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sexta-feira, 3 de abril de 2009

04/04 - Memórias do subdesenvolvimento

Memórias do subdesenvolvimento - Tomás Gutiérrez Alea (1968)

Sinopse
Retrato lúcido e poético de Cuba no começo dos anos 60, Memórias do Subdesenvolvimento é considerado um clássico do cinema latino-americano. O mestre Tomás Gutiérrez Alea oferece um olhar ao mesmo tempo carinhoso e crítico sobre os rumos da revolução de Fidel Castro, narrado pelos olhos de Sérgio, um homem que aos 38 anos se vê subitamente sozinho em Havana, depois que sua mulher e seus pais resolvem migrar para os Estados Unidos. Ao acompanhar Sérgio, o espectador é convidado a passear pelas ruas da capital cubana e a encontrar personagens reais, num filme que mistura com habilidade recursos da ficção e do documentário. "Memórias do subdesenvolvimento" foi selecionado entre os melhores filmes de todos os tempos pela Federação Internacional de Cine Clubes. Duração: 97 minutos

Assista aqui ao trailer.


APÓS A SESSÃO HAVERÁ UM DEBATE COM O PROFESSOR CUBANO JOEL MESA.

Crítica - Memórias do subdesenvolvimento


por Anubis Galardy
extraído de http://www.socialismo.org.br/portal/arte-cultura

Memórias do subdesenvolvimento, um filme sempre jovem

Basta repassar seus filmes para comprovar como o legado do cineasta cubano Tomás Gutiérrez Alea (Titón) se mantém, sem perder um milímetro de sua profundidade e frescura, provocativo e incitante, intacto em sua capacidade de arriscar.

A prova mais eloqüente é, quiçá, Memórias do subdesenvolvimento, transmitida este verão num dos espaços televisivos da ilha, para desfrute maciço de cinéfilos mas, sobretudo, como presente especial para um público jovem.

Um público ao qual põe em contato com as coordenadas históricas que o antecederam, mediante uma visão lúcida e crítica que aborda a realidade desde planos contrapostos, entretecidos numa relação dinâmica, dialética.

Uma realidade vista desde o prisma subjetivo do protagonista, Sergio, ao qual se contrapõe a realidade vital, objetiva, que o rodeia “e que pouco a pouco o vai comprimindo num cerco até sufocá-lo no final”.

Obra de rotundo esplendor, filmada en 1968, audaz artística e conceitualmente, Memórias do subdesenvolvimento foi consagrada pela crítica internacional entre as 100 melhores da história do cinema.

Baseada no livro homônimo de Edmundo Desnoes, Titón traduz às vezes literalmente passagens do romance, e outras vezes elege a livre interpretação cinematográfica, o prazer do risco e a aventura da arte.

Não nos importa em definitivo refletir uma realidade mas enriquecê-la, excitar a sensibilidade, desenvolvê-la, detectar um problema, assinala em seus apontamentos de trabalho publicados no número 45-46 da revista Cine cubano, em 1968.

Não queremos suavizar o desenvolvimento dialético mediante fórmulas e representações ideais, acrescenta, mas vitalizá-lo agressivamente, constituir uma premissa do desenvolvimento mesmo, com tudo o que significa de perturbação da tranqüilidade.

A fita mistura recursos de índole diversa, como o confessou o próprio Titón em suas notas: fotos, fragmentos de noticiários, documentos diretos, testemunhos, gravações de discursos, câmara oculta para filmar na rua.

Com um roteiro aberto ao imprevisível até o final – incluído os processos de edição e dublagem -, e com as limitações que impunha o próprio subdesenvolvimento, o cineasta tirou dessas limitações o máximo partido e apostou, sem duvidar, todas suas cartas no jogo.

“Devo dizer que este é o filme em que me senti mais livre (...), tinhamos a convicção de que o que estávamos realizando não seria logrado plenamente, que estaria cheio de descuidos e sujeiras”.

Mas também sabíamos que expressávamos o que queríamos e que portanto estávamos aportando algo nosso, sublinha.

Da fita emerge a imagem de um país e uma sociedade que nascem para tempos novos, a uma virada radical de sua história, levando sobre seus ombros a carga pesada do subdesenvolvimento.

Uma sociedade que deve empreender um caminho inédito, mas não reto e despejado, senão que tortuoso e mutante, salpicado de falsos atalhos, cimentado a partir de tropeços e erros. Um caminho que deve descobrir por si mesma.

O resultado é um filme deslumbrante, com uma poderosa carga sugestiva, revolucionária no sentido mais profundo e abarcador do termo.

Complexa, lúcida, inteligente e sensitiva, em seu momento o crítico do The New York Times Peter Schjeldahl a qualificou de obra mestra. É um milagre, disse, e também uma sacudida.

O cinema de Titón, no qual a polêmica, a lucidez, a ironia e o humor negro são componentes essenciais, inclui um punhado de filmes reveladores que põem o dedo na chaga dos problemas mais agudos como una via para enfrentá-los.

Ademais da jóia de Memórias do subdesenvolvimento, estão A morte de um burocrata, As doze cadeiras, Os sobreviventes, A última ceia, e Uma luta cubana contra os demônios, incompreendida em seu tempo.

Mas vale citar sobretudo o que constitui seu filme-testamento, Morango e Chocolate, quiçá o mais belo e comovente de sua cinematografia.

Em uma recente entrevista concedida à BBC Mundo, sua viúva, a atriz Mirtha Ibarra, com quem rodou Até certo ponto, evocou a honestidade do realizador, cuja obra é expressão de uma absoluta coerência ética e estética.

Sempre fiz os filmes que queria, disse o que queria e dei sempre o último corte, sustentava. A frase o personifica de corpo inteiro.

“As dificuldades que entranha nosso processo, afirmava, o reconhecimento dos obstáculos objetivos e da luta incessante, obsessiva, contra os obstáculos subjetivos estão no centro de minha atividade como cineasta”.

A serviço disso pôs seu talento e um elevado senso de responsabilidade.

Crítica - Memórias do Subdesenvolvimento

por Rafael Reines
extraído de http://oficinadetextos2007.blogspot.com/

A simples menção da palavra subdesenvolvimento tem tirado o sono de boa parte do povo latino-americano durante muito tempo, ela pode significar que seu país possui uma economia colonizada ou um baixo desenvolvimento industrial (IDH), ou simplesmente significar que o que vem de fora é melhor que o produto interno. Tomás Gutiérrez Alea lida com esse tópico de várias maneiras diferentes em seu filme Memórias do Subdesenvolvimento. O filme é focado na vida e nos pensamentos de Sergio, um intelectual burguês que ficou de fora da revolução - enquanto sua mulher e seus pais fugiram para os Estados Unidos - ele ficou para observar o que iria acontecer a Cuba durante a revolução. Típico homem de classe média alta, Sergio se achava superior aos demais cubanos, principalmente sobre as mulheres, que para ele eram todas fúteis e despolitizadas, ele se via como um intelectual europeu cercado de cubanos que pensavam de forma subdesenvolvida.

Usando cenas documentais da própria revolução cubana ocorrida no início da década de 60 misturadas com uma narrativa ficcional que bebeu diretamente nas águas do neo-realismo, Alea criou uma obra de caráter único que combinava perfeitamente documentário e ficção. Memórias do Subdesenvolvimento foi o 5º filme de Alea e provavelmente seu mais marcante (Morango e Chocolate, de 1994, também chegou a fazer algum sucesso, com uma indicação ao Oscar).
No filme, o termo subdesenvolvimento se refere tanto à estagnação política de Cuba quanto ao falso idealismo de Sergio. O jeito que Alea monta seu filme deve contar como seu próprio ato de resistência política: o material documental chama a atenção para uma dialética complexa do individual-grupal que é discutida por todo país.

Memórias do Subdesenvolvimento chocou os críticos dos Estados Unidos, quando teve seu lançamento pelos lados de lá em 1973, e os americanos descreveram-no várias vezes como "extremamente rico", "enorme e eficaz", "belo e subestimado" e "é um milagre". O filme não é nenhum "milagre" em si, mas simplesmente um dos exemplos mais finos do revolucionário cinema cubano, Memórias também teve uma recepção sem sal dos espectadores cubanos, apenas alguns cinéfilos retornam para vê-lo repetidas vezes. A estrutura complexa e a textura dialética presentes em Memórias do Subdesenvolvimento merecem que essas visões sejam refletidas, porque transforma os temas agora familiares da alienação e do "outsider" (aquele que assiste tudo de camarote) e os inserem num meio revolucionário. Nós nos identificamos e compreendemos Sergio, que é capaz de trazer-nos momentos do lucidez. Entretanto, nós compreendemos igualmente que sua perspectiva não é universal nem é atemporal, mais uma resposta específica a uma situação específica. Alea insiste que tais situações não são permanentes e que as coisas podem ser mudadas com o compromisso e o esforço. A história é um processo concreto e material que, ironicamente, é salvação de Sergio.