sábado, 12 de novembro de 2011

Crítica: Noite Vazia (Walter Hugo Khouri, 1964)

por Tiago Canário
Extraído de http://www.ufscar.br/rua/site/?p=16

Os dramas perpétuos
Um passeio pela noite khouriana

“Não existe mais vida noturna, meu filho. Estou louca para que comece de uma vez a abençoada temporada na praia”, lança Doralina Soares, personagem coadjuvante em seu curto momento de aparição no longa-metragem Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri. O filme, em seus 98 minutos de duração, prova o contrário. Mais do que mera vida social, festa e diversão, a vida noturna que pulsa na obra é a vida psicológica, os meandros das mentes dos quatro personagens que se encontram no apartamento imerso na noite escura de Khouri.

A partir da seqüência de apresentação dos créditos, já tomamos consciência do peso do filme que está por vir. Envolvidos pela música soturna, densa e contida de Rogério Duprat, somos apresentados a uma série de manequins carcomidos. São rostos e bustos semidestruídos, expostos parcialmente, acobertados que estão pelas sombras, presentes física ou psicologicamente por todo o filme. Mas basta atentar um pouco à cena para perceber que nós não somos os únicos observadores – as faces desfiguradas nos espreitam. Juntam-se, aqui, as mãos praticamente roídas que se estendem na escuridão, que se sobrepõem em imagens – mas nunca se tocam. Altamente representativo na obra, o gesto adianta a distância e o deslocamento dos personagens entre si e da realidade.

E se a densidade anterior nos causa certo estranhamento, posta assim como está, a seqüência seguinte, na qual nos é apresentada a cidade, é igualmente marcante. Filme intimista, Noite Vazia não se prende à cidade-locação, que, aqui, poderia ser genericamente qualquer uma; o importante neste centro urbano nos é evidenciado no modo como Khouri o constrói: uma São Paulo dos anos 60, com aproximadamente cinco milhões de habitantes, em um recorte urbano. São cenas do trânsito e de prédios que acompanham a escuridão dos créditos iniciais. Também rodeada pelo peso da música de Duprat, a cidade, em alguns momentos, apresenta-se como um ideal metropolitano, formada por prédios altos, letreiros luminosos e um trânsito intermitente; em outros, torna-se mais clara a sua releitura como um centro disforme, turvo, perdido em meio às sombras da noite khouriana – seca.

Cabe aqui uma pequena inferência. Apesar das escuras e difusas ruas da metrópole, as casas, os interiores, são predominantemente claros. Os ambientes internos são inversamente mais limpos e iluminados – em determinados momentos, inclusive, uma iluminação excessiva. Nestes, ao tentar reconstruir uma luz natural, consegue-se mais um deslize técnico, um defeito. Sobretudo em relação às luzes vindas da rua, que atravessam a janela e se projetam sobre as paredes do apartamento; a intensidade é tamanha que se torna inacreditável sua origem, pois a força das cenas externas, sobretudo as iniciais, crava em nossas mentes a escuridão na qual submerge a cidade. E, ainda assim, evidenciando a sombra noturna e buscando a luz mais próxima possível da natural, no momento em que amanhece, a iluminação da locação, estranhamente, sofre uma alteração quase imperceptível. O ambiente se torna um pouco mais claro (muito menos do que seria crível em um apartamento normal), sendo a certeza da mudança noite-dia dada somente com os takes da cidade vista através da janela.

O ritmo do filme, por sua vez, é um ponto interessante. Ainda que inquestionavelmente bem construído, constante e fluente, é destoante. Ou melhor, mal escolhido. A obra procura trabalhar a angústia frente à realidade e aos dramas psicológicos; tudo sem qualquer perspectiva de solução. Trata-se, o filme, de um grande ciclo, uma angústia físico-mental de quatro personagens que permanecem em suas rotinas, testando uma saída que, desde já, reconhecem falha. É o retrato de uma noite que foi igual à anterior e será igual à próxima: todos estão conscientes de suas agonias, mas repetem seus gestos como que para preencher um tempo/vazio impreenchível, como uma grande encenação em busca de uma solução que já não esperam. Admitido isto, o ritmo esperado seria arrastado, contido, sofrido como os protagonistas. O que percebemos, não obstante, é algo mais aliviado, leve em alguns momentos, com takes não muito longos – o oposto do peso requerido pela obra. O ritmo funciona bem, mas para outro filme.

Talvez a opção pelo ritmo mais brando seja a aproximação de um filme mais “palatável”. Contemporâneo às produções do Cinema Novo brasileiro que ainda se distanciavam visivelmente do consumo cinematográfico geral, Khouri, é possível, mesclou em sua obra aspectos que a tornassem mais acessível ao grande público. Ou ao que aguça o imaginário de parte deste: consideramos, aqui, a cena de lesbianismo entre Regina (Odete Lara) e Mara (Norma Bengell). É um dos poucos momentos em que o sexo é tão trabalhado e evidenciado – embora não possamos negar a qualidade com a qual o diretor conduz a seqüência e constrói o desconforto de Mara e o exibicionismo de Regina. A montagem da obra é sutil e precisa; transmite o necessário. Sendo assim, Khouri, utilizando certos pontos com ou sem a intenção de aproximar-se do público, apresenta-os sempre coesos e bem desenvolvidos. Ele consegue que até mesmo seus aspectos/cenas desafinados sejam agradáveis.

Aproveitemos também para analisar uma pista deixada pelo diretor em seu filme. No final da madrugada, perdido em si, Luís (Mário Benvenutti) se senta para folhear algumas revistas deixadas sobre a mesa da sala. Em uma destas, o anúncio da viagem do homem à Lua; é perceptível o recorte da câmera para possibilitar a leitura da frase: “As pesquisas espaciais são, na realidade, vitais à sobrevivência da espécie humana”. Percebemos aqui a ironia de Khouri. Inserido em um momento histórico que ainda vivia as corridas armamentistas e espaciais da Guerra Fria, o diretor pouco se interessa por discuti-las; apresenta-as como de pirraça – mostra-as justamente para lembrar-nos de que não falará sobre elas. Khouri não abraça o mundo para modificá-lo ou contestar a situação em que se encontra; recorta decididamente os dramas intimistas de uma burguesia metropolitana, retratando-a sem qualquer perspectiva de melhora. É cinema sem esperanças. Ainda assim, não podemos ignorar que o destaque dado à frase também possa ser entendido como uma crítica feita a uma sociedade que ignora a degradação psicológica de seus indivíduos, mas clama inflamada pela inovação tecnológica.

Produzido em um esquema de cinema independente, Noite Vazia teve sua produção distante das grandes produtoras, restringindo-se quanto ao uso de meios técnicos, o que se evidencia no uso da já tratada iluminação ou da captação do áudio, de difícil compreensão em alguns instantes. Sofreu, ainda, como qualquer obra afastada das grandes corporações, problemas em sua distribuição e exibição, o que dificulta o acesso às suas cópias e o mantém como mais um dos grandes filmes brasileiros não vistos por sua população, conhecidos apenas por um pequeno grupo cinéfilo. Tal mecanismo de produção independente, porém, possui suas qualidades, visto que não se prende às regras comerciais. A obra de Khouri, portanto, encontrou-se livre para se construir a partir de um esquema de autor, esteticamente livre. Filme singular, afasta-se até mesmo do já esperado (e cultuado) modelo de cinema independente do período, o Cinema Novo. Foge, a mais, do esperado diálogo com os problemas nacionais; revela-se um filme possível em qualquer outro país. Neste estado, distante dos dois pólos de produção famosos no período, Noite Vazia alcança a liberdade em sua linguagem de proposta intimista e sem elaborações de acusações ou respostas em seu discurso.

Mas ainda que juntássemos todos os seus problemas, seu corpo não seria abalado; permaneceria como uma das memoráveis obras do cinema brasileiro. E, na verdade, não se precisaria dizer muito do filme; caberia, enquanto resumo da obra, uma simples frase pronunciada pelo personagem Nelson (Gabriele Tinti): “o que é diferente sempre tem dono”.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

04/11: O Saci (Rodolfo Nanni, 1951)

O Saci - Rodolfo Nanni (1951)

Sinopse
O filme narra as aventuras de Pedrinho, Emília e Narizinho, os inesquecíveis personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, às voltas com criaturas fantásticas do folclore brasileiro, como o Saci-Pererê e a Cuca, que aparecem para perturbar a tranquilidade de sua vida no campo. Para resolver os mistérios que assombram o Sítio, os três inseparáveis amigos se embrenham na floresta à procura do travesso moleque de uma perna só. Com este filme, Rodolfo Nanni ficou com o mérito de ter feito a primeira produção infantil importante do cinema brasileiro. Além disso, esta é a primeira e única adaptação para o cinema da obra de Monteiro Lobato, que, por sua vez, se inspirou na lenda do Saci-Pererê. O diretor teve uma excelente equipe para essa empreitada: fotografia de Ruy Santos, música de Cláudio Santoro e, o jovem Nelson Pereira dos Santos, como assistente de direção. Duração: 64 minutos.

Programação Novembro de 2011: ESPECIAL DE ANIVERSÁRIO: Grande Realizadores do Cinema Nacional

É com muito prazer que anunciamos a nossa programação especial do mês de novembro. É especial porque comemoramos o nosso aniversário de 3 anos de atividades initerruptas. Para isso, temos dois convidados mais do que especiais:
DIA 19 DE NOVEMBRO: ANDREA TONACCI (foto acima) para a exibição de seus filmes Blábláblá (1968) e Bang-Bang (1972) e discussão sobre seus filmes e a produção cinematográfica brasileira.
DIA 26 de NOVEMBRO: REINALDO VOLPATO (foto abaixo, ao lado de Leopoldo Nunes) para a exibição de seus filmes Canabraba - A Necessidade da Expressão (1987) e O Profeta das Águas (2005) (Direção: Leopoldo Nunes; Montagem e Produção: Reinaldo Volpato.



Confira abaixo a programação completa:
05/11: O Saci (Rodolfo Naninni, 1951)
12/11: Noite Vazia (Walter Hugo Khouri, 1964)
19/11: COM A PRESENÇA DO DIRETOR ANDREA TONACCI
Curta-metragem: BláBláBlá (1968)
Longa-metragem: Bang Bang (1968)
26/11: COM A PRESENÇA DO DIRETOR E MONTADOR REINALDO VOLPATO
Curta-metragem: Canabraba: A Necessidade da Expressão (1987)
Longa-metragem: O Profeta das Águas (2005) (Direção: Leopoldo Nunes; Montagem e Produção: Reinaldo Volpato)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

29/10: A Infância de Ivan (Andrei Tarkovski, 1962)

A Infância de Ivan - Andrei Tarkovski (1962)

Sinopse
Durante a Segunda Guerra Mundial, Ivan é um garoto russo de 12 anos de idade que trabalha como espião. Por ser ainda uma criança, ele pode tranquilamente cruzar as linhas alemãs sem ser percebido e assim conseguir informações privilegiadas para o exército soviético. Por sua coragem, três oficiais russos fazem de tudo para preservar a vida do garoto. Trabalho que marca a estréia em longa-metragem do jovem Andrei Tarkovski. Bem recebido pelo público e crítica, o filme foi o grande vencedor do Leão de Ouro em Veneza, desbancando filmes dos consagrados Godard, Kubrick e Pasolini. Duração: 95 minutos

Após a sessão, haverá um debate sobre o filme com o psicológo Augusto Sérgio Calille.

Crítica: A Infância de Ivan (Andrei Tarkovski, 1962)

por Gilberto Sila Jr.
Extraído de http://www.contracampo.com.br/61/infanciadeivan.htm

Na virada entre as décadas de 1950 e 60, diversas cinematografias começaram a ganhar prêmios em festivais e espaço no mercado internacional. Limitado pelas políticas culturais estalinistas, o cinema russo chama a atenção com dramas passados na segunda guerra, vistos então como líricos ou poéticos - Balada do Soldado e Quando Voam as Cegonhas os mais conhecidos – que o tempo mostrou serem demasiado piegas e submissos aos ditames do "realismo socialista". Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1961 e escrito por Vladmir Bogomolov a partir de um conto de sua autoria, A Infância de Ivan poderia ter sido apenas mais um desses dramas, não houvesse o projeto sido entregue a um jovem cineasta que faria então sua estréia em longa-metragem: Andrei Tarkovski. Este havia chamado a atenção com o média O Rolo Compressor e o Violino e assume o comando com o projeto já em andamento. A Infância de Ivan, portanto, não é um trabalho de todo autoral, mas Tarkovski já começa a impor sua marca e estilo pessoais, que ficariam mais evidentes a partir do segundo longa, Andrei Rublev.

As primeiras imagens, com Ivan em meio à floresta e recebido por um sorriso materno, que dão uma falsa idéia de que o filme seria mais um espetáculo de lirismo sentimental, são bruscamente interrompidas por explosões, que acordam o garoto de seu sonho. Refugiado num moinho, Ivan foge dos alemães atravessando um rio. Quando ele chega a um posto do exército russo, vemos que o rosto demasiado sério e embrutecido do garoto de doze anos, um olheiro do exército russo, contrasta com o do Ivan que antes fora visto interagindo em paz com a natureza. Em poucos momentos está definida a linha central do filme, que alterna a dura realidade da guerra com os sonhos de Ivan, evocativos de um passado de pureza, antes de sua família ter sido massacrada pelos nazistas. Essa visão da guerra através dos olhos de uma criança ou jovem que dela participa de forma ativa mostra-se praticamente uma tradição no cinema russo, vindo a render posteriormente outros ótimos filmes como Vá e Veja ou Não se Mova, Morra, Ressuscite.

Aos poucos vamos percebendo que Ivan e a guerra são indissociáveis. Sua figura frágil contrasta com sua postura dura e autoritária, até mesmo para com oficiais superiores, que desejam tirá-lo das linhas de combate e enviá-lo a uma escola militar. Ele foge, como antes houvera fugido do orfanato, insistindo em ser enviado a uma nova missão. Mesmo imerso em desejos de vingança e completamente ciente de seu destino, Ivan consegue construir entre as tropas um substituto para o meio familiar (principalmente com o tenente Galtsev e o capitão Kholin, que o acompanham em missão) e cria, a seu modo, com maturidade e sem inocência, um espaço lúdico no campo de batalha. A pureza fica para os sonhos. Essa maturidade de Ivan, como também dos protagonistas dos outros títulos citados no parágrafo acima, se opõe sobremaneira à visão de personagens de filmes americanos que vivenciam a guerra na infância, caso de Império do Sol de Spielberg, onde o protagonista segue idealizando a guerra em sua cabeça e vendo os aviões como imensos brinquedos.

É, portanto, essa visão banhada em desilusão que distingue A Infância de Ivan de seus demais congêneres no cinema russo da época. Isso somado ao estilo, então nascente, que Tarkovski acaba por impor. Já estão presentes elementos característicos de obras posteriores: uma complexa interação homem-natureza, vista em vários momentos de Andrei Rublev; um mergulho, ainda que incipiente, no processo mental da personagem, que viria a ser radicalizado em Solaris; o retorno onírico aos idílios do passado, presentes com força em O Espelho; ou a visão da margem oposta do rio, ocupada pelos alemães, como um desconhecido a ser explorado, ponto de partida de Stalker. Tarkovski também já demonstra seu gosto e talento para conceber imagens elaboradas com um virtuosismo que jamais se aparenta excessivo perante o conjunto. Como, por exemplo, na genial seqüência em que Kholin flerta com Masha na floresta, coroada por um dos mais belos planos jamais filmados, quando ele rouba um beijo da moça segurando-a sobre uma vala com as pernas entreabertas.

Mesmo deixando sua marca principalmente nas cenas de sonho – e, entre todas, aquela com os cavalos e a carroça de maçãs se mostra a mais impressionante –, Tarkovski parece estar também inteiramente à vontade nas seqüências realistas, já apresentando, neste primeiro longa, completo domínio da narrativa. E o momento da travessia, próximo ao final, quando Kholin e Galtsev deixam Ivan em território nazista e circundam o rio para resgatar dois cadáveres, repleta de tensão e suspense, deixa bem claro que caso Tarkovski viesse a se dedicar posteriormente a fitas de gêneros, como ação ou thriller, seria igualmente bem sucedido. Mas, para sorte do cinema, ele preferiu trilhar seu caminho próprio, forjando a partir de então uma trajetória ímpar que o situaria entre os maiores cineastas da história.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

I Encontro de Cine Clubes de Botucatu

No próximo sábado (29/11), às 16 horas, será realizado no Centro Cultural de Botucatu (ao lado do Cine Nelli, no mesmo prédio que a OAB), o I Encontro de Cine Clubes de Botucatu. Atualmente, oito entidades organizadas exercem atividades cineclubísticas na cidades (lista abaixo) e representantes de todos eles estão presentes no encontro para a discussão de suas atividades. O evento também é aberto para o público em geral.

Cine Clubes funcionando em Botucatu:

Cine Clube Ybitu Katu
Cine Clube Nostalgia
Cine Clube Paratodos
Cine Clube ArtConvívio
Dharma Cine
Cinema no Divã
Cine PSOL
Cine Clube da Liga da Saúde Mental

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

15/10: Kolya - Uma Lição de Amor (Jan Sverák,1996)

Kolya - Uma Lição de Amor - Jan Sverák (1996)

Sinopse
O ano é 1989, ano de grandes mudanças para a Tchecoslováquia. É neste ano também que acontecem profundas mudanças na vida do músico Franta Louka (Zdenek Sverak). Louka é um músico brilhante de 60 anos que é expulso por problemas políticos da filarmônica de Praga. Agora, só toca em funerais e vive uma vida pacata e solitária. Para saldar suas dúvidas, Louka acerta um casamento de aparências com uma russa que precisa da nacionalidade Tcheca para fugir de Moscou. Mas junto com o arranjo, vem Kolya, filho da russa. Após o casamento, ela foge para a Alemanha e deixa o filho de 5 anos com ele. Estranhos e separados pela barreira da língua, os dois tentam encontrar um modo de conviver. Aos poucos, encontram maneiras de se comunicar e se adaptar um ao outro; aprendem novas palavras, se aproximam, trocam sensações. Louka sofre uma metamorfose com a doçura daquela criança sozinha no mundo e obrigada, de uma hora para outra, a viver com um completo desconhecido. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1997. Duração: 103 minutos.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

08/10: Ponette (Jacques Doillon, 1996)

Ponette - Jacques Doillon (1996)

Sinopse
Ponette (Victoire Thivisol), uma menina de 4 anos, é confrontada com a morte da mãe, mas não consegue aceitá-la e acredita que ela irá voltar para junto de si. Durante as suas tentativas para falar com a falecida, Ponette questiona adultos e outras crianças, recebendo conselhos sobre religião, filosofia, magia negra e como falar com Deus. 93 minutos.

Crítica: Ponette (Jacques Doillon, 1996)


Estamos aqui perante uma grande obra de Jacques Doillon. Ponette traz-nos a história de uma menina de 4 anos (Victoire Thivisol) que se vê confrontada com a perda da mãe e sua constante luta para aceitar esse facto que tanta dor lhe traz. Existem muito poucas interpretações ao nível da de Thivisol, arrisco-me até a dizer que nenhuma. Ponette é um filme simples, tanto no campo técnico como no argumento. O que faz deste filme uma obra de grande valor, são as interpretações dos actores principais, dos quais a pequena Victoire Thivisol se destaca. Esta raridade do cinema europeu traz-nos uma história trágica e seu consequente desenvolvimento no pós-morte da mãe de Ponette. Esta criança de 4 anos vai insistentemente negar a morte da mãe e tentar a todo o custo falar com ela ou com Deus. A interpretação da pequena Thivisol é de uma categoria tão soberba, tão maravilhosa, que chega mesmo a ter, por momentos, a capacidade de iludir o espectador e fazer crer que é real. Existem muitos actores adultos profissionais, com enorme sucesso nos mais variados meios do cinema, que não chegam aos “calcanhares” desta interpretação assombrosa da pequena Thivisol.

Doillon traz-nos um universo completamente diferente daquilo a que estamos habituados, o universo das crianças na idade pré-escolar. Ou seja, a linguagem do filme e seus diálogos são praticamente todos de compreensão muito fácil, infantil. Doillon lida neste filme com a percepção que uma criança tem/ganha quando confrontada com uma situação tão difícil como a morte de uma mãe. Não é fácil aceitar a morte de alguém que nos é querido mesmo quando somos adultos, mas Doillon vai mais longe e mostra-nos o sofrimento de uma criança de 4 anos que de um momento para o outro se vê privada da figura mais protectora para uma criança, a mãe. Aceitar este facto requer várias explicações que lhe são dadas pelos adultos, pelas outras crianças da sua idade, inclusive os seus primos que convivem com ela dia a dia. Mas Ponette recusa-se a aceitar o facto de a mãe ter morrido e é aqui que a interpretação desta criança se transcende e traz todo o valor ao filme. É quando Ponette inventa que fala com a mãe de noite, quando a tia lhe diz que a mãe está no céu com Deus, quando a educadora a ensina a rezar, que toda a essência do filme faz sentido. É nestes momentos de uma procura de respostas às perguntas que uma criança de 4 anos, perdida numa condição que não compreende, não quer compreender e que procura incessantemente remediar e revogar toda essa condição a que está sujeita, que esta obra se valoriza.

Ponette vai mais longe e cria ela própria o seu momento de despedida com a mãe. Quando Ponette passeia de mão dada com a mãe pelo bosque e lhe pede que nunca mais se vá, Doillon mostra-nos que embora seja difícil aceitar o facto de a mãe estar morta e não voltar, a resignação de um indivíduo tem que chegar. E que melhor maneira do que a de Ponette, quando cria imaginariamente uma despedida da mãe, simbolizando a sua aceitação de uma condição que era mais forte que a sua constante negação de tal circunstância. Ponette é um filme belo, emocionante e extremamente simples. Aqui não há grandes enredos, traições e paixões. Ponette trata da morte, da dor e do amor. Ponette é arte em cinema.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

01/10: Tartarugas Podem Voar (Bahman Gobadi, 2004)

Tartarugas Podem Voar - Bahman Gobadi (2004)

Sinopse
Na fronteira entre Irã e Iraque, semanas antes da invasão do Iraque pelas tropas norte-americanas, num acampamento de refugiados curdos, as pessoas se reúnem para ouvir as notícias da guerra. a figura central desse grupo é Satélite, um garoto que exerce a liderança entre crianças, jovens e adultos. o filme registra o caos em que essas pessoas vivem, o isolamento e a completa falta de informações relativas à guerra. Agrin, uma garota de 14 anos, chega à região com seu irmão e um filho pequeno. Eles, que encontram dificuldade em se relacionar com os outros refugiados, também acabam de passar por uma experiência traumática. satélite tenta a aproximação, mas quase não há diálogo entre eles. Agrin entra em conflito também com o irmão, que pede que esperem mais um tempo antes de procurarem novo abrigo. Duração: 95 minutos.

Crítica: Tartarugas Podem Voar (Bahman Gobadi, 2004)

por Angélica Bito
Extraído de http://cinema.cineclick.uol.com.br/criticas/ficha/filme/tartarugas-podem-voar/id/1070

Fico imaginando como George W. Bush se sentiria ao ver um filme como Tartarugas Podem Voar. Isso se ele não se incomodasse com as legendas. O filme curdo, dirigido pelo iraniano Bahman Ghobadi, acontece na fronteira entre Irã e Iraque, semanas antes da invasão do Iraque pelas tropas norte-americanas. Mais do que retratar essa invasão, o longa-metragem joga os holofotes não no que vimos nos noticiários - como a possível presença de armas de destruição em massa no país do eterno vilão Saddam Hussein -, mas sim no que poucos ocidentais viram (especialmente sr. Bush, imagino): o drama presente no dia-a-dia dos civis, do povo curdo que esteve diretamente envolvido nessa invasão. Sem dramas baratos, o filme emociona de forma honesta, como poucos.

Num acampamento de refugiados curdos, as pessoas se reúnem para ouvir as notícias da guerra. A figura central desse grupo é o carismático Satélite (Soran Ebrahim), um garoto que exerce a liderança entre crianças, jovens e adultos. É ele quem instala antenas nos povoados para que possam saber as notícias da guerra iminente. Além disso, lidera um grupo de crianças que vivem de "caçar" minas terrestres, instaladas por norte-americanos, e vendê-las. Dessa forma, o filme registra o caos em que essas pessoas vivem, o isolamento e a completa falta de informações. Nesse povoado também vive Agrin (Avaz Latif), uma garota cujo irmão, Hyenkov (Hirsh Feyssal), perdeu os braços, assim como grande parte das crianças da região, acidentadas nas minas espalhadas. Sempre com uma criança nas costas, que parece ser mais um irmão, Agrin perambula pela vila, atraindo a atenção de Satélite, que tenta, sem sucesso, a aproximação.

Há muitas crianças no povoado mostrado no filme. E elas parecem ter mais destaque do que os próprios adultos, a começar por Satélite, que parece ser o líder supremo na aldeia. A todo momento, Tartarugas Podem Voar mostra crianças vivendo situações adultas. Afinal, que tipo de infância é essa na qual uma menina é estuprada por soldados e tem filhos antes de chegar aos 15 anos? A inocência é roubada a todo momento pela guerra e a miséria em um lugar onde não há tempo para bonecas. Na TV, saem os videoclipes e entram os noticiários nos controles remotos controlados por mãos infantis.

Seria muito mais fácil se Tartarugas Podem Voar tomasse alguma posição política em relação ao conflito Iraque versus EUA, mas não é isso que o filme faz. Misturando dramas diretamente relacionados à guerra e algumas situações cômicas, o filme de Ghobadi simplesmente mostra um breve e delicado retrato do que realmente acontece por lá. Algo que não vemos nos noticiários. A tragédia rodeia todos os personagens e, paradoxalmente, há muita vida em cada um deles. Apesar de situar-se em um período e local específicos, Tartarugas Podem Voar também pode ser visto como o retrato de um microcosmo da guerra. Qualquer uma delas.

Programação Outubro 2011: Filmes com crianças como protagonistas

O Cinema visto pelos olhos das crianças.

O Cine Clube Ybitu Katu exibe:

01/10: Tartarugas podem voar (Bahman Gobadi, 2004)
Na fronteira entre Irã e Iraque, semanas antes da invasão do Iraque pelas tropas norte-americanas, num acampamento de refugiados curdos, as pessoas se reúnem para ouvir as notícias da guerra. a figura central desse grupo é Satélite, um garoto que exerce a liderança entre crianças, jovens e adultos. o filme registra o caos em que essas pessoas vivem, o isolamento e a completa falta de informações relativas à guerra. Agrin, uma garota de 14 anos, chega à região com seu irmão e um filho pequeno. Eles, que encontram dificuldade em se relacionar com os outros refugiados, também acabam de passar por uma experiência traumática. satélite tenta a aproximação, mas quase não há diálogo entre eles. Agrin entra em conflito também com o irmão, que pede que esperem mais um tempo antes de procurarem novo abrigo. Duração: 95 minutos.

08/10: Ponette (Jacques Doillon, 1996)
Ponette, uma menina de 4 anos, é confrontada com a morte da mãe, mas não consegue aceitá-la e acredita que ela irá voltar para junto de si. Durante as suas tentativas para falar com a falecida, Ponette questiona adultos e outras crianças, recebendo conselhos sobre religião, filosofia, magia negra e como falar com Deus. Duração: 93 minutos

15/10: Kolya - Uma Lição de Amor (Jan Sverák,1996)
O ano é 1989, ano de grandes mudanças para a Tchecoslováquia. É neste ano também que acontecem profundas mudanças na vida do músico Franta Louka (Zdenek Sverak). Louka é um músico brilhante de 60 anos que é expulso por problemas políticos da filarmônica de Praga. Agora, só toca em funerais e vive uma vida pacata e solitária. Para saldar suas dúvidas, Louka acerta um casamento de aparências com uma russa que precisa da nacionalidade Tcheca para fugir de Moscou. Mas junto com o arranjo, vem Kolya, filho da russa. Após o casamento, ela foge para a Alemanha e deixa o filho de 5 anos com ele. Estranhos e separados pela barreira da língua, os dois tentam encontrar um modo de conviver. Aos poucos, encontram maneiras de se comunicar e se adaptar um ao outro; aprendem novas palavras, se aproximam, trocam sensações. Louka sofre uma metamorfose com a doçura daquela criança sozinha no mundo e obrigada, de uma hora para outra, a viver com um completo desconhecido. Duração: 103 minutos.

22/10: O Tambor (Volker Schlöndorff, 1979)
Quinze anos antes da Segunda Guerra Mundial, nasce em Danzig o menino Oskar Matzerath. Quando completa três anos, afasta-se definitivamente de seu mundo pequeno-burguês, recusando-se a crescer. Assim, assume o papel de "Oskarzinho" para poder escapar à beatice reinante no meio em que vive, representada principalmente pelos pais e o amante da mãe. Oskar se distancia cada vez mais do seu monstruoso cotidiano - uma sociedade que pouco a pouco vai mergulhando no fachismo - e expressa seu protesto com enervantes rufares de tambor e gritos lancinantes. Só quando o "horror marron" chega ao fim, e os alemães abandonam Danzig para se estabelecer no lado ocidental, é que Oskar decide crescer: agora deseja desempenhar um papel atuante no futuro que desponta. Adaptado do livro homônimo do alemão Günter Grass. Duração: 144 minutos.

29/10: A Infância de Ivan (Andrey Tarkovski, 1962)*
Aplaudido pelo cineasta Ingmar Bergman e pelo escritor Jean-Paul Sartre, A Infância de Ivan marca a estreia na longa-metragem do grande realizador russo Andrei Tarkovski. Poderoso, evocativo e poético trabalho sobre a guerra, o filme, que recebeu o Leão de Ouro na edição de 1962 do prestigiado festival de Veneza, concentra a sua atenção sobre o jovem Ivan, doze anos, cujos pais e irmã são mortos por oficiais nazis quando a Rússia é invadida pelas tropas alemãs. Órfão, privado de uma infância normal, acaba por se juntar ao exército, tornando-se numa espécie de espião. Duração: 95 minutos.
*Após a sessão, haverá um debate mediado pelo psicológo Augusto Calille.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

24/04: O Viajante (Abbas Kiarostami, 1974)

O Viajante - Abbas Kiarostami (1974)

Sinopse
Longa de estréia de Kiarostami, o Viajante, conta uma brilhante parábola sobre um garoto em idade escolar, negligenciado pelos pais, que utiliza de quaisquer meios para viajar até Teerã e poder assistir ao jogo da seleção nacional de futebol. Duração: 70 minutos

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

03/09: Linha de Passe (Walter Salles e Daniela Thomas, 2008)

Linha de Passe - Walter Salles e Daniela Thomas (2008)

Sinopse
O filme conta a história de quatro irmãos que vivem na periferia de São Paulo. Com a ausência do pai, precisam lutar por seus sonhos. Reginaldo, o mais novo, procura obstinadamente seu pai que nunca conheceu. Dario, prestes a completar 18 anos, sonha com uma carreira como jogador de futebol profissional. Dinho, frentista em um posto de gasolina, busca na religião o refúgio para um passado obscuro. Dênis, o irmão mais velho, já é pai de um filho e ganha a vida como motoboy. No centro desta família está Cleuza, que, aos 42 anos, está grávida do quinto filho. Sandra Corveloni venceu o prêmio de Melhor Atriz no festival de Cannes por sua atuação neste filme. Duração: 113 minutos.

Crítica: Linha de Passe (Walter Salles & Danielas Thomas, 2008)

A tênue linha da invisibilidade social.

Quantas são as chances de irmos ao cinema e espiar o dia-a-dia de vidas comuns, ao mesmo tempo em que vemos um painel amplo do país-Brasil ser montado com tanta lucidez? Aos menos atentos, Linha de Passe pode parecer apenas uma crônica da vida de uma família de 4 irmãos criados pela mãe, que no momento da ação espera a chegada do quinto filho, não sem sofrer a censura dos meninos que obviamente se preocupam com a chegada de mais um que precisará correr atrás de seus sonhos sem nenhuma garantia de que avistará a linha de chegada.

Empenhados por uma vontade iniciada com a parceria de Terra Estrangeira, Walter Salles e Daniela Thomas ciclicamente repensam o Brasil nas suas questões históricas e também nas urgências mais atuais. A consolidação de novos modelos de família e a luta pela sobrevivência diária na metrópole excludente são as mesmas situações que vemos camufladas em novelas das oito onde a mesa do café da manhã dos personagens menos afortunados representa uma fantasia de realidade que ridiculariza mais do que diverte. É bem diferente de vermos Cleuza (Sandra Coverloni) servindo o prato do filho enquanto os dois discutem, a carne chegando ao prato com a mão de raiva da mulher que mata vários leões por dia. Interessante que Sandra tenha ganhado o prêmio de melhor atriz em Cannes já que o verdadeiro personagem da história tem mais quatro pontas além dela, a mãe e seus quatro filhos formando uma unidade familiar contemporânea, ela sim o personagem completo e complexo que vemos ser desenhado nos conflitos individuais de cada um, na luta individual de cada um por pertencimento e aceitação, inserção social, a busca pelas raízes paternas, tudo finalmente entendido como a necessidade de vinculação, essa palavra perdida em cujo sumiço se esconde a depredação das relações humanas.

Desvinculados por vários fatores, seja de ordem social, geográfica ou monetária, Denis (João Baldasserini), Dario (Vinícius de Oliveira), Dinho (José Geraldo Rodrigues) e Reginaldo (Kaique de Jesus Santos, uma revelação e tanto) transitam pela cidade em busca de seus lugares. Nas viagens de Denis em sua moto a câmera e a montagem surpreendem com perspectivas quase verossímeis, e é dele também a cena que mais impressionou, quando ele tira o capacete e pergunta ao interlocutor rico e perdido: Cara, você tá me vendo? A explicitação do drama de ser invisível costurando todas as pontas do filme. Reginaldo, o filho mais novo, se envolve nesse drama ao escolher enxergar o pai em um motorista de ônibus para fugir da visível diferença que o separa dos irmãos pela cor da pele. Dinho prefere a via da resignação religiosa, via essa que não consegue lhe amparar na hora mais difícil de seu personagem. Dario, o orgulho da mãe corintiana não desmerece o nome de craque, mas tem o talento ignorado por uma verdadeira indústria de atletas na qual ele não consegue se encaixar apesar de tudo. Uma boa cena de Dario é a da falsificação da identidade, quando ao câmera foca a carteira sendo copiada e deixa em destaque a imagem do ator Vinícius, que na foto do documento é exatamente aquele garoto que conhecemos em Central do Brasil. Uma óbvia e sutil referência.

Congregando os quatro personagens, Cleuza trabalha contra o ritmo em que flui a sua vida com a mesma dificuldade com que lida com uma pia entupida, na árdua tarefa de manter visível a linha que liga cada um dos filhos ao pertencimento de grupo, de família. A simplicidade de sua interpretação sem afetações constrói a verdade fantasiosa de uma mulher real, que mesmo grávida transita por todos os espaços, o trabalho, o bar e o estádio de futebol lotado. E essa mesma gravidez, demonstração de uma vida sexual ativa, é o signo da feminilidade escondida sob a aparência descuidada de quem não tem tempo para vaidades e completa o universo de significações da personagem como mulher-total. E sob essa constatação é que Sandra Coverloni merece destaque pela construção de um personagem redondo que impressiona por quase não parecer um personagem ou parte de algo ficcional.

Os desfechos de cada um dos cinco parecem ressaltar isso, com finais de uma poética da realidade para todos, menos para Cleuza e Denis que são os dois personagens que caracterizam a maturidade em detrimento da juventude presente em Dario, Dinho e Reginaldo. Como se a concretude da vida tivesse tirado de Cleuza e Denis a capacidade de perseguir sonhos, por mais concretos que eles sejam.

Assim a parceira Walter Salles e Daniela Thomas deixa mais uma boa marca no cinema nacional, sem apelar para as velhas armadilhas do pitoresco, criando uma história cuja mensagem é universalmente inteligível. E mais uma vez, salvas a Sandra Coverloni e Kaique de Jesus Santos que formaram a dupla mais entrosada nessa bela linha de passes.