sexta-feira, 18 de novembro de 2011

19/11: Curta-metragem: Blábláblá (Andrea Tonacci, 1968) e Longa Metragem: Bang Bang (Andrea Tonacci,1971) - COM A PRESENÇA DE ANDREA TONACCI

Blábláblá - Andrea Tonacci (1968)

Sinopse
O sentido do poder e da palavra em crise situam o homem que os manipula numa idêntica crise pessoal, humana. A farsa do discurso de intenção humanista é total e absoluta. Um ditador num momento de uma grave crise nacional, institucional, confrontado na cidade e no campo por revoltas e guerrilha, na busca de uma paz ilusória, faz um longo pronunciamento pela televisão. Mas a realidade impõe-se à sua ficção e o controle da situação escapa-lhe das mãos. Sobra-lhe uma patética confissão antes de ser tirado do ar. Duração: 28 minutos.

Bang Bang - Andrea Tonacci (1971)

Sinopse

Homem neurastênico que, durante a realização de um filme, se vê envolvido em várias situações como o romance com uma bailarina espanhola, perseguições, discussões com um motorista de táxi e o enfrentamento com um bizarro trio de bandidos. Um dos filmes mais revolucionários da história do cinema brasileiro. Duração: 86 minutos.

NÃO PERCAM: A SESSÃO CONTARÁ COM A PRESENÇA DO DIRETOR ANDREA TONACCI. APÓS A SESSÃO, ANDREA TONACCI PARTICIPARÁ DE UM DEBATE SOBRE OS SEUS FILMES E A PRODUÇÃO CINEMATOGRÁFICA BRASILEIRA.

Biografia: Andrea Tonacci

Sem dúvida um dos maiores nomes do cinema nacional, Andrea Tonacci nasceu em Roma em 1944 e veio para ao Brasil com a família aos nove anos de idade, indo morar em São Paulo, onde reside até hoje. Foi pioneiro no país no uso de equipamento de vídeo portátil e um dos principais integrantes do chamado Cinema Marginal, ao lado de Rogério Sganzerla, Julio Bressane e Carlos Reichenbach. Seu primeiro filme foi o curta Olho por Olho (1965). Depois, vieram Blablablá (1968), com Paulo Gracindo, e o clássico Bang Bang (1970), considerado obra-prima do Cinema Marginal e um dos maiores filmes da história do cinema nacional. Entre 1977 e 1984, foi bolsista da John Simon Guggenheim Memorial Foundation, dedicando-se à pesquisa da linguagem audiovisual. Nesse mesmo período, realizou ampla documentação das culturas indígenas das Américas, com filmes como Conversas do Maranhão (1977), Guaranis do Espírito Santo (1979) e Os araras (1980/81). Nos anos 2000, volta a produzir um longa-metragem, o aclamadíssimo Serras da Desordem (2006), premiado em diversos festivais nacionais e internacionais e considerado por muitos, um dos melhores filmes brasileiros do século XXI. Atualmente, ele produz, escreve, dirige e fotografa documentários, ficcção e filmes institucionais. Ele ainda possui e dirige a Extrema, uma produtora dedicada a filmes independentes.

Crítica: Bang Bang (Andrea Tonacci, 1971)

por Carlos Fernandes
Extraído de http://setimofilme.wordpress.com/

UM CINEMA ANTIFILME

Um cinema que se afasta do filme. Que o nega. Por vezes, o ridiculariza. E continua sendo cinema. Em estado puro. Seria possível? Basta assistir Bang Bang e você poderá verificar como. Para vocês terem uma idéia, é muito difícil elaborar uma boa sinopse do filme. A melhor sinopse possível do filme é feita por um de seus próprios personagens: “Era uma vez três bandidos muito maus. Dizia-se que um deles era a mãe dos outros, mas nada se sabia ao certo. Roubavam tudo, matavam tudo, comiam tudo. Mas isso também não se sabia ao certo”.

E, mesmo assim, está muito, mas muito aquém do que realmente é este filme. Ou seria um antifilme?

Um cara discute com um taxista, o mesmo cara aparece com uma cabeça de macaco e canta para o espelho, bandidos dão tiros para todo o lado e comem o tempo todo, o mesmo cara que discutira com o taxista trava dois diálogos totalmente non-sense com um bêbado e, posteriormente com uma mulher. Ao fundo da discussão com a mulher, os assaltantes fazem caretas. O macaco aparece em um tiroteio. O cara discute com o taxista novamente. Tudo isso acontece, sem lógica nenhuma, sem ligação nenhuma, tudo solto, deixando-te atordoado. Há um enorme esforço anti-narrativo. O diretor Andrea Tonacci explode a narrativa e tenta recolher os cacos dela. Depois de recolhidos, explode novamente. E faz isso ciclicamente, ao longo de todo o filme. Ao final, o bandido “mãe”" tentar nortear a narrativa e fala aquele texto que transcrevi no primeiro parágrafo. Você fica esperando por mais e eis que então surge uma torta que atinge sua cara, no melhor estilo O Gordo e o Magro. E a narrativa explode novamente. E você continua atordoado, sem entender nada.

Ou melhor, entendendo nada, mas ao mesmo tempo, entendendo tudo. Sim, entendendo tudo. E, de repente, você deixa de estar atordoado pela aparente falta de lógica dos planos, mas atordoado por conta da espetacular beleza cinematográfica do filme.

Bang Bang faz parte de um movimento cinematográfico brasileiro que foi chamado de Cinema Marginal surgido no final da década de 60 e que tem como marcos iniciais A Margem (Ozualdo Candeias, 1967), Matou a Família e foi ao Cinema (Julio Bressane, 1968) e o ES-PE-TA-CU-LAR O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla, 1968). O Cinema Marginal surge como um contraponto ao Cinema Novo, acusando-o de ter se aburguesado, de ter se tornado mercadoria, de ter se tornado um cinema de estética européia, longe do contato com a realidade brasileira. O Cinema Marginal propunha uma radicalização, que os filmes deveriam ser sujos, “mal feitos”, narrativamente desestruturados. Propunham uma “estética do lixo”, um estilo que seria mais apropriado para um país pobre e dominado como o Brasil. Realizar um cinema totalmente subdesenvolvido. Julio Bressane, diretor marginal, diria em uma entrevista: “Do jeito que está, só temos uma maneira de filmar: com lixo”.

O Cinema Marginal preocupou-se em descrever a identidade subdesenvolvida brasileira, exibindo as nossas maiores vergonhas: a alienação, o comodismo e a falta de educação. Pelas telas desfilavam personagens renegados à margem, da boca do lixo, como trabalhadores braçais, bandidos (que viram heróis, como O Bandido da Luz Vermelha), traficantes e prostitutas. Devido a esse subdesenvolvimento do povo e dos tempos de censura e repressão por conta da ditadura militar, os cineastas marginais eram pessimistas em relação à transformações políticas e socias e recheavam seus filmes com ironia, deboche e sarcasmo, as únicas armas que viam como instrumentos para denúncia social do país. No filme, O Bandido da Luz Vermelha, o próprio bandido fala uma frase que resume bem essa proposta: “Quando a gente não pode fazer nada a gente avacalha… avacalha e se esculhamba.” Entretanto, essa esculhambação não trazia satisfação; carregava-se os filmes de agressividade como forma de auto-flagelação.

Bang Bang talvez seja o mais debochado e ousado filme do movimento. Além de exibir as características dos filmes marginais, ele vai além na questão da desestruturação narrativa e rompe totalmente com ela, propondo um completo descomprometimento com a linha narrativa. É a torta na cara quando o bandido vai explicar a história. Além disso, Tonacci deixa a câmera visível e rompe com a barreira público/filme; nos colocando em direto contato com os personagens. Os bandidos riem para a câmera porque estão rindo de nós, sujos, pobres, subdesenvolvidos. Somos ignorantes como eles. Os diálogos são grosseiros porque somos grosseiros. É um macaco que canta “Eu sonhei que estavas tão linda” e nós assistimos. Por fim, Tonacci ainda satiriza os filmes policiais americanos, desconstruindo os tiroteios, perseguições de carro e a figura do bem contra o mal. Naquele momento, no Brasil, os carros não perseguiam os bandidos e era muito difícil de diferenciar esses dos mocinhos.

Assistir Bang Bang nos coloca para refletir sobre a covardia do cinema nacional dos últimos anos. Salvo uma ou outra exceção, sinto que atualmente falta coragem para se romper barreiras e buscar um novo cinema, sem fórmulas, sem convencionalismos. Precisa-se buscar uma visão ousada e inovadora. Buscar uma nova maneira de fazer cinema. Uma nova maneira de se expressar artisticamente. Que Bang Bang sirva de inspiração.

Crítica 2: Bang Bang (Andrea Tonacci, 1971)


Se fosse lançado hoje, Bang Bang dificilmente se adaptaria às demandas dos multiplexes. E não porque brasileiro não gosta de cinema brasileiro — qual brasileiro, qual cinema? Mas porque seu significado não pode ser instantaneamente consumível. Sem circulação desvairada de imagens e sem as facilidades de artifícios e clichês do cinemão, não dá pra ver de relance. Este não é “fast-food”.

Primeiro longa de Andrea Tonacci, reúne todos os elementos para ser tachado de pretensioso. Desestrutura a ordem narrativa, não tem enredo coerente, desconstrói continuamente seus pressupostos cinematográficos. Signo de uma arte profundamente consciente de si mesma, como no primeiro Godard, Bang Bang interroga as premissas implícitas com que o abordamos, e brinca com os nossos hábitos de percepção. Daí os personagens portarem-se explicitamente como atores e a câmera comparecer na ação. São vários episódios autônomos, sempre com ação absurda e diálogos insólitos. Há planos elaborados de interiores, e longos travellings em ruas e estradas. Os personagens entre o grotesco e o icônico incluem o cantor boçal (Paulo César Pereo), o mágico, a musa lânguida saída do cinema mudo, três metralhas absolutamente indefectíveis: um cego armado de revólver, um galã cafajeste, um travesti comilão. O áudio imprevisível freqüentemente contrapõe-se à imagem.

Então, é disso que se trata o filme? dotar-nos de consciência crítica diante do material fílmico e desacreditar as operações de ilusão? Seria essa a razão da presença do mágico, abduzido de Meliés? uma violência exasperada contra o código? Se assim fosse, seria justo o adjetivo “pretensioso”. Está-se em 1971 e pouca a pertinência para repetir a década anterior, na sua obsessão nuvelevaguesca em afirmar um cinema moderno e autônomo. Com menos razão ainda, se se tratasse de mero exercício de estilo por Tonacci, em academismo ou autorismo bobos. Toda poética autofagocitante padece de sério defeito, que é pressupor a imersão do espectador na história dessa arte, e assim tê-lo por adestrado em seus métodos e técnicas. Há quem considere o autoquestionamento permanente o motor e a essência da arte moderna, do impressionismo à Pop Art. Tradição moderna, traição moderna. No entanto, se, por um lado, não se deve subestimar o público; por outro, não há razão de considerá-lo um cinéfilo selvagem que viu todos os filmes do universo e perscruta a compreensão total da arte. Além disso, um cinema que celebra a si mesmo já é caduco de nascença. E um filme para cineastas, um luxo decadente. Não.

A força de Bang Bang reside mais no jogo livre de dissolução de significados do que na autoconsciência crítica. Mais numa erótica fílmica que escancara a obra e se excita por entre seus signos, do que na ruptura de convenções e códigos. Assim, essencialmente anárquico, o longa tem afinidades com o extremo rigor formal de O Bandido da Luz Vermelha (Sganzerla, 68), na segurança da direção e na recombinação de gêneros. Ao mesmo tempo em que se filia ao estado delirante de Ritual de Sádicos (Mojica, 69), na demência dos personagens e suas frases desconexas. Podem-se tirar inúmeras interpretações do mosaico polissêmico de Bang Bang. Veja-se a palestra de Ismail Xavier, que vai junto do DVD. Multiplica sentidos das cenas mais desconcertantes e demostra como a irresignação de Bang Bang responde à logica do cinema meramente reprodutor, impotente para fecundar seu tempo. Antes por admiração que preguiça, faço remissão às notas do crítico. Ali, ao invés de decifrar charadas ocultas, o que seria simbolismo decrépito, ele arrisca linhas interpretativas e constrói vis-a-vis com o autor a potência do filme.

Uma obra aberta e desafiadora.

sábado, 12 de novembro de 2011

12/11: Noite Vazia (Walter Hugo Khouri, 1964)

Noite Vazia - Walter Hugo Khouri (1964)

Sinopse
Dois amigos contratam os serviços de uma dupla de prostitutas. O que seria uma noite de prazer acaba se transformando em um embate entre os quatro, revelando pouco a pouco, suas angústias e ressenti-mentos e aflorando seus sentimentos mais íntimos e profundos. Indicado à Palma de Ouro em Cannes, 1965. Duração: 91 minutos.

Crítica: Noite Vazia (Walter Hugo Khouri, 1964)

por Tiago Canário
Extraído de http://www.ufscar.br/rua/site/?p=16

Os dramas perpétuos
Um passeio pela noite khouriana

“Não existe mais vida noturna, meu filho. Estou louca para que comece de uma vez a abençoada temporada na praia”, lança Doralina Soares, personagem coadjuvante em seu curto momento de aparição no longa-metragem Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri. O filme, em seus 98 minutos de duração, prova o contrário. Mais do que mera vida social, festa e diversão, a vida noturna que pulsa na obra é a vida psicológica, os meandros das mentes dos quatro personagens que se encontram no apartamento imerso na noite escura de Khouri.

A partir da seqüência de apresentação dos créditos, já tomamos consciência do peso do filme que está por vir. Envolvidos pela música soturna, densa e contida de Rogério Duprat, somos apresentados a uma série de manequins carcomidos. São rostos e bustos semidestruídos, expostos parcialmente, acobertados que estão pelas sombras, presentes física ou psicologicamente por todo o filme. Mas basta atentar um pouco à cena para perceber que nós não somos os únicos observadores – as faces desfiguradas nos espreitam. Juntam-se, aqui, as mãos praticamente roídas que se estendem na escuridão, que se sobrepõem em imagens – mas nunca se tocam. Altamente representativo na obra, o gesto adianta a distância e o deslocamento dos personagens entre si e da realidade.

E se a densidade anterior nos causa certo estranhamento, posta assim como está, a seqüência seguinte, na qual nos é apresentada a cidade, é igualmente marcante. Filme intimista, Noite Vazia não se prende à cidade-locação, que, aqui, poderia ser genericamente qualquer uma; o importante neste centro urbano nos é evidenciado no modo como Khouri o constrói: uma São Paulo dos anos 60, com aproximadamente cinco milhões de habitantes, em um recorte urbano. São cenas do trânsito e de prédios que acompanham a escuridão dos créditos iniciais. Também rodeada pelo peso da música de Duprat, a cidade, em alguns momentos, apresenta-se como um ideal metropolitano, formada por prédios altos, letreiros luminosos e um trânsito intermitente; em outros, torna-se mais clara a sua releitura como um centro disforme, turvo, perdido em meio às sombras da noite khouriana – seca.

Cabe aqui uma pequena inferência. Apesar das escuras e difusas ruas da metrópole, as casas, os interiores, são predominantemente claros. Os ambientes internos são inversamente mais limpos e iluminados – em determinados momentos, inclusive, uma iluminação excessiva. Nestes, ao tentar reconstruir uma luz natural, consegue-se mais um deslize técnico, um defeito. Sobretudo em relação às luzes vindas da rua, que atravessam a janela e se projetam sobre as paredes do apartamento; a intensidade é tamanha que se torna inacreditável sua origem, pois a força das cenas externas, sobretudo as iniciais, crava em nossas mentes a escuridão na qual submerge a cidade. E, ainda assim, evidenciando a sombra noturna e buscando a luz mais próxima possível da natural, no momento em que amanhece, a iluminação da locação, estranhamente, sofre uma alteração quase imperceptível. O ambiente se torna um pouco mais claro (muito menos do que seria crível em um apartamento normal), sendo a certeza da mudança noite-dia dada somente com os takes da cidade vista através da janela.

O ritmo do filme, por sua vez, é um ponto interessante. Ainda que inquestionavelmente bem construído, constante e fluente, é destoante. Ou melhor, mal escolhido. A obra procura trabalhar a angústia frente à realidade e aos dramas psicológicos; tudo sem qualquer perspectiva de solução. Trata-se, o filme, de um grande ciclo, uma angústia físico-mental de quatro personagens que permanecem em suas rotinas, testando uma saída que, desde já, reconhecem falha. É o retrato de uma noite que foi igual à anterior e será igual à próxima: todos estão conscientes de suas agonias, mas repetem seus gestos como que para preencher um tempo/vazio impreenchível, como uma grande encenação em busca de uma solução que já não esperam. Admitido isto, o ritmo esperado seria arrastado, contido, sofrido como os protagonistas. O que percebemos, não obstante, é algo mais aliviado, leve em alguns momentos, com takes não muito longos – o oposto do peso requerido pela obra. O ritmo funciona bem, mas para outro filme.

Talvez a opção pelo ritmo mais brando seja a aproximação de um filme mais “palatável”. Contemporâneo às produções do Cinema Novo brasileiro que ainda se distanciavam visivelmente do consumo cinematográfico geral, Khouri, é possível, mesclou em sua obra aspectos que a tornassem mais acessível ao grande público. Ou ao que aguça o imaginário de parte deste: consideramos, aqui, a cena de lesbianismo entre Regina (Odete Lara) e Mara (Norma Bengell). É um dos poucos momentos em que o sexo é tão trabalhado e evidenciado – embora não possamos negar a qualidade com a qual o diretor conduz a seqüência e constrói o desconforto de Mara e o exibicionismo de Regina. A montagem da obra é sutil e precisa; transmite o necessário. Sendo assim, Khouri, utilizando certos pontos com ou sem a intenção de aproximar-se do público, apresenta-os sempre coesos e bem desenvolvidos. Ele consegue que até mesmo seus aspectos/cenas desafinados sejam agradáveis.

Aproveitemos também para analisar uma pista deixada pelo diretor em seu filme. No final da madrugada, perdido em si, Luís (Mário Benvenutti) se senta para folhear algumas revistas deixadas sobre a mesa da sala. Em uma destas, o anúncio da viagem do homem à Lua; é perceptível o recorte da câmera para possibilitar a leitura da frase: “As pesquisas espaciais são, na realidade, vitais à sobrevivência da espécie humana”. Percebemos aqui a ironia de Khouri. Inserido em um momento histórico que ainda vivia as corridas armamentistas e espaciais da Guerra Fria, o diretor pouco se interessa por discuti-las; apresenta-as como de pirraça – mostra-as justamente para lembrar-nos de que não falará sobre elas. Khouri não abraça o mundo para modificá-lo ou contestar a situação em que se encontra; recorta decididamente os dramas intimistas de uma burguesia metropolitana, retratando-a sem qualquer perspectiva de melhora. É cinema sem esperanças. Ainda assim, não podemos ignorar que o destaque dado à frase também possa ser entendido como uma crítica feita a uma sociedade que ignora a degradação psicológica de seus indivíduos, mas clama inflamada pela inovação tecnológica.

Produzido em um esquema de cinema independente, Noite Vazia teve sua produção distante das grandes produtoras, restringindo-se quanto ao uso de meios técnicos, o que se evidencia no uso da já tratada iluminação ou da captação do áudio, de difícil compreensão em alguns instantes. Sofreu, ainda, como qualquer obra afastada das grandes corporações, problemas em sua distribuição e exibição, o que dificulta o acesso às suas cópias e o mantém como mais um dos grandes filmes brasileiros não vistos por sua população, conhecidos apenas por um pequeno grupo cinéfilo. Tal mecanismo de produção independente, porém, possui suas qualidades, visto que não se prende às regras comerciais. A obra de Khouri, portanto, encontrou-se livre para se construir a partir de um esquema de autor, esteticamente livre. Filme singular, afasta-se até mesmo do já esperado (e cultuado) modelo de cinema independente do período, o Cinema Novo. Foge, a mais, do esperado diálogo com os problemas nacionais; revela-se um filme possível em qualquer outro país. Neste estado, distante dos dois pólos de produção famosos no período, Noite Vazia alcança a liberdade em sua linguagem de proposta intimista e sem elaborações de acusações ou respostas em seu discurso.

Mas ainda que juntássemos todos os seus problemas, seu corpo não seria abalado; permaneceria como uma das memoráveis obras do cinema brasileiro. E, na verdade, não se precisaria dizer muito do filme; caberia, enquanto resumo da obra, uma simples frase pronunciada pelo personagem Nelson (Gabriele Tinti): “o que é diferente sempre tem dono”.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

04/11: O Saci (Rodolfo Nanni, 1951)

O Saci - Rodolfo Nanni (1951)

Sinopse
O filme narra as aventuras de Pedrinho, Emília e Narizinho, os inesquecíveis personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, às voltas com criaturas fantásticas do folclore brasileiro, como o Saci-Pererê e a Cuca, que aparecem para perturbar a tranquilidade de sua vida no campo. Para resolver os mistérios que assombram o Sítio, os três inseparáveis amigos se embrenham na floresta à procura do travesso moleque de uma perna só. Com este filme, Rodolfo Nanni ficou com o mérito de ter feito a primeira produção infantil importante do cinema brasileiro. Além disso, esta é a primeira e única adaptação para o cinema da obra de Monteiro Lobato, que, por sua vez, se inspirou na lenda do Saci-Pererê. O diretor teve uma excelente equipe para essa empreitada: fotografia de Ruy Santos, música de Cláudio Santoro e, o jovem Nelson Pereira dos Santos, como assistente de direção. Duração: 64 minutos.

Programação Novembro de 2011: ESPECIAL DE ANIVERSÁRIO: Grande Realizadores do Cinema Nacional

É com muito prazer que anunciamos a nossa programação especial do mês de novembro. É especial porque comemoramos o nosso aniversário de 3 anos de atividades initerruptas. Para isso, temos dois convidados mais do que especiais:
DIA 19 DE NOVEMBRO: ANDREA TONACCI (foto acima) para a exibição de seus filmes Blábláblá (1968) e Bang-Bang (1972) e discussão sobre seus filmes e a produção cinematográfica brasileira.
DIA 26 de NOVEMBRO: REINALDO VOLPATO (foto abaixo, ao lado de Leopoldo Nunes) para a exibição de seus filmes Canabraba - A Necessidade da Expressão (1987) e O Profeta das Águas (2005) (Direção: Leopoldo Nunes; Montagem e Produção: Reinaldo Volpato.



Confira abaixo a programação completa:
05/11: O Saci (Rodolfo Naninni, 1951)
12/11: Noite Vazia (Walter Hugo Khouri, 1964)
19/11: COM A PRESENÇA DO DIRETOR ANDREA TONACCI
Curta-metragem: BláBláBlá (1968)
Longa-metragem: Bang Bang (1968)
26/11: COM A PRESENÇA DO DIRETOR E MONTADOR REINALDO VOLPATO
Curta-metragem: Canabraba: A Necessidade da Expressão (1987)
Longa-metragem: O Profeta das Águas (2005) (Direção: Leopoldo Nunes; Montagem e Produção: Reinaldo Volpato)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

29/10: A Infância de Ivan (Andrei Tarkovski, 1962)

A Infância de Ivan - Andrei Tarkovski (1962)

Sinopse
Durante a Segunda Guerra Mundial, Ivan é um garoto russo de 12 anos de idade que trabalha como espião. Por ser ainda uma criança, ele pode tranquilamente cruzar as linhas alemãs sem ser percebido e assim conseguir informações privilegiadas para o exército soviético. Por sua coragem, três oficiais russos fazem de tudo para preservar a vida do garoto. Trabalho que marca a estréia em longa-metragem do jovem Andrei Tarkovski. Bem recebido pelo público e crítica, o filme foi o grande vencedor do Leão de Ouro em Veneza, desbancando filmes dos consagrados Godard, Kubrick e Pasolini. Duração: 95 minutos

Após a sessão, haverá um debate sobre o filme com o psicológo Augusto Sérgio Calille.

Crítica: A Infância de Ivan (Andrei Tarkovski, 1962)

por Gilberto Sila Jr.
Extraído de http://www.contracampo.com.br/61/infanciadeivan.htm

Na virada entre as décadas de 1950 e 60, diversas cinematografias começaram a ganhar prêmios em festivais e espaço no mercado internacional. Limitado pelas políticas culturais estalinistas, o cinema russo chama a atenção com dramas passados na segunda guerra, vistos então como líricos ou poéticos - Balada do Soldado e Quando Voam as Cegonhas os mais conhecidos – que o tempo mostrou serem demasiado piegas e submissos aos ditames do "realismo socialista". Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1961 e escrito por Vladmir Bogomolov a partir de um conto de sua autoria, A Infância de Ivan poderia ter sido apenas mais um desses dramas, não houvesse o projeto sido entregue a um jovem cineasta que faria então sua estréia em longa-metragem: Andrei Tarkovski. Este havia chamado a atenção com o média O Rolo Compressor e o Violino e assume o comando com o projeto já em andamento. A Infância de Ivan, portanto, não é um trabalho de todo autoral, mas Tarkovski já começa a impor sua marca e estilo pessoais, que ficariam mais evidentes a partir do segundo longa, Andrei Rublev.

As primeiras imagens, com Ivan em meio à floresta e recebido por um sorriso materno, que dão uma falsa idéia de que o filme seria mais um espetáculo de lirismo sentimental, são bruscamente interrompidas por explosões, que acordam o garoto de seu sonho. Refugiado num moinho, Ivan foge dos alemães atravessando um rio. Quando ele chega a um posto do exército russo, vemos que o rosto demasiado sério e embrutecido do garoto de doze anos, um olheiro do exército russo, contrasta com o do Ivan que antes fora visto interagindo em paz com a natureza. Em poucos momentos está definida a linha central do filme, que alterna a dura realidade da guerra com os sonhos de Ivan, evocativos de um passado de pureza, antes de sua família ter sido massacrada pelos nazistas. Essa visão da guerra através dos olhos de uma criança ou jovem que dela participa de forma ativa mostra-se praticamente uma tradição no cinema russo, vindo a render posteriormente outros ótimos filmes como Vá e Veja ou Não se Mova, Morra, Ressuscite.

Aos poucos vamos percebendo que Ivan e a guerra são indissociáveis. Sua figura frágil contrasta com sua postura dura e autoritária, até mesmo para com oficiais superiores, que desejam tirá-lo das linhas de combate e enviá-lo a uma escola militar. Ele foge, como antes houvera fugido do orfanato, insistindo em ser enviado a uma nova missão. Mesmo imerso em desejos de vingança e completamente ciente de seu destino, Ivan consegue construir entre as tropas um substituto para o meio familiar (principalmente com o tenente Galtsev e o capitão Kholin, que o acompanham em missão) e cria, a seu modo, com maturidade e sem inocência, um espaço lúdico no campo de batalha. A pureza fica para os sonhos. Essa maturidade de Ivan, como também dos protagonistas dos outros títulos citados no parágrafo acima, se opõe sobremaneira à visão de personagens de filmes americanos que vivenciam a guerra na infância, caso de Império do Sol de Spielberg, onde o protagonista segue idealizando a guerra em sua cabeça e vendo os aviões como imensos brinquedos.

É, portanto, essa visão banhada em desilusão que distingue A Infância de Ivan de seus demais congêneres no cinema russo da época. Isso somado ao estilo, então nascente, que Tarkovski acaba por impor. Já estão presentes elementos característicos de obras posteriores: uma complexa interação homem-natureza, vista em vários momentos de Andrei Rublev; um mergulho, ainda que incipiente, no processo mental da personagem, que viria a ser radicalizado em Solaris; o retorno onírico aos idílios do passado, presentes com força em O Espelho; ou a visão da margem oposta do rio, ocupada pelos alemães, como um desconhecido a ser explorado, ponto de partida de Stalker. Tarkovski também já demonstra seu gosto e talento para conceber imagens elaboradas com um virtuosismo que jamais se aparenta excessivo perante o conjunto. Como, por exemplo, na genial seqüência em que Kholin flerta com Masha na floresta, coroada por um dos mais belos planos jamais filmados, quando ele rouba um beijo da moça segurando-a sobre uma vala com as pernas entreabertas.

Mesmo deixando sua marca principalmente nas cenas de sonho – e, entre todas, aquela com os cavalos e a carroça de maçãs se mostra a mais impressionante –, Tarkovski parece estar também inteiramente à vontade nas seqüências realistas, já apresentando, neste primeiro longa, completo domínio da narrativa. E o momento da travessia, próximo ao final, quando Kholin e Galtsev deixam Ivan em território nazista e circundam o rio para resgatar dois cadáveres, repleta de tensão e suspense, deixa bem claro que caso Tarkovski viesse a se dedicar posteriormente a fitas de gêneros, como ação ou thriller, seria igualmente bem sucedido. Mas, para sorte do cinema, ele preferiu trilhar seu caminho próprio, forjando a partir de então uma trajetória ímpar que o situaria entre os maiores cineastas da história.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

I Encontro de Cine Clubes de Botucatu

No próximo sábado (29/11), às 16 horas, será realizado no Centro Cultural de Botucatu (ao lado do Cine Nelli, no mesmo prédio que a OAB), o I Encontro de Cine Clubes de Botucatu. Atualmente, oito entidades organizadas exercem atividades cineclubísticas na cidades (lista abaixo) e representantes de todos eles estão presentes no encontro para a discussão de suas atividades. O evento também é aberto para o público em geral.

Cine Clubes funcionando em Botucatu:

Cine Clube Ybitu Katu
Cine Clube Nostalgia
Cine Clube Paratodos
Cine Clube ArtConvívio
Dharma Cine
Cinema no Divã
Cine PSOL
Cine Clube da Liga da Saúde Mental

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

15/10: Kolya - Uma Lição de Amor (Jan Sverák,1996)

Kolya - Uma Lição de Amor - Jan Sverák (1996)

Sinopse
O ano é 1989, ano de grandes mudanças para a Tchecoslováquia. É neste ano também que acontecem profundas mudanças na vida do músico Franta Louka (Zdenek Sverak). Louka é um músico brilhante de 60 anos que é expulso por problemas políticos da filarmônica de Praga. Agora, só toca em funerais e vive uma vida pacata e solitária. Para saldar suas dúvidas, Louka acerta um casamento de aparências com uma russa que precisa da nacionalidade Tcheca para fugir de Moscou. Mas junto com o arranjo, vem Kolya, filho da russa. Após o casamento, ela foge para a Alemanha e deixa o filho de 5 anos com ele. Estranhos e separados pela barreira da língua, os dois tentam encontrar um modo de conviver. Aos poucos, encontram maneiras de se comunicar e se adaptar um ao outro; aprendem novas palavras, se aproximam, trocam sensações. Louka sofre uma metamorfose com a doçura daquela criança sozinha no mundo e obrigada, de uma hora para outra, a viver com um completo desconhecido. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1997. Duração: 103 minutos.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

08/10: Ponette (Jacques Doillon, 1996)

Ponette - Jacques Doillon (1996)

Sinopse
Ponette (Victoire Thivisol), uma menina de 4 anos, é confrontada com a morte da mãe, mas não consegue aceitá-la e acredita que ela irá voltar para junto de si. Durante as suas tentativas para falar com a falecida, Ponette questiona adultos e outras crianças, recebendo conselhos sobre religião, filosofia, magia negra e como falar com Deus. 93 minutos.

Crítica: Ponette (Jacques Doillon, 1996)


Estamos aqui perante uma grande obra de Jacques Doillon. Ponette traz-nos a história de uma menina de 4 anos (Victoire Thivisol) que se vê confrontada com a perda da mãe e sua constante luta para aceitar esse facto que tanta dor lhe traz. Existem muito poucas interpretações ao nível da de Thivisol, arrisco-me até a dizer que nenhuma. Ponette é um filme simples, tanto no campo técnico como no argumento. O que faz deste filme uma obra de grande valor, são as interpretações dos actores principais, dos quais a pequena Victoire Thivisol se destaca. Esta raridade do cinema europeu traz-nos uma história trágica e seu consequente desenvolvimento no pós-morte da mãe de Ponette. Esta criança de 4 anos vai insistentemente negar a morte da mãe e tentar a todo o custo falar com ela ou com Deus. A interpretação da pequena Thivisol é de uma categoria tão soberba, tão maravilhosa, que chega mesmo a ter, por momentos, a capacidade de iludir o espectador e fazer crer que é real. Existem muitos actores adultos profissionais, com enorme sucesso nos mais variados meios do cinema, que não chegam aos “calcanhares” desta interpretação assombrosa da pequena Thivisol.

Doillon traz-nos um universo completamente diferente daquilo a que estamos habituados, o universo das crianças na idade pré-escolar. Ou seja, a linguagem do filme e seus diálogos são praticamente todos de compreensão muito fácil, infantil. Doillon lida neste filme com a percepção que uma criança tem/ganha quando confrontada com uma situação tão difícil como a morte de uma mãe. Não é fácil aceitar a morte de alguém que nos é querido mesmo quando somos adultos, mas Doillon vai mais longe e mostra-nos o sofrimento de uma criança de 4 anos que de um momento para o outro se vê privada da figura mais protectora para uma criança, a mãe. Aceitar este facto requer várias explicações que lhe são dadas pelos adultos, pelas outras crianças da sua idade, inclusive os seus primos que convivem com ela dia a dia. Mas Ponette recusa-se a aceitar o facto de a mãe ter morrido e é aqui que a interpretação desta criança se transcende e traz todo o valor ao filme. É quando Ponette inventa que fala com a mãe de noite, quando a tia lhe diz que a mãe está no céu com Deus, quando a educadora a ensina a rezar, que toda a essência do filme faz sentido. É nestes momentos de uma procura de respostas às perguntas que uma criança de 4 anos, perdida numa condição que não compreende, não quer compreender e que procura incessantemente remediar e revogar toda essa condição a que está sujeita, que esta obra se valoriza.

Ponette vai mais longe e cria ela própria o seu momento de despedida com a mãe. Quando Ponette passeia de mão dada com a mãe pelo bosque e lhe pede que nunca mais se vá, Doillon mostra-nos que embora seja difícil aceitar o facto de a mãe estar morta e não voltar, a resignação de um indivíduo tem que chegar. E que melhor maneira do que a de Ponette, quando cria imaginariamente uma despedida da mãe, simbolizando a sua aceitação de uma condição que era mais forte que a sua constante negação de tal circunstância. Ponette é um filme belo, emocionante e extremamente simples. Aqui não há grandes enredos, traições e paixões. Ponette trata da morte, da dor e do amor. Ponette é arte em cinema.