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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

13/12 - Dolls

Dolls - Dir.: Takeshi Kitano. Duração: 114 minutos

Sinopse
Três histórias inspiradas no teatro bunraku, também chamado de ningyo joruri, uma forma clássica de teatro japonês. São peças com fantoches, onde pessoas escondidas com vestes negras manipulam bonecos no palco. Baseado nisso, conheça a história de Matsumo e Sawako, que enfrentam a oposição da família dele para se casarem, o que resulta em uma tragédia escolha; de Miro, um chefe da máfia que está muito mal de saúde, que resolve voltar ao parque onde conheceu uma namorada que o abandonou, à 30 anos atrás; e de Haruna Yamaguchi, que depois de um acidente que o transformou de uma badalada estrela pop em uma pessoa reclusa e de rosto coberto de ataduras, fica agora olhando para o mar.

Veja aqui o trailer do filme.

Entrevista do diretor Takeshi Kitano após o lançamento de Dolls

Takeshi Kitano, samurai das cores e das emoções profundas
03/07/2003
Por Neusa Barbosa

Extraído de http://www.cineweb.com.br/index_textos.php?id_texto=295

Fiel à tradição, sem se importar com as conveniências de ser agora um diretor internacional, Takeshi Kitano só fala japonês. Expressa-se por frases curtas, minimalistas, mas de sentido profundo, o que inevitavelmente cria armadilhas para os seus tradutores. Não foi diferente na conferência de imprensa concedida pelo diretor no Festival de Veneza 2002, onde Kitano apresentou em competição seu décimo filme, Dolls. Dando uma guinada radical de ambiente e estilo em relação ao explícito e violento Brother - seu único filme feito nos EUA -, Kitano voltou para casa e mergulhou na tradição secular do teatro Bunraku, uma das formas de expressão mais peculiares do Japão. Não para fazer uma adaptação cinematográfica fiel, mas usando esta arte secular como ponto de partida. Em cenários contemporâneos, Kitano intercalou três histórias de amor encharcadas de fatalismo e de uma esplêndida beleza visual, a partir de uma sólida direção de arte, magníficas paisagens e dos figurinos do estilista Yohji Yamamoto. Nesta entrevista, onde não faltam colocações bem-humoradas e até autodepreciativas, o diretor explica suas influências e motivações neste novo trabalho.

Cineweb - Dolls é um muito diferente do seu trabalho anterior, Brother. Que tipo de filme o senhor pretendeu realizar aqui?
Takeshi Kitano - Queria mostrar um filme violento, em que o amor fizesse parte da história. Não foi minha primeira intenção mostrar a cultura japonesa. Procurava um desafio.

Cineweb - Não é tão simples enxergar em Dolls um filme violento. Pode explicar melhor seu conceito aqui?
Kitano - Dolls é, para mim, meu filme mais violento porque a morte atinge os personagens de modo muito espontâneo, mais brutal até do que quando causada pela violência. É o destino que os vitima. Mesmo as paisagens estão impregnadas por um sentido de morte, como as flores da cerejeira, que florescem completamente justamente quando estão prestes a cair.

Cineweb- Em todas as histórias, a morte e o amor estão muito interligados. Essa é uma característica básica das histórias originais do Bunraku?
Kitano - No Japão, o teatro Bunraku realmente encena muitas óperas sobre amores infelizes, onde os dois amantes morrem tragicamente no final. Minha avó trabalhava no Bunraku, onde tocava "samisen" (espécie de banjo) e era narradora. Fui criado nesta cultura. O filme pode ser encarado como uma versão contemporânea desse tipo de teatro, que refletia muito a sociedade de sua época.

Cineweb - Há em alguma das histórias um elemento real?
Kitano - Sim. Conheci na infância o casal amarrado por um fio. Mas nunca soube o que os levou a ficar assim, meio maluquinhos.

Cineweb - Como foi a sua colaboração com o estilista Yohji Yamamoto?
Kitano - Somos amigos há muito tempo. Na verdade, eu queria um figurino mais fiel ao Bunraku. Ele queria mais um tipo de desfile. Finalmente, o que se vê no filme foi uma mistura, um acordo entre nossas visões.

Cineweb - Há momentos em que a beleza das imagens lembra Sonhos, de Akira Kurosawa. O senhor tem esse filme como referência?
Kitano - Não é que Sonhos me tenha impressionado tanto, mas sua primeira parte era muito forte. E eu queria filmar algo muito forte, violento.

Cineweb - O senhor foi influenciado pelo estilo visual dos mangás (gibis japoneses)?
Kitano - Os mangás fazem parte da cultura japonesa mas não tive muito acesso a eles porque meus pais não me deixavam lê-los quando era garoto. Diziam-me que ficaria estúpido! Por isso, acho que não exerceram grande influência sobre mim.

Cineweb - O senhor é influenciado pelo trabalho de algum pintor contemporâneo?
Kitano - Para falar a verdade, não sei direito o que seja a arte contemporânea - e me envergonho um pouco disso!

Cineweb - O senhor já trabalha num próximo filme. De que se trata?

Kitano - Meu próximo filme (Zatoichi) será mais realista, com combates de espadachins. Aí, até há uma referência mais próxima aos filmes de samurais de Kurosawa. Entretanto, vou procurar romper com essas imagens projetadas pelo cinema tradicional japonês.

Cineweb - O senhor é influenciado pelas artes marciais?
Kitano - As artes marciais são famosas mas os japoneses não as praticam tanto assim. Se lutamos com os ocidentais, que são mais fortes, perdemos sempre!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Crítica - Dolls


por Humberto Pereira da Silva, professor de filosofia da Universidade São Judas Tadeu

Bunraku é o nome dado ao teatro de marionetes japonês. Mas, com esse nome, não se quer fazer referência apenas à arte na performance com as marionetes, e sim a narrativas que, cá no ocidente, assumem a feição de parábola. O bunraku, de fato, é uma forma bastante refinada de expressão artística, que resulta da combinação de três habilidades: a manipulação de bonecos, a recitação joruri e a música shamisen. Os bonecos que aparecem no bunraku tanto se movem quanto expressam surpresa com os olhos, abrem e fecham a boca e, ainda, gesticulam graciosa e realisticamente com mãos e pernas. Cada boneco é operado por três manipuladores, que trabalham em perfeita sincronia. Os manipuladores carregam os bonecos sobre o proscênio e são visíveis para os que estão na platéia. Essa é a estrutura dessa forma de arte genuinamente japonesa, da qual se pode ver uma aula na sequência de abertura em “Dolls”, filme mais recente de Takeshi Kitano, o mais destacado cineasta japonês da atualidade.

Kitano tornou-se conhecido no Brasil ao alternar cenas de ternura e extrema violência em filmes como “Hana-Bi” (“Fogos de Artifício” – 1997) e “Brother” (2000). A abordagem de aspectos explícitos da violência acabou por colocá-lo ao lado de cineastas como Quentin Tarantino e Jonh Woo, mas recomenda-se ver os filmes de Kitano imune a comparações apressadas. Desde “Violent Cop” (1989), seu filme de estréia, Kitano escapa ao catálogo dos gêneros e, com “Dolls”, tem-se a oportunidade de apreciar um tipo de filme em que os laços entre o passado e o presente são recobertos por paisagens naturais e urbanizadas, numa simbiose tão rara quanto complexa, uma vez que praticamente não há exemplo similar nos filmes europeus ou americanos. Eis então a marca dos filmes de Kitano: estender uma ponte entre o tradicional e o moderno, para exibir a convivência de valores que não foram diluídos com o tempo. Não à toa, em “Dolls”, cuja ação se passa na aurora do século XXI, o pano de fundo é uma concepção artística que remota ao XVII, ao teatro de Takemoto-Gidayu, ou seja, a um Japão, como se sabe, absolutamente fechado a influências externas.

Inspirando-se na emoção e na feição de parábola representadas pelas bonecas do teatro bunraku, Kitano entrelaça, em “Dolls”, três histórias nas quais estão presentes, na mesma medida, uma natureza elegíaca e a predeterminação humana. Na primeira, Matsumo e Sawako, dois jovens numa sociedade que respira os ares da modernidade, planejam se casar. Não contam, entretanto, que os pais do rapaz têm outros planos. Matsumo rompe com Sawako e decide satisfazer a vontade paterna, mas, no dia de seu casamento, fica sabendo que Sawako falha ao tentar cometer suicídio e perde a razão. Diante da situação Matsumo faz uma escolha extrema: desiste do casamento e vai ao encontro de Sawako.

Na segunda narrativa, Hiro é um velho chefe da Yakuza. Solitário, está mal de saúde e sente que a morte está próxima. Passa, então, a rememorar acontecimentos de sua vida. Tem importância especial em sua memória afetiva a lembrança de uma jovem que fora sua namorada e que deixara esperando num parque, ao mudar da cidade em virtude de uma proposta de emprego mais vantajosa. Hiro decide visitar o parque e tem uma surpresa desconcertante: sua namorada, enlouquecida, ainda o espera, no mesmo banco do parque, trinta anos depois.

Por fim, na terceira narrativa, a jovem Haruna Yamaguchi passa os dias olhando o mar. Seu rosto está coberto de ataduras, como consequência de um acidente automobilístico. Antes do acidente, Haruna era uma jovem estrela da música japonesa, perseguida em todos os cantos por uma legião de fãs. Dentre seus fãs desponta um policial de trânsito cuja fixação por Haruna atinge a obsessão. Por isso, ele perde a razão ao tomar conhecimento da notícia do acidente.

Em “Dolls” podem-se notar duas qualidades que, creio, são incontestes. A primeira refere-se à presença constante de uma natureza idílica, imutável diante das ações humanas. Nas três narrativas, a flora japonesa desponta para sugerir que, para além do burburinho da vida moderna, há algo intangível, completamente alheio à passagem do tempo e aos acontecimentos do mundo. A segunda qualidade em “Dolls” está na maneira como Kitano trabalha concomitantemente reminiscências e alegorias. A evocação elegíaca, através de flashbacks pouco convencionais, força a atenção do espectador para o tempo da ação, para o sentido das lembranças. No tríptico de Kitano, no entanto, não há saída para a salvação. Ainda que o paraíso não tenha sido perdido (a natureza está presente o tempo todo), não há caminho para a redenção.
Creio, com isso, que essas duas qualidades destacadas em “Dolls” são suficientes para colocá-lo entre os grandes acontecimentos da arte nesse início de século. Elementos como natureza elegíaca, predeterminação humana e o teatro bunraku se entrelaçam para provocar uma reflexão acerca da condição humana, quando posta diante da paixão e da morte.