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quarta-feira, 22 de abril de 2009

24/04 - Suíte Havana

Suíte Havana - Fernando Pérez (2003)

Sinopse
Uma diversidade de rostos e lugares misturam-se às histórias de várias figuras anônimas neste documentário musical sobre Havana, capital cubana. Cada uma das pessoas representa a curiosa multiplicidade dos grupos sociais que vivem hoje na cidade. Os dez personagens reais representam na película as suas próprias vidas sem entrevistas, diálogos ou narração. Um jovem bailarino, uma senhora vendedora de amendoins, uma criança com síndrome de Down, um médico que sonha em ser ator, entre outros. No final, cada um dos protagonistas é apresentado com seu nome, idade e sonhos, num panorama da cidade onde um dia é sempre igual ao outro, com poucas diferenças. As profissões, os costumes, os ritos e as idiossincrasias de um povo que exibe alegria, apesar de todos os problemas. Vencedor de 19 prêmios em festivais internacionais, entre eles, Melhor Filme no Festival de Cartagena (2004), Melhor Documentário no Festival de Goya (2004) e dois kikitos no Festival de Gramado (2004). Duração: 84 minutos

NÃO PERCAM, APÓS A SESSÃO, DEBATE COM O PROFESSO CUBANO DR. JOEL MESA, DOCENTE DO DEPARTAMENTO DE FÍSICA E BIOFÍSICA DO INSTITUTO DE BIOCIÊNCIAS DA UNESP-BOTUCATU.

Crítica - Suíte Havana

Carros, mar. Pratos, copos, talheres. Música. Lâmina de barbear, água, chuva. Passos, porta, bica. Música. Ruídos. De todos os tipos. Essa é a principal matéria-prima de SUÍTE HAVANA, o novo filme de Fernando Pérez, considerado o mais importante realizador cubano da atualidade.

Com sensibilidade, o diretor descreve o cotidiano de um punhado de cidadãos de Havana, uma cidade vitimada pela pobreza que os anos de socialismo e o bloqueio econômico impuseram. Uma pobreza diferente da nossa, que convive cara-a-cara com a opulência. Essa, se há (e com certeza há, porque onde há ditadura há corrupção), é destinada a tão poucos que se torna vergonhosa demais para ser mostrada. Em seu documentário, Pérez optou por não usar entrevistas e por filmar detalhadamente o cotidiano das personagens. Os planos são todos muito bem calculados, alguns rodados com suportes como carrinhos e grua, maquinário pouco utilizado em documentários. As seqüências foram montadas com planos e contra-planos, numa outra referência ao filme ficcional, onde o diretor tem o tempo de decupar, ou seja, de criar a cena a partir da montagem dos planos. A maioria dos documentários é filmada no calor dos acontecimentos, muitas vezes com câmera na mão.

Radicalizando no sentido de ritualizar o cotidiano, o diretor abre mão por completo dos diálogos (incluindo aí as entrevistas), deixando que os ruídos contem as histórias das pessoas. Diz-se que somos aquilo que fazemos, não o dizemos que vamos fazer. Esse parece ser o raciocínio de SUÍTE HAVANA. Como nós brasileiros, os cubanos são muito musicais. Isso aparece nas histórias dos personagens que trabalham com a música (há um ator, um bailarino, um transformista e um músico no filme), na diversão dos demais personagens e na fantástica trilha sonora de Edesio Alejandro e Ernesto Cisneros, o primeiro deles desenhista de som do filme. Nessa função, o profissional deve pensar tudo o que será ouvido pelo espectador ao assistir a película. Com quase nenhuma voz falando, os sons das ações dos personagens assume um papel fundamental no filme e o trabalho do desenhista de som fica mais evidente. Nesse caso, ele fez a interessante opção de musicalizar os sons captados da realidade, fazendo com que a trilha musical se integrasse por completo à narrativa.

A fotografia, por sua vez, tem um detalhamento pouco visto no cinema documental atual. Com a opção de filmar da mesma maneira que um filme ficcional, o diretor de fotografia Raul Pérez Ureta teve condições de construir a luz dos planos, o que fica muito mais visível nas cenas de interiores. As humildes casas dos personagens ganham status de territórios sagrados. Quanto às externas, a beleza da capital cubana é mais forte do que os anos de destruição a ela impostos. Havana, Patrimônio da Humanidade, é uma das mais belas cidades do mundo. É importante destacar também a montagem como guia da narrativa, revelando aos poucos as características dos personagens. Irônica e crítica, a montagem também tem uma função política, revelando através da ordenação das imagens a situação difícil em que vive o povo cubano. Apesar da aparência difícil, o filme é bastante agradável. Tanto que conquistou elogios do público em Gramado, um festival com uma platéia, digamos assim, não muito intelectual. Aliás, o filme saiu do Festival com dois kikitos na bolsa: Prêmio da Crítica e Prêmio Especial do Júri. Poético e inteligente, emocionante sem ser piegas, SUÍTE HAVANA é uma bela homenagem de seu diretor à capital cubana.