na recombinação de gêneros. Ao mesmo tempo em que se filia ao estado delirante de Ritual de Sádicos (Mojica, 69), na demência dos personagens e suas frases desconexas. Podem-se tirar inúmeras interpretações do mosaico polissêmico de Bang Bang. Veja-se a palestra de Ismail Xavier, que vai junto do DVD. Multiplica sentidos das cenas mais desconcertantes e demostra como a irresignação de Bang Bang responde à logica do cinema meramente reprodutor, impotente para fecundar seu tempo. Antes por admiração que preguiça, faço remissão às notas do crítico. Ali, ao invés de decifrar charadas ocultas, o que seria simbolismo decrépito, ele arrisca linhas interpretativas e constrói vis-a-vis com o autor a potência do filme.

Uma obra aberta e desafiadora.