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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

31/01 - Persépolis

Persépolis - Direção: Marjane Satrapi e Vincent Parannoaud. Duração: 95 minutos

Sinopse
Animação baseada nos quadrinhos autobiográficos da iraniana Marjane Satrapi. A história se inicia com Marjane aos nove anos, com o início da Revolução Islâmica. Através de seus olhos, nós vemos as esperanças da população serem frustradas enquanto os fundamentalistas tomam o poder, forçando as mulheres a se cobrirem e prendendo milhares de cidadãos. Durante a Revolução Islâmica, ela começa a descobrir que está chegando à maturidade e deve lidar com mais responsabildades - não só de seus atos, mas no modo de pensar. Persépolis foi indicado ao Oscar de melhor longa de animação em 2008 e ganhou alguns prêmios importantes, como o conferido pelo júri do Festival de Cannes; o de melhor animação pela Associação de Críticos de Los Angeles e pela Associação de Críticos de Nova York; o de Liberdade de Expressão pelo National Board of Review dos Estados Unidos (associação de críticos daquele país); prêmio da audiência como Melhor Filme Estrangeiro no Festival Internacional de Cinema de São Paulo; além dos prêmios de Filme Mais Popular no Festival Internacional de Cinema de Vancouver; prêmio especial do júri no Festival Internacional de Cinema Cinemanila, nas Filipinas; o “Sutherland Trophy” do Instituto Britânico de Cinema. Além disso, Persépolis ganhou quatro prêmios do festival do Annie Awards, o "Oscar da animação": melhor animação, melhor direção, melhor roteiro e melhor música.

Assista aqui ao trailer.

Biografia - Marjane Satrapi

Marjane Satrapi nasceu em Rasht no Irã em 22 de novembro de 1969. Quando tinha nove anos, testemunha a queda do Xá, o início da Revolução Islâmica e a guerra com Iraque, sofrendo com as grandes transformações de costumes e relações sociais do Irã. Com a ditadura religiosa imposta no Irã, Marjane vai à Viena, onde mora durante quatro anos e depois retorna ao Irã, onde cursa artes plásticas na Universidade de Teerã e retorna à Europa, morando em Paris aonde trabalha como artista plástica. Em 200o começa a publicar Persepolis, uma série de quatro livros de história em quadrinhos, autobiográficos, narrando desde a sua infância, a história, os costumes, as relações familiares e sociais no Irã no período de 1978 até os anos 90. Além da história de seu país, Marji nos conta a história que muitas crianças e jovens viveram nos anos 80 e 90, com toda a busca por liberdade e os gostos culturais desta época. Devido ao grande sucesso, Persepolis, foi traduzido em vinte línguas e adaptado para o cinema, com a própria Marjane Satrapi na direção com o apoio do francês Vincent Paronnaud. No Brasil, os quatros livros que compõem Persépolis foram pulicados em um único volume pela editora Companhia das Letras.

Entrevista de Marjane Satrapi ao G1 notícias após a estréia de Persépolis no festival de Cannes em 2007.


"Diziam que estava usando símbolos da 'decadência ocidental'"

Em entrevista ao G1, quadrinista Marjane Satrapi fala da infância no Irã.
Adaptação de 'Persépolis' para o cinema estreou em Cannes.

Flávia Guerra Especial para o G1, em Cannes

Marjane Satrapi é, como reza a fama das iranianas, uma linda mulher. Distante do visual pasteurizado que divas de Hollywood (e suas imitadoras) exibem em Cannes, a quadrinista e diretora da animação “Persépolis” tem 39 anos, os lindos olhos puxados do Oriente, sobrancelhas fortes e cabelos negros sobre os ombros – beleza esta que passou muito tempo escondida sob o sagrado véu islâmico.

O Irã não era assim até a chegada da Revolução Islâmica, no final dos anos 70. Marjane era uma menina que viu seus tios serem presos, amigos de bairro virarem ora mártires ora inimigos, sua cidade ser bombardeada e destruída. Na adolescência, teve os direitos de ir, vir e escutar o que bem entendesse proibidos em nome de Deus. O pai dela, liberal que era, chegou a montar um verdadeiro esquema de fabricação de vinho em casa.

Vida e obra de Marjane se confudem em “Persépolis”, única animação a concorrer à Palma de Ouro nesta edição do Festival de Cinema de Cannes. Em entrevista exclusiva ao G1, ela mostra que não perdeu a ternura, mas passou por uma leve endurecida depois de tantas provações.


G1 - Voce não teme represálias contra a sua família, que ainda mora no Irã?
Marjane Satrapi -
Da minha família falo pouco. Tudo o que posso dizer é que eles ainda moram no Irã e estão ótimos. Eles têm se comportado muito bem e tenho certeza que serão protegidos. Eu não tenho medo. Sei que estou contando a minha história. Nao sou como você, jornalista, que tem compromisso com a verdade. Eu tenho o compromisso de contar a minha verdade, [do modo] mais real que posso.

G1 – E os quadrinhos foram a melhor forma de fazer isso?
Marjane -
Exatamente. Pode parecer irônico criar uma realidade em quadrinhos para contar a realidade do meu país, mas é isso, sim. Eu sempre amei desenhos e descobri neles a melhor forma de contar minha historia.

G1 - Quais foram suas principais influências?
Marjane -
Eu li de tudo, vi de tudo, escutei de tudo, do movimento punk a Abba, de Bee Gees a Pink Floyd. Eu gosto dos mestres dos quadrinhos e sempre comprava quando podia, mas não vou destacar nenhum em especial porque foram muitos que me influenciaram.

G1 - E esse mergulho na cultura pop se deu quando, na adolescência, você foi morar em Viena?
Marjane -
Sim e não. No Irã, eu já comprava [fitas] cassetes do Iron Maiden no mercado negro. Pode parecer piada, mas é a mais pura verdade: para se comprar um simples tênis era toda uma operação. Eu pintava eu mesma minhas jaquetas com frases do tipo “Punk is not ded (com erro mesmo, em vez de ‘dead’). E isso me custou várias broncas das bedéis islâmicas. Diziam que eu estava usando os símbolos da “decadência ocidental”, o que não deixava de ser verdade. Mas a liberdade de cada um usar o que se quer é, para mim, irrefutável.

G1 - Mas esta cultura pop não ameaca a preservação da cultura nacional entre os jovens?

Marjane - Sim e não. Acredito que, se um país tem sua cultura de base muito bem fundamentada, ele pode se abrir para o que de melhor há nas outras culturas sem perder a sua. Acho que é um balanço de tudo. Eu estudei em uma escola francesa a vida toda, mas jamas deixei de ser iraniana. Eu ainda sinto muita saudade de casa. Moro em Paris. mas, como minha avó me dizia, procuro nunca perder minha integridade.

G1 - Você tem planos de continuar a carreira e a saga de “Persépolis” no cinema?
Marjane -
Sim, claro! Mas não posso te adiantar mais nada. Quando tiver novidades, conto. E espero que os brasileiros possam ver “Persépolis” no cinema. Tenho muita vontade de conhecer seu país.

Crítica - Persépolis


por Pablo Villaça do site especializado www.cinemaemcena.com.br


Persépolis é uma animação que inclui estupro, morte de manifestantes em uma passeata, execução de presos políticos e uma conversa entre Deus e Marx. Não é, portanto, um filme feito para crianças, mas sim para adolescentes e adultos – e, ao lado das maravilhas criadas pelos japoneses Satoshi Kon e Hayao Miyazaki, serve para ilustrar como uma técnica historicamente associada a filmes infantis vem criando obras que representam o que de melhor o Cinema mundial tem oferecido ao público mais maduro (e que, em minha opinião, tem em O Túmulo dos Vagalumes, de Isao Takahata, seu representante máximo).


Adaptado e dirigido por Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi a partir da graphic novel autobiográfica (dividida em quatro volumes) escrita por esta última, Persépolis segue a trajetória de amadurecimento de sua protagonista a partir de seu relacionamento conturbado com seu país, o Irã, cuja história mais recente é recapitulada numa maravilhosa seqüência estrelada por bonecos de papel, quando vemos o futuro Xá Reza Pahlavi entregar o petróleo de seu país à Inglaterra em troca do apoio para subir ao poder – o que não impediu que ele fosse eventualmente substituído pelo filho ainda mais repressor. E é assim que chegamos a 1979, quando a pequena Marjane, aos 9 anos de idade, testemunha o golpe que levaria o Aiatolá Khomeini ao controle da recém-declarada (com apoio da população) República Islâmica – o que conduziria o Irã a um estado ainda maior de repressão e medo, além de uma longa e sangrenta guerra com o Iraque de Saddam Hussein.


Narrado a partir do infantil ponto de vista da protagonista, o filme acompanha todos estes acontecimentos com um ar de mistério e até fantasia que os tornam ainda mais assustadores, embora a incapacidade da garota de absorver a gravidade de tudo permita que ela também os enxergue de forma distanciada, através de um véu de ingenuidade que traz até mesmo um forte e bem-vindo senso de humor à narrativa. Assim, a preferência de Marjane por representantes da música ocidental, proibida no Irã, levam a divertidas buscas de fitas no mercado negro e a confrontos que beiram o absurdo graças à sua jaqueta que traz uma afirmação hilária naquele contexto. E se fiz Persépolis parecer uma obra séria e sombria nos parágrafos anteriores, perdoem-me, pois o fato é que o longa jamais deixa de provocar o riso graças à sua abordagem sempre inventiva.


Construído com claras influências expressionistas (em certo momento, há uma referência especialmente eficaz a “O Grito”, de Munch), o filme investe num preto-e-branco marcante – e mesmo as cenas ambientadas no presente são coloridas em tons nada intensos. Da mesma maneira, o design de produção contribui para que mergulhemos na realidade entristecida e opressora de um país que encontra, na repressão, uma maneira cruel de manter-se estável: observem, por exemplo, a penitenciária que abriga os presos políticos ou o angustiante plano que revela a solidão de Marjane através das sombras que cercam o telefone que esta usa para uma ligação para casa. E não há como negar a genialidade da cena em que os combatentes de ambos os lados de uma batalha trocam tiros que já os derrubam na vala comum que os separa.


Aliás, Persépolis é particularmente inteligente ao adotar estratégias visuais que ilustram a violência da guerra e da repressão sem que, com isso, se torne excessivamente gráfico, como demonstram as seqüências que revelam apenas as silhuetas de manifestantes em confronto com o exército. Esta inventividade se aplica, também, aos momentos de maior leveza da narrativa, como ao retratar as mudanças físicas sofridas por Marjane na adolescência e, particularmente, ao apresentar seu primeiro grande amor ao público: do carro flutuante ao corrimão cuja base remete a dezenas de corações, a seqüência consegue ilustrar algo mais complexo do que meros incidentes do roteiro, servindo para mergulhar o espectador no universo emocional da personagem – algo que atinge seu ápice na cena em que seu namorado traga um cigarro cuja fumaça é expelida pela protagonista, representando a união máxima do casal. E se o estado de espírito da garota em um instante de depressão é representado pela poltrona cujo encosto remete claramente a uma lápide, a transição temporal no terceiro ato é igualmente brilhante, sendo alcançada através de uma imperceptível fusão diante da entrada do aeroporto Orly.


Fascinante estudo de personagem que não romantiza sua protagonista apenas por esta ser também a autora do texto original, Persépolis acompanha Marjane enquanto esta foge do fundamentalismo islâmico apenas para cair no fundamentalismo católico – e, ao renegar (mesmo que quase inconscientemente) suas origens e sua religião, ela trai tudo aquilo pelo qual seus antepassados aceitaram morrer enquanto defendiam. Torturada pela culpa que enxerga na futilidade de sua vida na Europa enquanto seus parentes sofrem na guerra, ela se entrega a uma rotina de clara auto-punição – e não deixa de ser curioso que, ainda hoje, Satrapi pareça não perceber suas motivações inconscientes para aquele comportamento, já que o roteiro atribui sua degradação a uma frustração romântica quando esta claramente foi apenas a gota final de um processo que se iniciou no momento em que ela viu a mãe desmaiar de tristeza por ter que dar adeus à filha. Por outro lado, Marjane demonstra uma compreensão exemplar das conseqüências morais de uma vida sob uma ditadura impiedosa: aos poucos, os cidadão se vêem compelidos a abandonar suas convicções e até mesmo seu compasso moral, trocando a consciência pela segurança provisória.


Enriquecido pela maravilhosa dublagem da pequena Gabrielle Lopes, que empresta sua voz à versão infantil de Marjane, Persépolis também conta com um elenco de peso que traz Chiara Mastroianni como a protagonista na adolescência e em sua fase adulta; Catherine Deneuve como sua mãe; e a veterana Danielle Darrieux no papel da divertida, sensata, forte e cativante avó da menina. Aliás, esta escalação torna-se ainda mais eficaz graças à ligação existente entre as atrizes, já que Chiara é realmente filha de Deneuve (e seu sobrenome vem do pai, Marcello). Como se isto não bastasse, Darrieux interpretou a mãe de Deneuve em Duas Garotas Românticas, dirigido pelo casal Jacques Demy e Agnès Varda em 1967. Mais apropriado, impossível.

Um dos melhores filmes de 2007, Persépolis é uma obra historicamente abrangente e psicologicamente complexa, o que não a impede também de ser simultaneamente engraçada e profundamente tocante.