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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

26/02: A Antena (Esteban Sapir, 2007)

A Antena - Esteban Sapir (2007)

Sinopse
Em uma gélida metrópole dos anos XXX, toda a população está muda. O cruel Mr. TV comanda o país, monopolizando as palavras e imagens, e as pessoas nada fazem para protestar. Passam os dias sentadas, vendo televisão e comendo os alimentos produzidos por ele. Enquanto isso, Mr. TV coordena um plano sinistro para escravizar o povo inteiro, eternamente. Mas, para alcançar seus objetivos, ele precisa seqüestrar uma bela cantora, a única que ainda tem A VOZ. Feito à moda do cinema mudo, o filme é uma fábula sobre o poder da fala humana. Estréia mundial no Festival de Rotterdam 2007. Duração: 95 minutos

Crítica: A Antena (Esteban Sapir, 2007)

por Alfredo Suppia
Extraído de http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=4561

Inspirado no longa argentino Esperando o Messias (2000), de Daniel Burman, Jean-Claude Bernardet concluiu, parafraseando um amigo, que “os argentinos dão um banho nos brasileiros” (Revista de Cinema, fevereiro de 2003, republicado em Bernardet, Cinema Brasileiro: Propostas para uma história, São Paulo: Cia. das Letras, 2009, p. 256-8). Segundo o crítico, o fato de Esperando o Messias ser um filme médio “é a prova de que a Argentina tem produção média viva e inteligente, o que assinalam também outros filmes, como Nove rainhas ou O filho da noiva” (Bernardet, 2009, p. 256). Esse “banho”, continua Bernardet, deve-se em grande parte à forma da narração (2009, p. 256-7). O crítico identifica oportunamente um “enrijecimento da narrativa cinematográfica” em filmes de primeira linha do cinema brasileiro. “A ponto de podermos falar hoje na existência de um parnasianismo cinematográfico brasileiro. São parnasianos filmes como Abril despedaçado, Uma vida em segredo, Através da Janela (...).” (Bernardet, 2009, p. 257). Ainda segundo Bernardet, tais títulos “[s]ão filmes mortos porque ficam se regozijando com sua elaboração formal e ficam contemplando, maravilhados, a sua beleza” (2009, p. 257-8). O crítico sentencia: “Joguem fora seus storyboards. Injetem menos talento e mais vida nos seus fotógrafos e diretores de arte” (Bernardet, 2009, p. 258).

Numa comparação do cinema argentino de caráter fantástico, de fantasia ou ficção científica, com o equivalente brasileiro, o tal “banho” salta ainda mais aos olhos. Difícil pensar num filme como La Antena (2007), de Esteban Sapir, produzido no Brasil. Abusado demais, arriscado demais... criativo demais.

La Antena é uma fábula distópica em que os habitantes de uma cidade fictícia perderam a voz há duas décadas. Ninguém fala ou emite som algum. Os citadinos alimentam-se de TV, literal e metaforicamente, e sua voz serve de matéria-prima para a indústria do Sr. TV (Alejandro Urdapilleta), soberano da metrópole. Mas os recursos vêm se esgotando rapidamente, e o Sr. TV precisa d’A Voz (Florência Raggi) para sugar as palavras das pessoas e, com isso, continuar reinando em seu negócio. O Sr. TV aprisiona A Voz e, com a ajuda do Dr. Y (Carlos Piñeiro), usa a mulher numa máquina que emite mensagens subliminares. O objetivo é, também, aumentar definitivamente o consumo dos produtos TV. Mas o Sr. TV não contava que, com a ajuda de uma família de heróis, uma “segunda voz” entrasse em cena.

La Antena é um amálgama de influências que entabula uma série de citações diretas a obras mais ou menos famosas da história do cinema. A primeira influência, talvez a mais evidente, é Metropolis (1927), de Fritz Lang. As citações do filme alemão podem ser conferidas na paisagem urbana, no som visualmente sugerido, nas diversas montagens de imagens sobrepostas (chroma key), evocativas – guardadas as devidas proporções – do Processo Schüfftan. Uma passagem como o plano dos olhos multiplicados, quando os burgueses de Metropolis observam avidamente a dança da falsa-Maria, é reproduzida em La Antena. O Sr. TV e seu filho são análogos a Joh Fredersen e Freder em Metropolis, o Dr. Y é Rothwang e a homenagem ao filme de Lang é sacramentada na seqüência do experimento com “A Voz”.

Além de Metropolis, La Antena paga tributo a Viagem à Lua (1904), de Georges Méliès – com mais uma reprodução do célebre plano da lua antropomórfica -, bem como ao cinema de vanguarda de Marcel Duchamp (Anémic Cinema, 1926) e Dziga Vertov (O Homem com a Câmera, 1929). O logotipo da empresa TV em La Antena lembra diretamente as espirais de Anémic Cinema. O tema da população que tem sua energia vital drenada pela televisão remete ainda a uma produção tcheca bem mais recente e menos conhecida, o longa tcheco Akumulátor 1 (1994), de Jan Sverak.

O trabalho da direção de arte em La Antena, assinado por Daniel Gimelberg, é primoroso e, de acordo com o making-of do filme, disponível nos extras do DVD, fica clara a intenção de homenagear uma história dos efeitos especiais, com a emulação de alguns efeitos ópticos por meio de ferramentas digitais.


O roteiro de La Antena é razoavelmente confuso, e só em algumas seqüências excluídas do corte final, disponibilizadas nos extras do DVD, é que compreendemos determinadas ações e motivações dos personagens. Porém, a julgar pelo depoimento de Sapir no making-of do filme, a narrativa de La Antena foi muito mais baseada em sensações, impressões e atmosferas do que na progressão linear de um roteiro conservador. Falar em lógica, neste caso, seria um tanto quanto ocioso. De toda maneira, a despeito de quaisquer defeitos, La Antena é “um filme vivo, feito com as vísceras” – parafreaseando Jean-Claude Bernardet a respeito de Bicho de Sete Cabeças (2009, p. 258). Somando-se La Antena a La Sonámbula (1998) e Adiós Querida Luna (2004), ambos de Fernando Spiner, e ainda Moebius (1996), de Gustavo Mosquera, o cinema fantástico argentino contemporâneo ganha “de lavada” do equivalente brasileiro.


Gustavo Mosquera, Esteban Sapir e Lucrecia Martel são alguns dos diretores argentinos com passagem pela ENERC (Escuela Nacional de Experimentación y Realización Cinematográfica). Os trabalhos em curta-metragem de Mosquera e Sapir, por exemplo, revelam muito sobre seus projetos posteriores em longa-metragem. IV Éden (1989), de Sapir, já demonstra o interesse do cineasta pela televisão e a metalinguagem. O filme é uma distopia pós-apocalíptica envolvendo vigilância em vídeo, de extração metalingüística. Arden los Juegos (1985), de Mosquera, é uma ficção pós-apocalíptica sobre a angústia dos momentos seguintes a uma catástrofe global. Tanto Arden los Juegos como IV Éden demonstram um interesse relativamente difundido no cinema de FC argentino pela ficção distópica, ou pós-apocalíptica, algo observável também no Brasil, embora talvez com menos intensidade ou empenho.

Falta no cinema brasileiro a mesma familiaridade com o trato do tema fantástico observável na Argentina, a mesma arte do improviso, sujeição ao arriscado – enfim, a mesma ousadia de fazer filmes “médios”, porém inspirados porque cheios de vida.


Assita AQUI ao trailer de A Antena.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

12/02: Solaris (Andrei Tarkovsky, 1972)

Solaris - Andrei Tarkovsky (1972)

Sinopse
Um famoso cosmonauta-psiquiatra é enviado para a estação científica que está em órbita do planeta oceânico Solaris com a importante missão de investigar uma série de fatos bizzaros e misteriosos que estão ocorrendo. Lá, um cientista suicidou-se e dois estão a beira da insensatez. Os cientistas acreditam que fenômenos sobrenaturais estejam por trás destes fatos e que estes, sofrem influência do planeta Solaris. Tarkovski, ao contrário das ficções científicas da época, procura explorar um espaço muito mais vasto e perigoso do que o que nos rodeia, o Espaço Interior. Duração: 165 minutos.

Artigo: Solaris (Andrei Tarkovsky, 1972)

Eixo Temático

A civilização do capital se baseia num determinado pressuposto epistemológico, o da Razão Científica, que fundou a técnica e a ciência moderna. A episteme do Ocidente esvaziou a Natureza de seu significado metafísico, tornando-a mero objeto de manipulação incremental. Na civilização do capital, o esvaziamento do universo natural seguiu pari passu o esvaziamento existencial do universo humano. O desenvolvimento da tecnologia não conseguiu preencher, de pleno sentido, a vida humana; e a ciência moderna, na sua forma instrumental, apenas consolidou o vazio existencial da sociedade burguesa. Desde os primórdios do século XX observamos uma crise da ciência moderna , cindida pelo crescente especialismo (ou divisão científica do trabalho) e pela instrumentalidade exacerbada aos interesses da ordem do capital (a tecnologização da ciência). Mesmo com os avanços magistrais do conhecimento cientifico (e da dominação da Natureza), o homem burguês ainda está imerso em si e em seus particularismos estranhados, buscando uma vida plena de sentido. Mas a ciência moderna é incapaz de dar sentido à vida do homem. Mesmo dominando o tempo-espaço e reduzindo as barreiras naturais, o homem burguês tende a se encontrar consigo e com seus fantasmas interiores, espectros de uma interioridade exacerbada e vazia de sentido, imersa na memória e na temporalidade retrospectiva.

Temas-chaves: crise das ci6encia e capitalismo tardio; técnica e tecnologia; memória e identidade humana; subjetividade, capital e tecnologia; valores sociais, técnica e sociabilidade.

Filmes relacionados: “Matrix”, dos Irmãos Wachowski; “Metropólis”, de Fritz Lang; “2001-Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick; “IA - Inteligência Artificial”, de Steven Spielberg; “Eu, Robô”, de Alex Proyas.

O filme clássico de Andrei Tarkovski, de 1972, é baseado no romance homônimo de Stanislaw Lem (o roteiro é de Andrei Tarkovski e de Friedrich Gorenstein). É uma produção da extinta URSS. No filme, Kris Kelvin, interpretado por Donatas Banionis, é um psicólogo designado para apresentar um relatório sobre a Estação Espacial que está em órbita do planeta Solaris. Em torno deste planeta e de seus mistérios se constituiu uma ciência - a solarística.

O projeto Solaris, que mantêm a Estação orbital em funcionamento, esta há tempos estancado. Está em crise desde que uma expedição que sobrevoava o oceano de Solaris teve um acidente, matando o radiobiólogo Vichiniakov e o físico Fechner. O piloto de helicóptero, Burton, que tentava o resgate, nada pode fazer. Como único sobrevivente desta trágica expedição, relatou que viu em Solaris árvores, arbustos, cercas, acácias e um objeto flutuante - a figura de um humano, uma criança, incrivelmente grande, de olhos azuis e cabelos negros, nadando no Oceano de Solaris com o tronco fora d'água - "...estava nu como quem acabou de nascer". A Comissão de Inquérito considerou Burton vítima de alucinações causadas pela influência da atmosfera de Solaris e acompanhada de sintomas de perda de razão estimulada pelas regiões limitrofes do córtex cerebral. Além disso, observou que a solaristica era “um aglomerado de fatos desconexos que não se encaixam em nenhuma concepção”. As visões de Burton atentavam contra a Razão científica. Como observou o Doutor em Física, Messanger, o projeto Solaris estava atingindo os limites do conhecimento humano.


Na Primeira Parte do filme, Kris Kelvin, o psicólogo, considera que “a solaristica está se degenerando”. Conversando com Burton, antes de partir para a Estação Orbital de Solaris e elaborar seu relatório, diz, com ênfase: “Só me interessa a verdade. Não posso guiar-me por impulsos da alma. Não sou poeta. Tenho um objetivo concreto: tirar a estação de órbita, encerrando os estudos e legalizando a crise da solaristica ou tomar medidas extremas sujeitando o Oceano a uma irradiação intensa.” É curioso que um psicólogo diga que não pode se guiar por impulsos da alma humana, afirmando logo a seguir: “Não sou poeta” (o que demonstra a contraposição vigente entre ciência moderna x arte). Assumindo a posição do parecerista imparcial, impregnado pela objetividade e pragmatismo vigente, o psicológo Kris Kelvin busca resultados concretos. Talvez os custos financeiros elevados obrigassem o Estado a cortar verbas para o prosseguimento das investigações sobre o oceano de Solaris (tanto que, dos 86 tripulantes de Solaris, se mantinham apenas 3 na ativa). Como Burton iria dizer mais adiante, Kelvin assumia a posição do mero “contabilista” (no inicio do filme, o pai de Kris observa que o filho, imerso (e angustiado) com a ciência solaristica, ultimamente parecia "um contador fazendo suas contas"). Nesta Primeira Parte de Solaris, Kris Kelvin expressa as convicções vigentes de cariz neopositivista sobre o valor da ciência moderna. Entretanto, é perceptivel que ele vive uma crise existencial, imerso em conflitos íntimos, que iriam, só mais tarde, se manifestar, no interior da Estação orbital. Na verdade, como iremos verificar, seria Solaris, o universo desconhecido, que iria propiciar a catarse de Kris Kelvin.

O diálogo entre Kris e Burton, antes da partida para a Estação Orbital, é importante, pois revela duas concepções antípodas de mundo. Burton observa, contradizendo a posição pragmática de Chris: “Quer destruir o que ainda não somos capazes de compreender? Não sou adepto do conhecimento a qualquer custo. O conhecimento só é verdadeiro quando ético”. Neste momento, Tarkovski coloca outro problema crucial – a relação ciência moderna e ética. Diante da observação de Burton, Kris responde: “Só o homem torna a ciência imoral. Lembre-se de Hiroshima.”. Mas Burton replica: “Não faça então a ciência amoral. É estranho”. Ora, o que Burton quer lembrar a Kris Kelvin é que a posição ética é intrínseca à atividade humana. Como atividade humana, a ciência não poderia ser nem imoral, nem amoral. Para ser verdadeiramente ciência precisaria ter um compromisso ético-moral. O que significa que uma ciência sem ética, baseada apenas em critérios contábeis, supostamente objetivos (e visando resultados pragmáticos), era uma fantasia tão irresponsável quanto aquela de que estava sendo acusado Burton ao relatar suas visões no oceano de Solaris. Entretanto, Kris observa para Burton: “Não tem nada de estranho [quanto a fazer uma ciência amoral].” E conclui: “Também não tem a certeza de que não foram alucinações [as visões de Burton em Solaris]”. Enfim, Kris lembra a ele que, embora a posição ética seja intrinsecamente humana, ela não nos garante nada (é quase o que disse Dostoievski: “Se Deus não existe, tudo é permitido”). Ou seja, a ética sugerida por Burton poderia ser apenas produto de uma subjetividade alucinada e baseada em valores subjetivos, portanto, arbitrários.

A seguir, o psicólogo Kris Kelvin chega à Estação Orbital de Solaris, que possui ainda três tripulantes: o astrobiologo Sartorius, o especialista em cibernética Snout e o fisiologista Guibarian. Mas, chegando lá, Kris encontra um ambiente estranho, transtornado pela alucinação de seus tripulantes orbitais. Um deles – Guibarian - cometeu suicídio. Os outros vivem alucinações com pessoas que são materializaçòes de sua própria consciência. Kris Kelvin logo passa a conviver com uma dessas visitas (como seria chamada tais materializações). É a sua ex-mulher, Hary, que há cerca de dez anos, cometera suicídio. Ela é um fantasma - um espectro - dos próprios temores, medos e afetos inconscientes de Kris Kelvin. A Segunda Parte do filme tem inicio com a tentativa de Kris em se livrar de sua visita. Embora tente se livrar de Hary, ela retorna. As visitas são imortais. Ressuscitam após cada morte. Na verdade, Hary representa a materialização de um inconsciente de Kris Kelvin que resiste e se impõe. Ela é a prefiguração viva dos traumas do passado. Num certo momento, no diálogo na biblioteca da Estação Orbital, Hary irá dizer: “Para vocês [os tripulantes da Estação orbital], as visitas são uma coisa estranha e irritante. Mas as visitas são vocês próprios, são a vossa consciência.”. Kris Kelvin, não conseguindo eliminar Hary, acaba se envolvendo com ela. Cria laços afetivos. O que Tarkovski sugere é que o homem é capaz de criar laços afetivos com seus próprios fantasmas.

No decorrer da narrativa, Hary se angustia com a autoconsciência de sua artificialidade e de sua humanidade incompleta. É um espectro angustiada com sua própria espectralidade. Aos poucos, Hary adquire consciência-de-si. Sente nostalgia do ser humano que nunca foi. Lamenta não possuir memórias de um tempo passado, aquelas que Kelvin possui (seria interessante, por exemplo, um contraste entre Hary e Rachel, personagem feminina de Blade Runner, de Ridley Scott). No diálogo na biblioteca, Sartorius acusa Hary de ser “uma simples réplica” [da verdadeira Hary, ex-mulher de Kris, que se suicidara], “uma repetição mecânica, uma cópia, uma imitação”. Sartorius atingira o cerne essencial das preocupações de Hari. Ela diz: “Mas eu estou me tornando humana! Não sinto menos do que você. Já posso viver sem ele [Chris Kelvin]. Eu estou amando. Sou humana.” É o amor que sente por Kris, seu “criador inconsciente”, que irá aferir o grau de humanidade de Hary. Mas ela sente os dilemas profundos do amor humano. Diz Hary: “Kris me ama. Aliás, é possível que não me ame, que apenas queria se defender de si mesmo...” E arremata: “O problema não é esse. As razões que levam o homem a amar não importam.” Enfim, o que Tarkovski está nos dizendo é que a descoberta do amor é a descoberta de suas irrazões – e mais uma vez, as razões não importam, o que importa é apenas o laço afetivo criado. Mais tarde, é Kris Kelvin que estará imerso em divagações sobre este tema eterno: “O amor é algo que nós podemos sentir. Mas nunca explicado. Só se pode explicar a idéia. O homem ama o que pode perder. A ele próprio, uma mulher, sua pátria. Até hoje, a Humanidade e a Terra ficaram fora do alcance do amor.” Antes, Kris Kelvin, num diálogo com Snout, fizera referência a Tólstoi: “ Lembra-se das atribulações de Tolstoi, que sofria por não poder amar toda a Humanidade?”.

No final do filme, Hary busca se auto-destruir. Chegara à situação-limite das angústias de sua humanidade inconclusa. Novamente, podemos comparar Hary com o replicante Roy Batty (estrelado por Rudger Hauer) de Blade Runner. Ser não-humana - ou possuir a potência humana sem torná-la jamais ato - é o inferno de Hary. Entretanto, sua busca pela morte é inglória - Hary é "imortal". Ela não pertence a si própria. Nem pertence a Kris, mas tão-somente ao seu subconsciente. Só ele poderia emancipá-la deste inferno. No final, exposto a um tratamento encefalográfico, sugerido por Sartorius, Kris Kelvin submerge em suas reminiscências do passado. Como uma hipnose induzida, Kelvin adormece e sonha com sua mãe. No sonho, Hary e a mãe de Kelvin se confundem. Na verdade, ela é a própria representação da mãe de Kris. Existe uma densa relação problemática de natureza inconsciente entre Kris Kelvin e sua mãe que teria se projetado na relação dele com a ex-mulher. Num certo momento de seu sonho, Kris diz para sua mãe: "Não me lembro do teu rosto." Enfim, é um momento de plena ressonâncias freudianas na trama de Solaris.

Solaris é um filme denso, complexo e metafísico. Tarkovski permeia sua narrativa filmica com divagações filosóficas. São verdadeiros monólogos do homem consigo mesmo. Os vários personagens da Estação orbital, representam as concepções de mundo de uma humanidade em crise: a humanidade negada do capital. Por exemplo, os diálogos na biblioteca da Estação Orbital são significativos. O ambiente da biblioteca é o próprio palco do mundo. Em destaque, livros e pinturas do mundo renascentista, expressões de um humanismo primordial, hoje dilacerado pela crise estrutural do capital (por exemplo, o cientista Snout cita “Dom Quixote de La Mancha”, de Cervantes e Hary, num certo momento, divaga na pintura “Os caçadores na neve” de Pieter Bruguel, expressões da cultura renascentista). Enfim, o filme Solaris é a representação alegórica da crise do homem moderno. Destacamos os diálogos do especialista em cibernetica Snout, um personagem que, a partir da sua experiência vivida e percebida na Estação orbital, torna-se totalmente cético sobre as possibilidades do conhecimento cientifico. Ele põe em questão a ciência moderna, paradigma fundamental do imaginário de vida da civilização do capital. Diz ele: “O que está lendo? Nada disto presta”. Na verdade, todo o conhecimento cientifico do homem é incapaz de explicar as visitas, materializações da própria (in)consciência humana.

As visitas do filme Solaris surgem a noite, após o sono dos tripulantes. Elas aparecem e passam a conviver com eles mesmo após terem acordado. Snout divaga: “Só chegam à noite. Mas precisamos dormir. Aqui está o problema – o homem perdeu o sono.” E pede para Kris Kelvin ler uma passagem do romance clássica do renascimento burguês Dom Quixote: “Só sei uma coisa, senhor, Quando estou dormindo, desconheço o medo, as esperanças, os trabalhos e a beatitude. Agradeço a quem inventou o sono, esta única balança que iguala um pastor a um rei; um imbecil a um sábio. Mas também tem o seu lado negativo, se parece muito com a morte.” Snout diz a seguir: “Nunca antes, Sancho [Pança], você disse algo tão gracioso. Ciência? Tolice! Na nossa situação, o gênio e o medíocre, dois impotentes. Dizemos que pretendemos conquistar o Cosmos. Na realidade, só queremos aproximar a Terra das fronteiras dele. Não nos importam outros mundos. Queremos é um espelho. Procuramos muito um contato, mas nunca o encontraremos. Estamos na situação idiota de quem aspira a um objetivo que teme e que não necessita.” E exclama: “O homem precisa do homem”. É uma passagem magistral de Solaris.

O especialista em cibernética Snout traduz o desencanto irremediável com a ciência moderna (é sintomático que ele seja um cientista da cibernética). Sua posição é contrária a de outro tripulante da Estação orbital, o astrobiólogo Sartorius que representa o pragmatismo responsável dos funcionários da ciência moderna. Sartorius não se sente sensibiizado pelos mistérios de Solarius. Para ele, é mera alucinação produzida pela influência do oceano de Solaris. É uma mera extravagância. Diz ele: “O homem foi criado pela Natureza para a conhecer. O homem está cada vez mais perto da verdade. Condenado a conhece-la. Todo o resto é extravagância.” De fato, Sartorius incorpora a lógica produtivista do sistema social vigente. Condena a imersão no sonho. Diz ele: “[Kelvin] Não vê além da sua ex-mulher. Passam dias deitadinhos na cama.” Ele critica Kelvin que, segundo ele, “perdeu a noção de realidade”. Diz: “É um preguiçoso, nada mais”. Por outro lado, Kris Kelvin, o psicólogo enviado para elaborar um relatório sobre o projeto Solaris, aos poucos vai-se transtornando, alterando sua percepção do mundo. De certo modo, é como se reencontrasse com Burton e suas inquietações existenciais (apresentadas na Primeira Parte do filme). Na verdade, a experiência de contato com Solaris foi catártica para Kris Kelvin.


As cenas finais de Solaris estão imersas em alegorias complexas que nos fazem lembrar “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick. Mas, enquanto Kubrick nos conduz pelo deep space, ao som da Valsa Danúbio Azul de Johann Strauss, quase uma celebração irônica do domínio do homem burguês sobre a Natureza, Tarkovski nos conduz pelas inquietações íntimas da alma humana. É curioso que seja um cineasta soviético, de uma sociedade pós-capitalista, comprometida com o Materialismo Histórico, que tenha nos conduzido pelas dilacerações metafísicas da alma humana. Na verdade, Andrei Tarkovski é um herdeiro do imaginário russo de Dostoievski e Tolstoi. E o que está dilacerado é a alma burguesa e a civilização do capital. No final do filme, Hary desaparece tal como veio, talvez por conta de alterações no oceano de Solaris - ou será que foi pela ação do subconsciente de Kris Kelvin?. De repente, aquele oceano vivo passou a ter "ilhas". Kelvin está numa dessa "ilhas" de Solaris, sugerindo a absorção da sua dimensão psíquica pelo oceano do planeta vivo.

Andrei Tarkovski é poético e filosófico. Consegue enriquecer a trama narrativa de Stanislaw Lem, expondo através dos recursos cinemáticos, questões filosoficas de alto nível. Cinema é imagem em movimento. Talvez em Solaris haja mais imagem que movimento (o que é antípoda ao cinema de Hollywood). Na verdade, o intenso movimento está na interioridade típica dos personagens de Solaris. É através deste movimento íntimo dos personagens que Tarkovski nos apresenta suas inquietações filosóficas. Por outro lado, as imagens de Solaris são singelas, fluidas, de uma perenidade que inquieta. O filme é perpassado de detalhes significativos (a folha que flui através da correnteza do lago; a chuva repentina na casa de campo de Kris, com a Natureza expressando as dilacerações íntimas deste personagem central; os posters imensos de personalidades do Poder no salão de depoimentos da Comissão de Inquerito que entrevistava Burton, representando o comprometimento do Poder com a Ciência moderna; a queda casual de Kris Kelvin logo ao chegar na Estação orbital; a roupa inteiriça de Hary, etc). A fotografia de Vadim Yusov é belissima, com destaque para as cenas da Natureza exuberante em contraste com a civilização da Técnica. Mas é uma Natureza que se impõe ao homem. Nas imagens de abertura do filme, Kris aparece imerso na Natureza exuberante do bosque próximo a sua casa de campo. São cenas fabulosas e de uma poesia intensa. Cada imagem contém elos significativos com inquietações íntimas do personagem central - Kris Kelvin. É em torno dele que se desenvolve a trama de Solaris. Na verdade, naquela Estação orbital se encontra todo o drama reflexivo da civilização ocidental e sua crise profunda. Solaris é um filme de crise, de uma dimensão da crise orgânica do capital, da sua visão de mundo cientifica. Em Solaris, o homem está diante de seus limites. De certo modo, a temática de Solaris foi apropriada pelo filme “Contato” de Robert Zameckis (baseado num romance de Carl Sagan). Só que Tarkovski consegue ser mais denso que Hollywood.

Com Solaris, o Ocidente faz seu balanço filosófico. O homem ou a humanidade presente através de seus tripulantes sobreviventes (e alucinados), estão transfigurados pelas visões de si próprio. Cada visita é a projeção virtual dos fantasmas inconscientes de seu criador. Apenas Hary aparece com destaque - ela é a visita do personagem central, Kris Kelvin. As outras visitas aperecm de relance. É curioso que a visita do astrobiólogo Sartorius, entusiasta da visão de mundo científica, é um anão traquina e a de Gubarian, o que cometeu suicidio, é uma jovem adolescente.

O filme Solaris sugere uma discussão sobre que é real e o que é virtual. Nessa perspectiva, o virtual é tão real quanto a própria realidade que somos nós. As visitas seriam espectros virtuais de nós mesmos. São parte de nós, algo ineliminável e imorredouro. Assim, Hary é uma extensão virtual de Kelvin, projeção de sua (in)consciência dilacerada. De certo modo, ao se apaixonar por Hary, ele se apaixona por si mesmo. "Queremos é um espelho!", dissera Snout. Hary é uma parte não-resolvida de Kris Kelvin. Como Hary afirmara, certa vez,“ é possível que [Kris] não me ame, [mas] apenas queira se defender de si mesmo”. É como se carregássemos em nós o irresoluto, o perdido, o enigmático que não sabemos nos desvencilhar. Na Primeira Parte de Solaris, Kris aparece se desvencilhando de pápeis e fotos antigas - uma delas é de Hary, sua ex-mulher. Mas dentro de si, ele ainda não conseguira resolver as dilaceraçõies deste passado. Seria o oceano de Solaris que iria materializar seus devaneios interiores. O que Tarkovski sugere é que não podemos descartar o que ainda está irresolvido dentro de nós. Na verdade, as cenas de abertura de Solaris mostram um Kelvin pensativo diante da Natureza exuberante. Ele possui uma expressão de melancolia e de crise interior.

O filme Solaris começa com a experiência “mística” de Burton e termina com a de Kelvin. Depois de ter passado por Solaris, Burton não conseguiu ser mais o mesmo. Por exemplo, na primeira parte do filme, a cena de seu trajeto da casa de campo de Kris Kelvin até a metrópole, com seus fluxos de néon e de carros em alucinada velocidade, é quase que uma viagem interior. Nela, Burton parece imerso em si, sendo conduzido pela máquina. Ele deixa-se conduzir. O carro o conduz, tal como ele é conduzido pela sua experiência "mística" em Solaris. Sua expressão é de preocupação contida pois o ceticismo de Kris Kelvin o frustrou terrivelmente.


Em Solaris, a presença da tela imagética é constante. É através dela que tomamos conhecimento da experiência de Burton. É através dela que sabemos da experiência trágica de Guibarian, um dos tripulantes que cometeu suicídio. É através dela que estamos, nós, entrando em contato com a narrativa de Solaris. Para Tarkovski a vida está na tela e a tela está na vida, como interfaces reflexivas de uma única experiência – a experiência de nós mesmos. Pois cada depoimento da tela diz respeito a cada um dos personagens que a assistem. Inclusive, entre os tripulantes da Estação orbital existe uma reflexão subsistente sobre o que levou Guibariam a cometer suicídio (afinal, ele não parecia ser nenhum suicida em potencial). Aquele gesto alucinado tornou-se objeto de uma reflexão filosófica no salão da biblioteca da Estação orbital. Kris observa: “ Guibarian não perdeu o ânimo. Há coisas piores ainda. Morreu porque não enxergava a saída. Não sabia que isto não acontecia apenas a ele.” E mais adiante, num de seus devaneios, dirá: “Guibarian não morreu de medo. Morreu de vergonha. A vergonha salvará a humanidade.”

No filme de Tarkovski, o preto-e-branco e o colorido se sucedem, como se expressasse uma mescla de sentimentos e de percepções sobre o desconhecido (a Natureza e dentro dela, nós mesmos). Além disso, outro detalhe importante na cenografia de Solaris é a presença de ícones da modernidade e do seu imaginário cientifico (bustos de filósofos antigos, seja na casa de campo de Kelvin, seja na Estação orbital); ou até imagens de santos da Igreja ortodoxa. Enfim, estamos diante de uma justaposição quase-kitsch de ícones do tempo passado e do tempo presente. Dialogamos com o tempo futuro – Solaris é o tempo futuro, de uma situação-limite que atinge a civilização e seu dogma principal: a Razão clássica tal como se constituiu desde Sócrates (os bustos parecem ser de filósofos gregos antigos). Ciência, Arte, Religião – existe um intenso diálogo entre as formas supremas de virtualização do homem. Ao centro, o homem e suas inquietações existenciais. Por exemplo, um dos grandes temas filosóficos de Solaris são suas reflexões sobre o amor, o afeto universal que une pessoas, criador de laços societários através do tempo. Aliás, foi o tempo ao lado de Hary - tempo passado e tempo presente – que constituiu seus laços de afetividade com sua visita. Scout já disse: “Se ela passar muito tempo ao teu lado, ela se tornará humana”. Na verdade, em Tarkovski, o tempo constitui o ser humano, pois é com ele que se sedimenta os laços de amor. Como diz Saint-Exupéry (no conto “O Pequeno Príncipe”): para se cativar é preciso ter tempo. Existe um tratado sobre o amor em Solaris. Como já destacamos acima, é Kris Kelvin que diz que o homem ama o que pode perder – eis novamente Exupéry. Ou ainda: “Eu estou me tornando humana, eu estou amando.”

Solaris é um planeta vivo. Aliás, o oceano que cobre o planeta é como um imenso cérebro que se comunica com os homens. Ele se comunica através dos homens, alucinando-os com seus próprios fantasmas interiores. É quase um espelho que inquieta uma civilização incapaz de se auto-refletir. “Queremos um espelho. O homem precisa do homem” – clama Snout no diálogo na biblioteca da Estação orbital (destacado acima). Enfim, a civilização da ciência é incapaz de conhecimento de si propria. É estranha a si mesma. As visitas aparecem como seres estranhos quando são partes de cada um de nós. O drama de Solaris é quase um sonho. Estamos num mundo de sonhos, num drama surrealista, cientificamente surrealista. De certo modo, voltamos às pinturas de Pieter Brugel (e talvez, de Hieronimus Bosch), artistas do Renascimento do século XV. Talvez Tarkovski seja o Brugel ou o Bosch do século XX.

É interessante que as visitas apareçam após os tripulantes adormecerem. Ao acordarem, elas estão lá, presentes, diante de deles, como se os sonhos extrapolassem o momento do sono e se materializassem diante dos tripulantes. Para sonhar, é preciso que adormeçamos. As visitas eram sonhos diurnos. Na cena da biblioteca, Scout dissera: “Aqui está o problema - o homem perdeu o sono”. Se perdeu o sono, torna-se incapaz de sonhar, pois em Solaris, o sonho diurno deriva do sonho noturno;é parte (e extensão) dele. Com Tarkovski, Sigmund Freud – e sua Interpretação dos Sonhos, e Ernst Bloch, com suas reflexões sobre as utopias como sonhos diurnos, dialogam intensamente. Em Solaris, o inconsciente tornou-se carne, como o Espírito Santo e o Cristo dos Evangelhos. Solaris exibe a parousia do inconsciente humano, que – com isso - deixa de ser inconsciente. Torna-se autoconsciência de um vazio criado pela civilização do Capital e da Técnica. Kelvin diz para Snout: “ Escuta, Snout, por que ele [o oceano de Solaris] nos tortura tanto? Perdemos nossa percepção do Cosmo. Os Antigos não tiveram este problema. Nunca perguntaram porquê. Lembra do Mito de Sísifo...?” .

Na verdade, somos nós que nos torturamos a nós mesmos, não o Oceano de Solaris. Para Tarkovski, a Razão Moderna interroga a si mesma porque perdemos a concepção do Cosmo. A Ciência moderna é sintoma desta perda. E suas interrogações acusam seus próprios limites, não limites do paradigma da Ciência moderna, mas de uma civilização, a civilização do capital, que a erigiu como forma de conhecimento humano primordial. Diz Kelvin: “O sentido da vida e outros temas eternos pouco preocupam um homem feliz. Estes problemas só o preocupam no fim da vida. Mas ninguém sabe quando chega o fim. Por isso, estamos sempre com pressa.” A civilização do progresso científico-tecnológico, a civilização do capital, é uma civilização da infelicidade universal. É a civilização da pressa universal. Como disse Saint-Exupéry, “os homens não têm tempo de conhecer coisa alguma”. Por isso são incapazes de amar, pois para se cativar e amar é preciso ser paciente, ter tempo e criar laços sociais e afetivos. É a condição primordial da sociabilidade plena, do amor á humanidade que atormentava tanto Tolstoi, incapaz de ver sua realização efetiva no mundo do capital.

por Giovanni Alves (2004)
Extraído de http://www.telacritica.org/solaris_tarkovski.htm

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

05/02: Longa-metragem - O Hospedeiro (Joon-Ho Bong, 2006)

O Hospedeiro - Joon-Ho Bong (2006)

Sinopse
Na beira do rio Han, moram Hee-bong e sua família, donos de uma barraquinha de comida no parque. Seu filho mais velho, Gang-du, tem 40 anos, mas é um tanto imaturo; a filha do meio é arqueira do time olímpico coreano; e o filho mais novo está desempregado. Todos cuidam da menina Hyun-seo, filha de Gang-du, cuja mãe saiu de casa há muito tempo. Um dia, surge um monstro no rio, causando terror nas margens e levando com ele a neta querida de Hee-bong. Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2006. Duração: 119 minutos.

Crítica: O Hospedeiro (Joon-Ho Bong, 2006)

por Vinicius Vieira
Extraído de http://www.cranik.com/o_hospedeiro.html

Já não é de hoje que o cinema coreano vem dando ótimos frutos (é só dar uma passada em qualquer locadora atrás deles que você não vai se arrepender), Chan-wook Park e sua trilogia da vingança viraram cult depois que “Oldboy” foi apresentado em Cannes, e agora o próximo candidato a coqueluche é o ótimo “O Hospedeiro”.

À primeira vista, o filme do diretor Joon-ho Bong tem toda a cara de trash, mas por trás da criatura gigantesca meio peixe que sai do rio Han para criar pânico na cidade de Seul, ele é um perfeito exemplo de como fazer um filme de terror extremamente interessante sem cair em qualquer tipo de lugar comum.

Primeira coisa que salta aos olhos é um roteiro muito bem pensado, que sabe equilibrar muito bem toda a tensão do terror, com o drama da situação da família, mas sem deixar de lado toda uma crítica política, não só sobre a própria divisão do país em norte e sul (muito mais subjetiva), como a descarada critica em relação a “invasão” dos Estados Unidos na história ao melhor jeito “viemos aqui para salvar o mundo”, isso sem contar que no final das contas eles mesmos criaram o monstro.

Aqui uma curiosidade, o começo do filme mostra um caso real, que aconteceu anos atrás em uma base americana na Coréia, pelo menos até agora o monstro não apareceu.
Voltando ao filme, o diretor talvez tenha o seu maior acerto ao conseguir construir uma história que vai crescendo junto com o filme, prendendo totalmente o espectador na cadeira, te absorvendo completamente.

Mas provavelmente, algo que pode chamar muito a atenção do grande público seja os ótimos efeitos visuais, criados pela Orphanage INC, responsável entre outros sucessos por “Superman Returns” e os dois últimos “Piratas do Caribe”. O tal monstro meio peixe na melhor das palavras é muito feio, e isso ajuda a criar uma certa mítica, afinal ele dá uma mistura de horror e asco nas pessoas, nada de pensar em vender bonequinhos dele mais tarde, a única preocupação parece ser o status de criatura horrenda.

“O Hospedeiro” foi a maior bilheteria da história do Coréia de todos os tempos, com um número equivalente a 20% da população do país, é óbvio que uma grande parcela desse numero é de pessoas que viram o filme mais de uma vez, mas mesmo assim é um número impressionante, no resto do mundo provavelmente não vai fazer tanto sucesso assim, mas com certeza é uma ótima pedida para quem quer ser surpreendido por um filme diferente de tudo que aparece por ai.

05/02: Curta-metragem: Viagem à Lua (George Méliès, 1902)


Viagem à lua - George Méliès (1902)

Sinopse
Um grupo de astrônomos vão para a Lua em uma cápsula gigante, chegando lá se deparam com seres esquisitos e selvagens. Primeiro filme de ficção científica da história do cinema. Duração: 12 minutos.

Crítica
por Victor Ramos
Extraído de http://pudimdecinema.blogspot.com/2010/11/viagem-lua-1902-critica.html

Quem criou a piada sobre o homem ter ido à lua em 1969?... Não sabe?... Pois eu queria saber para ter o maior prazer de dizer na cara dele que o homem foi à lua muito antes de 1969.
Para falar de Viagem à Lua, é preciso saber antes de tudo que foi um filme mais que inovador em sua época, efeitos visuais de ultima geração e um gênero novo(ficção científica) que futuramente se tornaria sensação por muuiittoo tempo (e se é que vai acabar)... Estamos falando do primeiro filme a tratar de vida fora da terra, coisa que muitos outros como Ridley Scott, Steven Spielberg e uma porrada de outros diretores atuais (ou não) se inspirariam nesta magnífica obra-prima, sim, todo filme de ficção científica presente hoje só existe pelo fato de grandes diretores e mais ainda de Georges Méliès, um dia terem derrubado grandes barreiras de dificuldades da sétima arte... Georges Méliès foi um ilusionista francês de grande calibre, e o púlblico não poderia esperar coisa melhor vindo de Georges Méliès; no início da vida da sétima arte, nada melhor que um ilusionista de sucesso para criar efeitos inovadores na a época, e depois de mostrar seu potencial, ser chamado de ‘’pai dos efeitos especiais’’.

Georges Méliès prova melhor que ninguém com seu maravilhoso e belíssimo ‘Viagem à Lua’ que o homem no ano de 1902 já tinha alcançado o objetivo ambicioso de viajar à lua... Discorda de minha afirmação? Pois bem, vamos dialogar... O cinema desde sua criação foi uma máquina se sonhos onde quase tudo é possível, mesmo sem a existência dos ainda inéditos efeitos especiais, e hoje produções espetaculares para os olhos como Avatar, só conseguiram alcançar o objetivo de realidade (ou quase perfeição) porque muito antes mestres do cinema como Georges Méliès derrubaram tabus que na época eram barreiras para a criatividade dos diretores; fez uso, ou melhor, criou efeitos visuais para Viagem à Lua, usou técnicas de dupla exposição para obter resultados inovadores para a época.

Viagem à Lua é um verdadeiro deleite para os olhos que encantou (e inda é capaz de encantar) adulto de crianças do mundo inteiro com seu modo único de criar filmes literalmente mágicos e encantadores no melhor estilo da obra Alice in Wonderland de Lewis Carroll... Não vejo motivos para não dar 10 para um filme tão importante como este, e ainda mais para um diretor que influenciou importantes diretores como Charles Chaplin e D. W. Griffith.

"a ele tudo devo"
-D. W. Griffith-

"o alquimista da luz".
- Charles Chaplin

Não tem como negar que para o cinema, Méliès foi mais que importante. Inovador, visionário e mágico, o Jules Verne do cinema... Simplismente brilhante.

Programação Fevereiro de 2011: Ficção Científica

O Cine Clube Ybitu Katu exibe:

05/02:
Curta-metragem: Viagem à Lua (George Méliès, 1902)
Um grupo de astrônomos vão para a Lua em uma cápsula gigante, chegando lá se deparam com seres esquisitos e selvagens. Primeiro filme de ficção científica da história do cinema. Duração: 12 minutos.

Longa-metragem: O Hospedeiro (Bong Joon-ho, 2006)
Na beira do rio Han, moram Hee-bong e sua família, donos de uma barraquinha de comida no parque. Seu filho mais velho, Gang-du, tem 40 anos, mas é um tanto imaturo; a filha do meio é arqueira do time olímpico coreano; e o filho mais novo está desempregado. Todos cuidam da menina Hyun-seo, filha de Gang-du, cuja mãe saiu de casa há muito tempo. Um dia, surge um monstro no rio, causando terror nas margens e levando com ele a neta querida de Hee-bong. Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2006. Duração: 119 minutos.

12/02:
Solaris
(Andrei Tarkovsky, 1972)
Um famoso cosmonauta-psiquiatra é enviado para a estação científica que está em órbita do planeta oceânico Solaris com a importante missão de investigar uma série de fatos bizzaros e misteriosos que estão ocorrendo. Lá, um cientista suicidou-se e dois estão a beira da insensatez. Os cientistas acreditam que fenômenos sobrenaturais estejam por trás destes fatos e que estes, sofrem influência do planeta Solaris. Tarkovski, ao contrário das ficções científicas da época, procura explorar um espaço muito mais vasto e perigoso do que o que nos rodeia, o Espaço Interior. Duração: 165 minutos.

19/02:
Mistérios e Paixões (David Cronenberg, 1991)
Com esta adaptação de Almoço Nu, o romance considerado infilmável de William S. Burroughs, David Cronenberg faz seu filme mais delirante. Peter Weller vive Bill Lee, um escritor fracassado, que extermina insetos para pagar suas contas. Bill está tendo problemas no trabalho, correndo o risco inclusive de perder o emprego, pois frequentemente esgota seu estoque de inseticida. Porém, a verdade é que Joan, sua esposa, está viciada no "barato" que este pó lhe causa. Quando Bill, estimulado pela mulher, experimenta esta substância ele entra em um processo interminável de "viagens", nas quais máquinas de escrever se transformam em enormes insetos falantes. Duração: 115 minutos

26/02:
A Antena (Steban Sapir, 2007)
Em uma gélida metrópole dos anos XXX, toda a população está muda. O cruel Mr. TV comanda o país, monopolizando as palavras e imagens, e as pessoas nada fazem para protestar. Passam os dias sentadas, vendo televisão e comendo os alimentos produzidos por ele. Enquanto isso, Mr. TV coordena um plano sinistro para escravizar o povo inteiro, eternamente. Mas, para alcançar seus objetivos, ele precisa seqüestrar uma bela cantora, a única que ainda tem A VOZ. Feito à moda do cinema mudo, o filme é uma fábula sobre o poder da fala humana. Estréia mundial no Festival de Rotterdam 2007. Duração: 95 minutos

Cartaz - Programação Fevereiro de 2011: Ficcção Científica