domingo, 28 de março de 2010

Cine Clube Ybitu Katu entra na lista de cineclubes mais atuantes do país

É com grande prazer que anunciamos que o Cine Clube Ybitu Katu entra na lista de cineclubes mais atuantes do país, realizada pelo Observatório Cineclubista Brasileiro, ao lado de tradicionais cineclubes como o Cine Clube Dissenso (Recife - PE) e do Tela Brasilis (Rio de Janeiro - RJ). Para conferir a lista completa basta clicar aqui. Muito obrigado a todos que nos apóiam e ao público frequentante do nosso cineclube.

sexta-feira, 26 de março de 2010

27/03: A Noite (Michelangelo Antonioni, 1961)

A Noite - Michelangelo Antonioni (1961)

Sinopse
Depois de visitar um amigo que está morrendo no hospital, um escritor vai com sua esposa para uma grande festa numa mansão milanesa. Eles estão casados há 10 anos e constatam a falência do casamento. Todo o filme se passa numa tarde de sábado até a madrugada de domingo. Duração: 122 minutos.

Críticas - A Noite (Michelangelo Antonioni, 1961)

por Roberto de Castro Neves
Extraído de
http://www.imagemempresarial.com/Tudosobre/Filmes/mostrafilme.asp?Num=21

“A Noite” (1961) faz parte da trilogia do consagrado cineasta italiano Michelangelo Antonioni cujo tema central é a “incomunicabilidade”. Os outros dois filmes que compõem a trilogia são “A Aventura” (1960) e “O Eclipse” (1962). Numa definição meia-bomba do que seria “incomunicabilidade” para Antonioni, seria ela a impossibilidade da comunicação humana. Essa é a tese. O corolário dessa tese é que a impossibilidade leva o indivíduo ao isolamento e à autodestruição. Se não é bem isso, é bem perto disso. O plot é singelo. Aliás, mais singelo não poderia ser. Giovanni Pontano (Marcello Mastroianni), um escritor de sucesso, é casado com Lídia (Jeanne Moreau) já há algum tempo. O casal não tem filhos. Ambos estão insatisfeitos com o casamento. As razões objetivas da insatisfação de cada um não são claramente informadas. Antonioni deixa com a gente a tarefa de descobri-las e de especular sobre elas. No máximo, o diretor sugere que ele, Pontano, apesar do sucesso como escritor, é um homem entediado e inquieto. Já não valoriza elogios ao seu trabalho, desdenha a fama, acha tudo um saco e busca minorar seu desconforto com paqueras eventuais. Fosse um mortal qualquer, seu comportamento seria classificado como galinhagem das boas. Mas em sendo um intelectual, suas fraquezas vão pra conta de “angústias existenciais”. Lídia, a mulher, por sua vez, abafada pelo sucesso do marido, vive uma vidinha vazia, sem objetivo e projeto próprios. Uma vida em que todos os dias são iguais. Socialmente, faz figuração nas reuniões em que o marido é a grande estrela. Tenta passar o tempo fazendo caminhadas solitárias sem destino, entretendo-se com prosaicas cenas de rua nos arredores de Milão. É uma mulher – nos parece - à beira de uma depressão. Ou em ponto de bala pra arrumar um amante. Pois bem, é através desse relacionamento em crise, com inúmeras tomadas longas em que nada acontece, silêncios, paisagens hostis e sufocantes, etc que Antonioni constrói seu discurso sobre a “incomunicabilidade”, o peixe que o diretor quer vender na trilogia mencionada. Se você ainda não viu esse filme e gosta de cinema, recomendo que assista a essa obra-prima.

por Carlos Augusto de Araújo
Extraído de http://www.65anosdecinema.pro.br/2223-A_NOITE_(1961)

"A Noite" é mais uma pérola do cinema italiano. Realizado pelo grande cineasta Michelangelo Antonioni, que também participa da elaboração do roteiro, o filme forma com "A Aventura" e "O Eclipse", a trilogia da incomunicabilidade do cineasta, na qual ele se debruça sobre a solidão e o tédio proporcionados pela vida moderna das grandes cidades.
A trama se desenvolve durante um dia e uma longa noite na vida de um casal, cuja relação se acha comprometida pela falta de comunicação. Além do belo trabalho de Antonioni, destacam-se a participação de Tonino Guerra, na redação do roteiro, a excelente fotografia de Gianni Di Venanzo e as magníficas atuações do trio principal, formado por Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau e Monica Vitti.

quinta-feira, 18 de março de 2010

20/03: Quê? (Roman Polanski, 1972)

Quê? - Roman Polanski (1972)

Sinopse
Uma jovem poetisa americana viajando através da Itália, após tentativa de estupro, encontra um solar onde conhece um estranho Mediterrâneo. Sua inocência latente e jeitinho angelical vai despertar a líbido em qualquer espécie masculina. Ela conhece o absurdo, a decadência humana e entra em uma jornada mais parecida com uma "Alice no País das Maravilhas" sexual. Seria ela um anjo? Duração: 109 minutos

Crítica: Quê? (Roman Polanski, 1972)

Se fosse um filme em que as cenas de sexo fossem presentes seria pornográfico como um Milo Manara. Nele se vê os cortes oníricos de fellini. Mas foi Carlo Ponti quem se colocou presente no roteiro, produção e assistência de Polanski. Por isso é um filme diferente do diretor.

Diferente porque ele deixa o suspense aterrorizante pra uma comédia onírica, que por remeter à insegurança de acontecimentos do sonho também se caracteriza como suspense. Mas nada assusta, estamos num mundo à beira da praia, umas férias, poesia que acalma e excita. A poetiza não larga seu diário durante todo o filme, e ela na sua maior parte fica nua, nos fazendo ficar extremamente ligados ao filme. Esse erotismo é artifício de narração, como Manara faz: veja a semelhança da atriz Sydne Rome com as mulheres desenhadas por Manara. Uma modelo, apenas. Ela é desejada sexualmente até mesmo por cães, e se torna a cobiça da mais nova arte que se desvenda aos nossos olhos. Uma arte meio vazia, kitsch, carnavalesca, circense e, claro, sacana. A mulher aos olhos dessa arte é um corpo que nos atrai, sua beleza é mais que a forma procurada, desejada – é uma forma divina. Não há paródia dentro da publicidade do corpo nu eroticamente explícito, não há mesmo. Nós aceitamos o espetáculo pobre em artifícios racionais e corremos como cachorros tarados atrás de um corpo belíssimo de uma poetiza espontânea, ingênua e feliz.A felicidade de um sonho bom, de uma passagem à irrealidade do sexo latente. Foi isso que os anos 70 conseguiram levar ao status do pop, uma arte nova, arte que novamente usava a sedução para atrair público e nos evidenciar o hedonismo.

Sim, o filme é uma comédia... Mas uma comédia muito inusitada. Nos lembra algo que no Brasil se costumou chamar de pornochanchada. Óbvio que com mais apuro estético – é quando a nobre arte, personagem do filme que é dono de todo o cenário que vemos, o senhor Noblart, morre e algo novo, mas junto à porcaria que leva a poetiza à Istambul. Mas durante todo o sonho fetichista, um soldado francês conversa com um brigadeiro francês, e a Itália é refúgio ao modo simples de se ver o mundo difundido pelos americanos. A arte nova está lá, no velho mundo, onde estava a velha morta também. Nietzsche que o diga. Mas o senhor Noblart não morre antes de ver algo que antigamente o dava instigação à vida – a vagina da nova poetiza, que não é mais apenas uma sereia sedutora que desvirtua os heróis, mas a própria heroína que sente prazer em todos os lugares por onde passa, na irresponsabilidade bonita de uma criança adulta cheia de libido. Ela conhece o filme, sabe que ele é filme, libera o dispositivo aos espectadores que babam para a movimentação de seus seios (assim como os personagens masculinos do filme, jovens ou velhos).
Dos presentes à ceia familiar, apenas Alex (Marcelo Mastroiani) sabe que ela, a poetiza é manipulável. Mas à base da violência, somente. Violência que ele, como um bom autor de realidades fetichizadas, adora proferir e receber. Não é o fim dos tempos retratado? Na verdade todos preferem achar que o fim sempre esteve presente – apenas agora ele se mostra. Um fim sem teleologia, sem sentido – sem fim.

quinta-feira, 11 de março de 2010

13/03: Os Companheiros (Mario Monicelli, 1963)

Os Companheiros - Mario Monicelli (1963)

Sinopse
Turim, Itália, fim do século XIX. Em plena efeverscência da Revolução Industrial em solo italiano, os operários de uma grande fábrica têxtil são submetidos a jornadas de trabalho desumanas, tendo que trabalhar 14 horas diárias em condições injustas. Muitos são os acidentes de trabalho, que resultam num elevado índice de inválidos e muito sofrimento e insatisfação entre os operários. No centro destes acontecimentos, chega à cidade o professor Sinigaglia (Marcello Mastroianni), um professor socialista que percorria a Itália espalhando o seu sonho de conscientização política e mobilização dos trabalhadores. A partir de seu encontro com os operários e da difusão de seus ideais, os trabalhadores voltam a acreditar e lutar por seus direitos, ainda que isto possa significar um alto preço a ser pago. Duração: 123 minutos

Crítica: Os Companheiros (Mario Monicelli, 1963)

por Luiz Carlos Merten
Extraído de http://blogs.estadao.com.br/luiz-carlos-merten/os-companheiros/

Ocorrem certas coincidências que… No post anterior, sobre as indicações de Buñuel para o OScar, fui checar quem havia recebido o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1978, quando o mestre teria sido (foi?) indicado pela segunda vez por ‘Esse Obscuro Objeto de Desejo’. O vencedor foi ‘Préparez Vos Mouchoirs’, dirigido por Bertrand Blier, filho do ator Bernard Blier. Querendo explicar quem era o pai, citei-o como intérprete de filmes de Mario Monicelli. Ia até citar ‘Os Companheiros’ (I Compagni), de 1963. Larguei o blog e fui fazer os filmes na TV de amanhã. Eis que a Rede Brasil anuncia para segunda, às 22 horas, que filme? Tã-tã-tã. Justamente ‘Os Companheiros’, com Marcello Mastroianni, Annie Girardot, Renato Salvatori, Bernard Blier, Folco Lulli. Já devo ter falado aqui sobre este filme. O telespectador que poderá vê-lo amanhã não tem noção do que foi a estréia de ‘Os Companheiros’ no Brasil. Naquele tempo, os filmes não chegavam tão rapidamente, e menos, ainda, os estrangeiros que não fossem hollywoodianos. Se o filme é de 1963, devo tê-lo visto em 1964, 65, talvez até 66, ou seja, após a ditadura. ‘Os Companheiros’ era o tipo do filme – da realidade – que os militares queriam varrer do mapa. Mastroianni faz o professor Sinegaglia que chega a Turim, na virada do século 19 para o 20, para formar um sindicato e organizar a classe trabalhadora. ‘Os Companheiros’ teve sua vida nos cinemas, antes de chamar a atenção, e depois foi parar no circuito universitario, no sindical. Nada vai devolver a sensação de assistir a ‘I Compani’ na clandestinidade, ou quase, com as discussões que ocorriam depois. Monicelli é um grande diretor italiano. Fez comédias que se tornaram clássicas – ‘Os Eternos Desconhecidos’, ‘A Grande Guerra’, ‘O Incrível Exército de Brancaleone’, ‘Quinteto Irreverente’, ‘Parente É Serpente’ etc. As comédias de Monicelli são tragicomédias (é com hífen, agora?). ‘Os Companheiros’ talvez seja a exceção. É o grande drama de Monicelli e, no meu imaginário, Annie Girardot e Renato Salvatori, a dupla autodestrutiva de ‘Rocco’ – eles se haviam casado na vida – volta com força total. Sinegaglia é um homem politico. Vive para organizar os trabalhadores, mas é um solitário errante, de cidade em cidade. Faz muitos anos que não vejo ‘Os Companheiros’, desde a minha juventude. Curioso que a lembrança do filme me tenha voltado hoje, num viés, e ele agora esteja disponível para ser (re)visto amanhã. Me parece um chamamento difícil de resistir.

quinta-feira, 4 de março de 2010

06/03: O Apicultor (Theo Angelopoulos, 1986)

O Apicultor - Theo Angelopoulos (1986)

Sinopse
Spyros é um homem consumido por um amor secreto e incestuoso pela própria filha. No dia do casamento dela, ele abandona a carreira de professor, a esposa e a casa para retomar a profissão do pai e do avô: cuidar de abelhas. Seguindo a rota tradicional do apicultor pelo país, em busca das flores que produzem o melhor mel, ele dirige de cidade em cidade revisitando o passado e os velhos amigos, tentando conciliar os ideais do passado com as rápidas mudanças que acontecem no país. Um dia, ele dá carona a uma jovem promíscua, que fala pouco e parece representar uma nova geração sem memória e sem preocupação com o passado. Duração: 117 minutos

Crítica sobre a obra de Theo Angelopoulos

por Luiz Carlos Merten
Extraído de http://blogs.estadao.com.br/luiz-carlos-merten/theo-e-deus/

Lá vou eu encarar, a pedidos, o cinema de Theo Angelopoulos. Aliás, na semana que vem – acho que é na semana que vem, a partir de 17, ou 19 -, ele estará sendo homenageado pelo Festival de Guadalajara, no México. Sabem que não lembro qual foi meu primeiro Angelopoulos? Terá sido Paisagem na Neblina? Se foi, não poderia ter sido melhor começo. Angelopoulos é grego e isso, de cara, ajuda a entender sua fascinação pelo mito. Em ‘Paisagem na Neblina’, Orestes voltava para vingar o pai. Em Um Olhar a Cada Dia, era Ulisses, o rei de Itaca, que desceu aos infernos para recusar a imortalidade. E na sua atual trilogia, iniciada por ‘To Livadi Poli Dakrisi’ e que tem prosseguimento com ‘I Skoni Tou Chronou’ (The Dust of Time), é Eleni – Helena. Em Berlim, quando o entrevistamos, Orlando Margarido e eu, o mestre estava de muito bom humor. Citou Godard, que fez, nos anos 50, o curta ‘Tous les Garçons s’Appellent Patrick’. Se todos os garotos podiam se chamar Patrick, para Godard, por que todas as mulheres não podem ser Helenas para Angelopoulos? É curioso como a arte contemporânea (re)vê o mito. Na literatura, o Ulisses de James Joyce, Leopold Bloom, vaga pela cidade, pela urbe. O de Angelopoulos, no cinema, só tem olhos para ruínas, pois o diretor transpõe o mito para o dia a dia das guerras civis na Europa. Destruição e morte. O cinema de Angelopoulos tem sido atormentado pela tragedia dos expatriados. Outros podem usar o plano-sequência (tem hífen?), mas raros, como Angelopoulos, são cineastas do tempo, da procura e, posto que ela tem de acabar, nem que seja dramaturgicamente, do limite. ‘Paisagem na Neblina’ mostra duas crianças, um casal de irmãos, acompanhado por aquele Orestes motoqueiro, em busca de um pai (improvável?) que mora na Alemanha. Em ‘O Passo Suspenso da Cegonha’, repórter chega a uma cidade de fronteira em busca de um político que desapareceu com a mulher. O repórter pensa tê-los visto fugazmemnte em meio a uma multidão de refugiados. O casal é interpretado por Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau, juntos 30 anos depois de um dos filmes/marcos da modernidade cinematográfica – ‘A Noite’, de Michelangelo Antonioni. Existem cenas de ‘O Passo Suspenso’ que ficam gravadas na mente e o cinéfilo não se esquece – os refugiados que passam interminavelmente nos vagões de trem, o casamento em que os noivos são separados pela fronteira, cada um de um lado, numa margem do rio, à espera de um encontro difícil, senão impossível. Em ‘O Apicultor’, também com Marcello Mastroianni, Angelopoulos mostrou um homem solitário, a própria encarnação do vazio da existência. Mas, naquele filme, embora interessado em ‘adoçar a passagem do tempo’ – sua explicação para o ato de filmar -, ele prescindiu do plano-sequência para criar seu road movie existencial. Talvez seja o filme mais ‘diferente’ do autor, sendo rigorosamente igual aos outros. Mastroianni, o apicultor, perdeu a batalha mítica já na abertura do filme. A mulher e os filhos desertaram e o deixaram sozinho. No primero dia da primavera, como reza a tradição, ele pega suas colméias e as leva para o sul, para comungar em silêncio com a paisagem, meditando sobre o fim da sua estrada. Mas chega essa mochileira, eternamente partindo (como o apicultor parece preso a si mesmo). Angelopoulos fez seu Bergman – silêncio do amor, de Deus. Mastroianni fala em grego, de ouvido, sem entender uma palavra, coisa impressionante. A trilogia de Helena é sobre a história da Grécia no século 20. Em ‘The Dust of Time’, Willem Dafoe é um diretor de cinema que quer contar a história de seus pais. Comunistas, perseguidos em seu país, eles se exilaram na antiga URSS. Uma cena já nasceu antológica. A multidão reúne-se na praça, onde é anunciada a morte do camarada Stálin. O plano é longo e lento. A multidão reúne-se e dispersa-se. Gente chorando, gente sem rumo. Na tela fica somente esse velho que não sabe para onde ir. Quanto tempo dura? cinco, dez minutos? O tempo é uma experiência relativa. Muitas estátuas de Stálin assombram o filme (como já assombraram outros trabalhos do grande diretor). A verdadeira tragédia das guerras civis contemporâneas, Angelopoulos sabe, é que elas só existem porque os homens são ignorantes, não aprendem nunca e acham que a delimitação de fronteiras poderá conter a expansão da sua angústia existencial. A fronteira volta em ‘The Dust of Time’. Talvez seja esse o grande tema a percorrer o cinema do autor, de filme para filme. A angústia humana, potencializada pela extensão do tempo, no plano sequência. O homem moderno distanciou-se do mito. Ulisses, em sua odisséia, continua navegando por mares desconhecidos, sem a perspectiva de um porto seguro no fim do caminho. Helena segue atraindo/distanciando os homens. Angelopoulos é pessimista/realista. Theo, curiosamente, é Deus em grego e o cinema dele não deixa de ser – é – um registro poético da nossa efêmera passagem pelo planeta.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

27/02: Oito e Meio (Federico Fellini, 1963)

Oito e Meio - Federico Fellini (1963)

Sinopse
Prestes a rodar sua próxima obra, o cineasta Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) ainda não tem idéia de como será o filme. Mergulhado em uma crise existencial e pressionado pelo produtor, pela mulher, pela amante e pelos amigos, ele se interna em uma estação de águas e passa a misturar o passado com o presente, ficção com realidade. Duração: 140 minutos

Crítica: 8½ (1963)

Oito e Meio (1963) é um dos marcos diferenciais na carreira do grande cineasta italiano; se em A doce vida (1960) o realizador articulava palavras e símbolos num estilo exasperado mas realista, em Oito e meio tudo é fantástico, imaginoso, desde a forma como se aglomeram as seqüências (um barroco documentário da memória) até o conteúdo interno das imagens, uma intensa mistura de faces curiosas, interessantes, uma fauna que encontraria seu ponto talvez mais desequilibrado no filme seguinte de Fellini, o alucinado Julieta dos espíritos. A doce vida é um arrojo de roteiro e linguagem; Oito e meio é uma ousadia formal, um ponto em que Fellini começou a libertar-se do envolvimento dramático mais tradicional, construindo obras libertinas em sua estrutura até chegar ao vão documental e sóbrio de Amarcord (1973).

Diferentemente de Amarcord, outra escavação da memória do mais autobiográfico diretor de cinema, Oito e meio apela inteiramente para a fantasia, não se preocupando com juntar o real ao mágico sem mutilar o filme (algo que ocorreria em Amarcord). Oito e meio é magia pura, um exercício de arte onde novamente encontramos as obsessões de Federico Fellini e novamente topamos com sua surpreendente capacidade de renovação.

Realização extremamente coletiva, como costumam ser os trabalhos do cineasta a partir dos anos 60, Oito e meio faz desfilar diante das câmaras inquietas de Fellini uma série de personagens estranhas e situações insólitas que acabam por transformar o protagonista Guido Anselmi e seus dilemas pessoais num débil ponto de união entre os fragmentos da história. Assim voltaria a ocorrer em Julieta dos espíritos com a burguesa Julieta, em Amarcord com o moço Titã, em Casanova de Fellini com o amante insuperável; e tal não ocorreria bem assim com o jornalista Marcelo em A doce vida, pois a sociedade aí seria um “anagrama” explicativo dos conflitos psicológicos da personagem.

Basicamente, Federico Fellini conta em Oito e meio a história do cineasta Guido Anselmi, inquieto diante da perspectiva dum novo filme sem assunto e atravessando uma profunda crise de saúde que o leva a um sanatório onde o realizador investiga longamente com os recursos de sua poesia cinematográfica a fauna humana que o diverte e intriga. Segundo o romancista brasileiro Ignácio de Loyola Brandão, Oito e meio é seu filme, aquele universo cinematográfico em que ele gostaria de ter nascido, crescido, vivido, dali nunca ter saído. A obra-prima de Fellini merece tais alturas, pois trata-se de um dos mais inovadores filmes da história do cinema.

Biografia: Marcello Mastroianni

Marcello Mastroianni dispensa apresentações. Considerado o maior da Itália e um dos maiores atores de todos os tempos Mastroianni conquistou o mundo com suas belíssimas interpretações em filmes que marcaram época e se tornaram clássicos imortais do cinema mundial. Ao longo de sua carreira cinematográfica, ganhou muitos prêmios, incluindo duas láureas de melhor ator no Festival de Cannes. Mastroianni ainda concorreu três vezes ao Oscar de melhor ator, mas nunca foi premiado. Nascido em 1924 em Fontana Liri, onde passa a infância, mudando-se posteriormente com a família para Turim e Roma. Durante a Segunda Guerra, chega a ser detido pelos alemães mas consegue se refugiar em Veneza. Inicia aulas de teatro em 1945, começando a trabalhar como figurante em alguns filmes nesse mesmo ano. Nesta época, inicia um breve romance com uma jovem, até então totalmente desconhecida. Essa jovem era Silvana Mangano, que se tornaria, nos anos 50 e 60, uma das maiores divas do cinema italiano.

Sua estréia no cinema aconteceu em 1948 com o filme de Riccardo Freda, I miserabili, adaptação cinematográfica do livro homônimo Os miseráveis do escritor francês Victor Hugo. Ao mesmo tempo, participava de um grande número de peças de teatro em companhias amadores, até ser notado por Luchino Visconti (que depois se tornaria um dos maiores diretores de cinema italianos) que lhe oferece seu primeiro personagem como ator profissional em As you like it de William Shakespeare (1948) e depois em Um Bonde Chamado Desejo de Tennesse Williams (1949) onde conhece Flora Carabella, sua futura esposa. Casam-se em 1950 e tem uma filha juntos.

Depois da participação em diversas comédias neorealistas sob a direção de Luciano Emmer, como Parigi è sempre Parigi (1951) Mastroianni começa a fazer seus primeiros papéis dramáticos no cinema, com Febre de vivere (Claudio Gora, 1953) e As noites brancas (Luchino Visconti, 1957). Começa a ganhar grande destaque com I soliti ignoti (Mario Monicelli, 1958). Em 1961 é indicado ao Oscar de Melhor Ator por sua participação em Divórcio à Italiana (Pietro Germi, 1961), mas sua consagração definitiva vem com a participação nas duas obras-primas do diretor italiano Federico Fellini: A Doce Vida (1960) e (1963) que lhe proporcionam grande sucesso internacional.

Na década de 60, Mastroianni trabalha sob a direção do diretor italiano Vittorio De Sica, onde Sophia Loren também atuava como protagonista feminina. Era o início de uma das parcerias artísticas mais bem sucedidas da história do cinema italiano e mundial, resultando em filmes memoráveis para a carreira de ambos: Ontem, Hoje e Amanhã (1963), Matrimônio à Italiana (1964), Os Girassóis da Rússia (1969). Em 1970 vence o prêmio de melhor ator do Festival de Cannes pela primeira vez por sua atuação em Dramma della gelosia: tutti i particolari in cronaca (Ettore Scola, 1970). Nos anos 70 continua a participar de filmes que se tornariam posteriormente clássicos imortais do cinema: A Comilança (Marco Ferreri, 1973); Um dia muito especial (Ettore Scola, 1977). Em 1971, trabalhando com o diretor Marco Ferreri no filme Liza, conhece a atriz francesa Catherine Deneuve, com a qual terá um longo relacionamento, do qual nascerá Chiara.

Nos anos 80, dando continuidade à grande parceria com o diretor italiano Ettore Scola, filma o clássico Casanova e a Revolução (1982) e, posteriormente Splendor (1988) e Che ora è? (1989). Nessa mesma época, volta a trabalhar com Federico Fellini, que dezoito anos depois de , tem Mastroianni novamente como protagonista em Cidade das Mulheres (1980). Trabalham juntos novamente em Ginger e Fred (1985) e em Intervista (1987). A partir da segunda metade da década de 80 e ao longo da década de 90, Mastroianni participa com grande êxito de diversos filmes de diretores internacionais: O Apicultor (The Angelopoulos, 1986), Olhos Negros (Nikita Mikhalkov, 1987), Pret-à-Porter (Robert Altman, 1994) e Três Vidas e uma só morte (Raoul Ruiz, 1996). Em 1987 vence pela segunda vez o prêmio de melhor ator do Festival de Cannes por sua atuação em Olhos Negros, clássico absoluto do diretor russo Nikita Mikhalkov. Chega a participar inclusive de Gabriela, baseado no livro de Jorge Amado, Gabriela Cravo e Canela, sob a direção do diretor brasileiro Bruno Barreto em 1983.

Descobre um câncer no pâncreas em 1996, mas isso não o impede de filmar de último filme Viagem ao príncipio do mundo (Manoel de Oliveira, 1996) ao mesmo tempo em que grava uma longa conversa sobre sua vida, Mi ricordo, si... mi ricordo, dirigido por Annamaria Tatò, sua última companheira. Marcello Mastroianni vêm a falecer em seu apartamento de Paris em 19 de dezembro de 1996, sendo enterrado no cemitério Verano em Roma.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Programação Março 2010: Marcello Mastroianni

Ganhador de dois prêmios de melhor ator no Festival de Cannes (1961 e 1987) , Marcello Mastroianni dispensa apresentações. Considerado o maior da Itália e um dos maiores atores de todos os tempos Mastroianni conquistou o mundo com suas belíssimas interpretações em filmes que marcaram época e se tornaram clássicos imortais do cinema mundial.

O Cine Clube Ybitu Katu exibe:

27/02: Oito e Meio (Federico Fellini, 1963)
Prestes a rodar sua próxima obra, o cineasta Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) ainda não tem idéia de como será o filme. Mergulhado em uma crise existencial e pressionado pelo produtor, pela mulher, pela amante e pelos amigos, ele se interna em uma estação de águas e passa a misturar o passado com o presente, ficção com realidade. Duração: 140 minutos.

06/03: O Apicultor (Theo Angelopoulos, 1986)
Spyros é um professor que abandona a profissão e a esposa para seguir a rota do pólen com suas colméias. Junta-se a ele na viagem uma adolescente viajante. Um road movie do premiadíssimo diretor grego Theo Angelopoulos. Duração: 117 minutos.

13/03: Os Companheiros (Mario Monicelli, 1963)
Na Itália, no século 19, um empobrecido professor aristocrata (Mastroianni) lidera grupo de funcionários de uma empresa têxtil na luta por melhores condições de trabalho. Duração: 125 minutos.

20/03: Quê? (Roman Polanski, 1972)
Uma jovem poetisa americana viajando através da Itália, após tentativa de estupro, encontra um solar onde conhece um estranho Mediterrâneo. Sua inocência latente e jeitinho angelical vai despertar a líbido em qualquer espécie masculina. Ela conhece o absurdo, a decadência humana e entra em uma jornada mais parecida com uma "Alice no País das Maravilhas" sexual. Seria ela um anjo? Duração: 109 minutos.

27/03: A noite (Michelangelo Antonioni, 1961)
Depois de visitar um amigo que está morrendo no hospital, um escritor vai com sua esposa para uma grande festa numa mansão milanesa. Eles estão casados há 10 anos e constatam a falência do casamento. Todo o filme se passa numa tarde de sábado até a madrugada de domingo. Duração: 122 minutos

Cartaz Programação Março 2010

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

06/02: Sessão Dupla 19:30: HAIR (Milos Forman, 1979); 23:00: SUSPIRIA (Dario Argento, 1977)

Janeiro 2010 - Sábados às 19:30 - Musicais
Hair
- Milos Forman (1979)
Sinopse
Claude, um jovem do Oklahoma que foi recrutado para a guerra do Vietnã, é "adotado" em Nova York por um grupo de hippies comandados por Berger, que como seus amigos tem conceitos nada convencionais sobre o comportamento social e tenta convencê-lo dos absurdos da atual sociedade. Lá Claude também se apaixona por Sheila (Beverly D'Angelo), uma jovem proveniente de uma rica família. Duração: 120 minutos


Janeiro 2010 - Sábados às 23:00 - Clássicos do Terror
Suspiria
- Dario Argento (1977)
Sinopse
Uma novata em uma elegante academia de balé percebe, aos poucos, que a escola é na verdade uma fachada para um mundo sinistro e bizarro, cujo objetivo é promover caos e destruição. Duração: 98 minutos