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quinta-feira, 31 de março de 2011

Biografia: Ingmar Bergman

por Ricardo Cota
Extraído de http://www.terra.com.br/cinema/favoritos/bergman.htm

A obra de Ingmar Bergman compõe um dos mais ricos e essenciais capítulos da história do cinema. Como poucos, o diretor se apropriou da linguagem para realizar um conjunto significativo que transcende a própria experiência cinematográfica. Abordando temas intrínsecos à existência humana – como desejo, morte e religiosidade –, o cineasta rompeu as fronteiras do cinema sueco e atingiu a universalidade.

A relação de Bergman com o cinema antecede seu trabalho como profissional. Antes de estrear na tela, já havia descoberto o cinema como forma de expressão e até de sobrevivência. Aos 9 anos, no natal de 1927, não resistiu à tentação de ver o irmão presenteado com um projetor e sugeriu uma barganha definitiva para o futuro de sua vida: trocou um exército de chumbo pelo cinematógrafo.

Filho de pastor luterano, amargou uma criação autoritária, baseada em conceitos relacionados ao pecado, confissão, castigo, perdão e indulgência. Em sua autobiografia, Lanterna mágica, Bergman faz relatos impressionantes. Sempre que contava uma mentira recebia castigos constrangedores, como desfilar vestido de menina ou ser trancafiado num armário. É nesse período que vivencia sentimentos como vergonha ou humilhação, tão explorados em seus filmes.

A iniciação profissional do diretor se deu através de um dos patriarcas do cinema sueco, Victor Sjostrom, homenageado em Morangos Silvestres, em que Sjostrom interpreta o protagonista que perde a noção da memória face à iminência da morte.

Do mestre, diretor do clássico O Vento, com Lilian Gish, Bergman herdou a compreensão da natureza como elemento de sustentação drmática. É o que ocorre, por exemplo, em Monika e o Desejo, onde o verão inunda a trama de sensualidade. Foi esse filme, por sinal, que despertou o interesse de Woody Allen pelo diretor sueco.

Embora Bergman seja quase sempre lembrado por suas obsessões mais frequentes, como o passar do tempo, a morte e a impossibilidade de comunicação, presentes em filmes como Luz de inverno, O Sétimo Selo, O Silêncio, Persona e tantos outros, o conhecimento mais aprofundado de sua obra revela um autor de talentos múltiplos. O Olho do diabo, Sorrisos de uma noite de Amor e Para não falar de todas essas mulheres são filmes de um bom-humor surpreendente, sobretudo quando se sabe que são filmes do mesmo autor de Vergonha, Face a face e Da Vida das Marionetes.


Com larga experiência teatral (foi diretor do Teato Municipal de Goteborg e do Teatro de Malmoe), Bergman trabalhou em seus filmes com uma equipe que praticamente não se alterou. Harriet Andersson, Erland Josephson, Max Von Sydow, Ingrid Thulin, Liv Ullman e o insuperável Gunnar Bjornstrand são apenas alguns dos nomes imortalizados pelo seu cinema.

Sem eles, não existiria essa obra feita a base de rostos, gritos, silêncios e sussurros. Apesar da fama mundial, Bergman não usufrui do mesmo prestígio na terra natal, a Suécia. Acusado de burlar o fisco, em meados da década de 70, caiu em desgraça. Desde então, vive recluso na ilha de Faro, de onde só sai para encenar suas peças teatrais ou realizar especiais para a tevê. Fanny e Alexander, Oscar de 1985, foi seu último trabalho para o cinema. Morreu em sua casa em Fårö aos 89 anos, de forma tranqüila – segundo sua filha, Eva Bergman – e, coincidentemente, no mesmo dia em que faleceu o grande cineasta italiano Michelangelo Antonioni.

FILMOGRAFIA

1)Kris (Crise) - 1945
2)Det Regnar paa Vaar Kaerleck (Chove em Nosso Amor) -1946
3)Skepp till Indialad (Um Barco para a Índia) - 1947
4)Música na Noite (Musik I Morker) - 1947
5)Porto (Hamnstad) - 1948
6)Fangelse (Prisão) - 1949
7)Sede de Paixões (Torst) - 1949
8)Till Gladje (Rumo à Alegria) - 1949
9)Saat Hander Inte Har ((Isto Não Aconteceria Aqui) - 1950
10)Juventude (Sommarlek) - 1951
11)Quando as Mulheres Esperam (Kvinnors Vantam) - 1952
12)Mônica e o Desejo (Sommaren Med Monika) - 1952
13)Noites de Circo (Gyclarnas Afton)
14)Uma Lição de Amor (En Lektion I Karlek) - 1954
15)Sonhos de Mulheres (Kvinnodrom) - 1955
16)Sorrisos de Uma Noite de Amor (Sommarnattens Leende) - 1955
17) O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet) - 1956
18) Morangos Silvestres (Smultronstallet) - 1957
19) No Limiar da Vida (Nara Livet) - 1957
20) O Rosto (Ansiktet) - 1958
21) A Fonte da Donzela - (Jungfrukallan) - 1959
22) Djavulens Oga (O Olho do Diabo) - 1960
23) Através de um Espelho (Saasom I en Spegel) - 1960
24)Nattvardsgasterna (Luz de Inverno ou Os Comungantes) - 1962
25)O Silêncio (Tystnaden) - 1962
26)For Att Inte Tala Om Alla Dessa Kvinnor (Para não Falar de Todas Essas Mulheres) - 1963
27)Quando Duas Mulheres Pecam (Persona) - 1966
28)Stimulantia (Dirigiu o episódio Daniel)
29)A Hora do Lobo (Vartimmen) - 1968
30)Vergonha (Skammen) - 1969
31)Faro (Documentário de méia-metragem sobre a ilha onde Bergman vive) - 1969
32)Ritten (O Rito, filme feito para a tevê) - 1969
33)A Paixão de Ana (En Pasion) - 1970
34)A Hora do Amor (The Touch) - 1971
35)Gritos e Sussurros (Viskningar Och Rop) - 1973
36)Cenas de um Casamento (Scener ur ett Aktenskap) - 1974
37)A Flauta Mágica (Die Zauberfloete) - 1975
38)Face a Face (Ansiktet mot Ansiktet) - 1976
39)Sonata de Outono (Hortssonat) - 1978
40)O Ovo da Serpente (Das Schlangenei) - 1979
41)Da Vida das Marionetes (Aus dem Leben der Marionetten) - 1980
42)Fanny e Alexander (Fanny och Alexander) - 1982
43)Depois do Ensaio (Efter Repetitionen) - 1984
44)Les Deux Bienheureux (título em francês) filme feito para a tevê - 1986
45)Diário de uma Filmagem (documentário sobre Fanny e Alexander) - 1986
46)Le Visage de Karin (título em francês) filme feito especialmente para a tevê - 1986

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Biografia: Jacques Becker

Apesar de hoje parecer obscuro e desconhecido, Jacques Becker é com certeza um dos maiores diretores de cinema franceses. Responsável pelos maiores filmes franceses nas décadas de 40 e 50, Jacques Becker foi exerceu grande influência sobre a Nouvelle Vague, sobretudo em François Truffaut.

Jacques Becker nasceu em Paris em 1906. Iniciou-se no início da década de 30 como assistente de direção de Jean Renoir, com quem trabalhou até 1940. Em 1941, lança seu primeiro longa metragem solo, Dernier Atout, um pastiche dos trillers americanos. Com seus dois próximos filmes, Mãos Vermelhas (1943 - retrata aspectos dos camponeses franceses na década de 40) e Nas rendas da sedução (1944 - retrata a alta costura parisiense), faz um enorme sucesso de crítica e público, graças a sua extrema habilidade de construir um drama intenso e cativante.

Em 1947 lança O Tonio e a Toninhas onde retrata a classe média suburna parisiense da época, em 1949 lança Rendez-vous de juillet onde critica acidamente a a vida intelectual de Saint-Germain-des-Prés. Em 1952 e 1953, lança respectivamente, duas das maiores obras primas do cinem francês: Casque d'or e Grisbi. Em Casque d'or retrata um trágico romance ocorrido durante Belle Époque francesa. Com Grisbi, graças a acão e a densidade dos ambientes e das personagens, Becker abre caminho à subsequente série de produções de filme noir de que o cinema francês seria fértil nas décadas de 50 e 60.

Entretanto, seus dois filme seguintes Ali Baba et les quarante voleurs (1954) e As aventuras de Arsène Lupin (1957) são fracassos retumbantes. Retorna em grande estilo com Os Amantes de Montparnasse (1958) onde retrata o último ano de vida do pintor Modigliani. Este filme era o último projeto de Max Öphuls, interrompido por sua morte e é retomado por Jacques Becker. Segundo Godard, este “não é um filme, mas a descrição do medo de fazer um filme”.

Mas indubitavelmente seu melhor trabalho é A um passo da Liberdade (1960) onde se afasta do romantismo, que marcara sua carreira e mergulha em um neo-realismo, retratando um eletrizante plano de fuga de prisão de presos franceses. É uma das maiores obras primas do cinema francês, infelizmente um pouco esquecida pelo tempo e ofuscada pelo enorme sucesso da Nouvelle Vague na década de 60.

Já bastante doente durante a produção de A um passo da Liberdade, Becker, que morreria apenas alguns dias depois, teve a ajuda de seu filho, o também diretor Jean Becker, em algumas cenas.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Biografia: Carlos Reichenbach

Extraído de seu blog pessoal http://www.olhoslivres.com/Biografia.htm

Carlos Oscar Reichenbach Filho, nasceu em Porto Alegre, Rio Grande Do Sul, em 14 de Junho de 1945. Com quatro meses, quando sua mãe, Luise Tinger Reichenbach, foi autorizada pelos médicos a viajar de avião, se instalou definitivamente em São Paulo, terra natal de seu pai, Carlos Reichenbach, onde mora e trabalha até hoje.

O avô Gustav Reichenbach, veio ao Brasil, no início do século, com seu sócio Hartmann, à convite do governo brasileiro, instalar a primeira industria litográfica no país.Por ser neto, filho e sobrinho de editores e industriais gráficos, Carlos teve desde cedo uma ligação profunda com a literatura e o jornalismo.

Carlos Reichenbach, pai, foi durante vários anos o editor de revistas conceituadissimas como Seleções Do Readears Digest (edição portuguesa e castelhana), Casa e Jardim (que lançou no Brasil), O Médico Moderno, Dirigente Industrial, e sobretudo a prestigiosa revista LADY (que lhe rendeu dois infartos, um deles fatal). Nada mais natural que Carlos Reichenbach, filho, tenha sido editor de todos os jornais nos colégios em que estudou. Em entrevista, há dez anos atrás, para o jornal Folha de São Paulo, revelou que o presente mais inesquecível que recebeu na vida, foi um mimeógrafo à tinta, ganho de seu pai, quando fez nove anos de idade. Com a morte do pai, em 1960, interrompeu os estudos em um colégio alemão na cidade de Rio Claro (estava sendo preparado para estudar artes gráficas na Alemanha), voltou para a capital de São Paulo, onde gradativamente foi abandonando o ramo da família e se interessando por cinema.

Assíduo freqüentador das salas de arte, dos "poeiras" do centro de São Paulo e das sessões do Museu de Arte, na rua Sete de Abril, promovidas pela Sociedade Amigos da Cinemateca, Reichenbach fez vários cursos de história e crítica cinematográfica, com Paulo Emílio Salles Gomes, Francisco Luiz de Almeida Salles, Alberto D´Aversa e outros. Na hora de optar por uma faculdade, Carlos prestou, em 1965, entre outros, vestibular no primeira curso de cinema de nível universitário no Brasil, a Escola Superior de Cinema São Luiz. Reichenbach imaginava, naquela época, que existisse a profissão de roteirista cinematográfico, por isso trocou o curso de neo-latinas na Universidade de São Paulo para integrar a segunda turma da São Luiz. Colega de João Callegaro, Ana Carolina, Paulo Rufino, Carlos Alberto Ebert, Enzo Barone, Sílvio Bastos e outros estudantes que, posteriormente, se profissionalizaram, Reichenbach foi aluno de mestres como Roberto Santos, Anatol Rosenfeld, Paulo Emílio Salles Gomes, Mário Chamie, Décio Pignatari, e sobretudo, Luiz Sérgio Person, responsável pelo seu interesse em dirigir filmes. A São Luiz, durante os anos 60, reunia o meio cinematográfico emergente de São Paulo. Embora não fossem alunos, freqüentavam a ESC/São Luiz, Rogério Sganzerla, Jairo Ferreira, José Mojica Marins, Ozualdo Candeias, Fauzi Mansur, etc. De certa maneira, pode-se dizer que o "cinema marginal" (ou "bôca-do-lixo") é fruto desta convivência nascida na ESC/São Luiz.

Produzido por Luiz Sérgio Person, Reichenbach realiza seu primeiro curta-metragem em 35 mm, ESTA RUA TÃO AUGUSTA, como exercício de curso. Já naquele momento, apaixonado pela cultura japonesa, Reichenbach começa à escrever críticas de cinema em jornais de bairro e a colaborar com Jairo Ferreira e Orlando Parolini em suas colunas semanais no jornal São Paulo Shimbun. Em 1966, Reichenbach fotografa o curta-metragem VIA SACRA de Orlando Parolini, primeiro filme "underground" feito no Brasil e jamais concluído porque Parolini, num acesso de paranóia, em 1970, sob a ameça de ter seu material filmado confiscado pela polícia federal, picotou todo o negativo, fotograma por fotograma. Por ter uma câmera Paillard Bolex 16mm, Reichenbach fotografou diversos curtas metragens para colegas e amigos, que participaram do Festival JB-Mesbla. Ávido leitor do Cahiers Du Cinema na década de 60 e um dos únicos assinantes brasileiros da revista FILM CULTURE dos irmãos Meckas, Reichenbach realizou o curta-metragem DUAS CIGARRAS, 16mm, mudo, de teor experimental. Apesar de sua formação literária, ou talvez por isso, Reichenbach foi cada vez mais se desinteressando pelo texto e se aproximando da técnica cinematográfica, tendo feito câmera e fotografia em vários filmes amadores de colegas seus.

Antes de abandonarem a São Luiz, para se profissionalizarem, Reichenbach e João Callegaro se uniram ao crítico mineiro Antonio Lima, e fundaram a Xanadú Produções Cinematográficas. Colocando de lado todos os conceitos estéticos, políticos e culturais da época, os três cinéfilos resolveram produzir um filme em episódios de teor exclusivamente comercial. Nascia alí, na porta de saída da Faculdade São Luiz, o "cinema cafajeste". Um cinema absolutamente sintonizado com seu tempo. Como disse Anatol Rosenfeld, a arte mal comportada do pós-64, optou por uma estética do mau gosto e radicalmente indigente, com a cara do país. "As Libertinas" e "O Bandido Da Luz Vermelha", realizados simultaneamente, foram as respostas fílmicas para o nascente movimento tropicalista.

Após As Libertinas, Reichenbach e Lima realizam Audácia !. O episódio de Reichenbach é um tributo à sua geração, influenciado pela vivência contra-cultural no período do "desbunde". Um anti-filme, que propunha "o péssimo para chegar ao ótimo". "A Badaladíssima dos Trópicos" é a prova de que naquele época, a vida era muito mais interessante do que a arte e o cinema. "A repressão comia solta, o mundo estava mudando, vivíamos 68 à vinte e quatro quadros por segundo. Jimmy Hendrix e Janis Joplin na cabeça feita. Meu episódio em AUDÁCIA! é delírio à luz do barato. Um prolongamento do meu dia a dia anárquico; transgressão pura e niilista até a medula, como tudo que fazíamos na época. ", afirma Reichenbach. "Um filme ultra datado e que só fazia sentido na época.".

À partir de 69, Reichenbach começa à iluminar e fazer câmera em longas metragens de outros diretores. De 69 até hoje, fotografou e operou a câmera de mais de 36 longas metragens. Foi premiado como melhor diretor de fotografia pelos filmes: "EXCITAÇÃO" (1977), de Jean Garret, "A FORÇA DOS SENTIDOS" (1979), de Jean Garret, e "DOCE DELÍRIO" (1982), de Manoel Paiva. Em 1969, Reichenbach iniciou, na raça, um longa metragem de agudo teor político, GUATEMALA, ANO ZERO. Chegou a rodar mais de cinqüenta por cento das cenas previstas em um roteiro de oito páginas (!!!), mas interrompeu o trabalho por pressões familiares.


Verificar ortografiaEm 1970, foi convidado pelo produtor Renato Grecchi à dirigir um filme do gênero infanto-juvenil, com corredores de automóvel, garotas de biquini e música jovem. Realiza então, o seu autêntico e primeiro longa metragem: CORRIDA EM BUSCA DO AMOR. Devido aos enormes problemas de produção enfrentados durante as filmagens, Reichenbach foi obrigado à improvisar o roteiro diariamente com seus assistentes, Jairo Ferreira e Percival Gomes de Oliveira. As cenas eram escritas, à noite, conforme os atores e carros à disposição no dia seguinte. "Nenhuma escola de cinema me ensinaria tanto quanto este filme. Aqui comprovei o truísmo de que o cineasta brasileiro é obrigado à transformar a falta de condições em elemento de criação." diz Reichenbach.

Em 1971, Reichenbach torna-se sócio-gerente da Jota Filmes, tradicional produtora de filmes publicitários em São Paulo. Durante 4 anos, escreveu, produziu, dirigiu e fotografou mais de 150 comerciais e filmes institucionais. Durante este período lecionou fotografia de cinema na Faculdade Alvarez Penteado e cinema publicitário na Escola Superior de Propaganda e Marketing. Em 1974, insatisfeito com os rumos de sua vida profissional, despede-se da profissão de publicitário, exatamente no momento em que começava à se tornar o "diretor da moda". Investe tudo que sobrou da experiência empresarial e dos bens familiares no longa metragem LILIAN M., RELATÓRIO CONFIDENCIAL. Usando a infra-extrutura de sua empresa, sucatas de cenário de seu estúdio e o equipamento que possuía, fez o seu filme de linguagem mais radical. Com o filme concluído, vende sua parte na Jota Filmes, e jura à si mesmo nunca mais retornar ao ramo publicitário. "Sai no início de uma carreira yuppie. Quando percebi que tinha três cartões de crédito na carteira, senti que era hora de pular fora... Joguei tudo que tinha acumulado em três anos, mais a experiência técnica adquirida durante este período, num filme súmula: do experimental ao cinema de gênero, do udigrudi amador ao rigor técnico extremo.".

Ao sair da Jota Filmes, Reichenbach assume definitivamente a profissão de técnico cinematográfico. Da direção, produção, fotografia, operador de câmera, roteiro e, às vezes até como ator, participou em mais de quarenta filmes de longa metragem. Dirigiu e fotografou vários documentários institucionais, incluindo uma série de filmes em 16 mm para a Ford tratores, caminhões Volvo e um documentário de média-metragem para a multinacional holandesa Hunter Douglas, "FORROS E FACHADAS", filmado por todo o Brasil, do Oiapoque ao Chuí, produzido por João Callegaro. A filmografia de Carlos Reichenbach como autor e diretor compreende 6 curtas-metragens, 4 episódios em longas metragens e 14 longas metragens. Tem exercido, esporadicamente, a função de crítico e ensaísta em diversas publicações, assinou durante dois três duas prestigiadas colunas semanais de cinema em sites específicos, participado de inúmeros cursos e palestras sobre o filme brasileiro no Brasil e exterior, lecionou cursos de roteiro cinematográfico em diversos lugares, fez parte da diretoria e conselho de diversos órgãos de classe cinematográfica e foi, durante quatro anos, titular da cadeira de direção cinematográfica e "expressão em cinema e vídeo", do curso de cinema e vídeo da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo.

Considerado um dos mais importantes realizadores paulistas, Reichenbach teve sua obra reconhecida internacionalmente em 1985 no Festival de Rotterdam, Holanda, onde participou com seus filmes por cinco anos consecutivos. Foi por duas vezes premiado pela Cinemateca Real de Bruxelas, recebeu com ALMA CORSÁRIA, o prêmio dos 30 anos do Festival do Novo Cinema de Pesaro. Em 2001, após ter sobrevivido a três infartos do miocárdio e ganhar três pontes de safena e uma mamária, foi o primeiro cineasta a receber o Troféu Eduardo Abelim, no 29° Festival de Gramado. Recebeu também o troféu Barroco, pela obra, na 3ª Mostra de Cinema Brasileiro de Tirandentes, Minas Gerais, e o troféu especial do Guarnicê de Cine-Vídeo, em São Luiz do Maranhão.

Reichenbach, que continua morando em São Paulo, cidade personagem de seus filmes, é casado com a dentista Lygia, é pai de três filhos adultos e divide os cargos de sócio-gerente com a produtora Sara Silveira, na Dezenove Som e Imagens Produções Ltda, e com sua filha, Eleonora, na Beethoven Street Filmes.

FILMOGRAFIA
como diretor de curtas e episódios
1965 - Duas cigarras
1966/68 - Esta rua tão Augusta
1967 - Alice, primeiro episódio de As libertinas
1969 - Prólogo (co-direção com Antônio Lima) e
A badaladíssima dos trópicos x Os picaretas do sexo,
primeiro episódio de Audácia! - A fúria dos desejos
1979 - Sonhos de vida
1979 - O M da minha mão
1979 - Sangue corsário
1982 - Rainha do flipper, primeiro episódio de As safadas
1989 - Desordem em progresso, episódio de City life
1994 - Olhar e sensação
2002 - Equilíbrio e Graça

como diretor de longas metragens
1972 - A corrida em busca do amor
1975 - Lilian M., relatório confidencial
1979 - Sede de amar (Capuzes negros)
1979 - A ilha dos prazeres proibidos
1980 - Império do desejo
1981 - Amor, palavra prostituta
1981 - O paraíso proibido
1984 - Extremos do prazer
1986 - Filme demência
1987 - Anjos do arrabalde, as professoras
1994 - Alma corsária
1999 - Dois Córregos
2002/03 - Garotas do ABC (Aurélia Schwarzenega)
2003/04 - Bens Confiscados

como diretor de fotografia e operador de câmera
1969 - Audácia! - A fúria dos desejos
1969 - Orgia ou o homem que deu cria, de João Silvério Trevisan
1970 - Os Amores de Um Cafona - de Penna Filho e Osiris Parcifal de Figueiroa
1975 - Lilian M., relatório confidencial
1977 - Excitação, de Jean Garret
1978 - Meus homens, meus amores, de José Miziara
1979 - Mulher, Mulher - de Jean Garret
1979 - J.J.J., o amigo do super-homem, de Denoy de Oliveira
1979 - A força dos sentidos, de Jean Garret
1979 - A ilha dos prazeres proibidos
1979 - A dama da zona (Hoje tem gafieira), de Ody Fraga
1980 - A mulher que inventou o amor, de Jean Garret
1980 - Viúvas precisam de consolo, de Ewerton de Castro
1980 - O gosto do pecado, de Cláudio Cunha
1981 - Amor, palavra prostituta
1982 - As prostitutas do dr. Alberto, de Alfredo Sternheim
1982 - Rainha do flipper, primeiro episódio de As safadas
1982 - Instinto Devasso, de Luiz Castillini
1983 - Doce delírio, de Manoel Paiva
1984 - Extremos do prazer
1984 - Elite Devassa, de Luiz Castillini
1985 - Gozo Alucinante - de Jean Garret
1991 - Sua Excelência, o Candidato - de Ricardo Pinto e Silva
1994 - Alma corsária

como diretor de fotografia de curtas e médias metragens
1965 - Via Sacra, de Orlando Parolini (16mm - inacabado)
1968 - Odisséia, de Miguel Chaia (16mm - inacabado)
1974 - O Gurú e os Guris - de Jairo Ferreira
1979 - Nem Verdade, Nem mentira - de Jairo Ferreira
1995 - Glaura, de Guilherme de Almeida Prado (15 min)
1998 - A voz e vazio: a vez de Vassourinha, de Carlos Adriano (15 min)
(para confirmar as datas)
Hamlet - de Ricardo Elias
Amor, Aventura e Transporte Público - de Bruno de André

como diretor de fotografia
(assinando com o pseudônimo de Alfred Stinn)
1980 - Império do desejo
1981 - O paraíso proibido

como compositor e executante da Trilha Musical Original
1994 - Alma Corsária
1994 - Olhar e Sensação

como autor da Seleção Musical
1974 - Até A Última Bala, de Luigi Picchi
1978 - Snuff, Vítimas Do Prazer, de Cláudio Cunha
1978 - Belas e corrompidas, de Fauzi Mansur
1980 - A mulher que inventou o amor, de Jean Garret

como ator
1968 - O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla
1970 - Ritual de sádicos (O Despertar da Besta), de José Mojica Marins
1970 - O pornógrafo, de João Callegaro
1970 - Sertão em festa, de Osvaldo Oliveira
1971 - Finis Hominis, de José Mojica Marins
1971 - No Rancho fundo, de Oswaldo Oliveira
1972 - Gringo, o último matador, de Edward Freund
1975 - Ainda Agarro este Machão, de Edward Freund
1976 - A casa das tentações, de Rubem Biáfora
1977 - O vampiro da cinemateca, de Jairo Ferreira
1978 - Belas e corrompidas, de Fauzi Mansur
1978 - Noite em chamas, de Jean Garret
1980 - A mulher que inventou o amor, de Jean Garret
1986 - Filme demência

como roteirista de outros diretores
1977 - Vítimas do prazer, de Cláudio Cunha (argumento e roteiro)
1978 - Noite em chamas, de Jean Garret


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Biografia: Roberto Palmari

Roberto Palmari e José Lewgoy

Extraído de http://www.historiadocinemabrasileiro.com.br/roberto-palmari/

Roberto Palmari (1935-1992) é um cineasta, roteirista, ator e produtor de cinema brasileiro.

Filho de uma abastada família de imigrantes italianos, Roberto Fillipe Palmari nasceu em 5 de junho de 1934. Trabalhou para a extinta TV Tupi, foi um dos criadores da TV Excelsior e entrou para a história da sétima arte tupiniquim, ao realizar os longas “O Diário da Província” e “O Predileto”.

Em 1954 Palmari viajou para a Itália e conheceu o diretor de cinema Federico Fellini, que entre outros, realizou E LA NAVE VA. Estudou literatura e fez estágio na TV Estatal italiana. De volta ao Brasil conseguiu, em 1959, um papel no tele-drama “Urgente (Um namorado para Sheila)”, do diretor Ademar Guerra na extinta TV Tupi. Dirigiu tele-teatros transmitidos ao vivo pela mesma emissora, e realizou o primeiro festival de MPB da televisão Brasileira, lançando cantores como Elis Regina e Edu Lobo. Ainda na Tupi dirigiu o Programa Marisa Urban, sob a redação do escritor Jaime Leitão.

Como publicitário lançou campanhas, comerciais de TV e ganhou muitos prêmios. Criou e dirigiu o Show da Rhodia, lançando a coleção de inverno de 1970. A trilha sonora ao vivo do evento ficou por conta dos Mutantes com direção musical do maestro Julio Medaglia.

Sua primeira realização cinematográfica aconteceu no ano de 1976. O longa “O Predileto”. No elenco Jofre Soares, Suzana Gonçalves e Othon Bastos. O filme levou o Kikito de ouro de melhor filme na 4° edição do Festival de Gramado de 76. Jofre Soares ganhou como melhor ator. Roberto Palmari e Roberto Santos melhor roteiro.

No ano de 1977, a revista masculina Status realizou seu 1° Concurso de Contos Eróticos. Os três contos premiados foram adaptados (por realizadores diferentes) para cinema e reunidos em um filme chamado Contos Eróticos. Palmari foi convidado para adaptar e dirigir o episódio “As três virgens”. Um destaque da produção foi a atriz Carmem Silva. Ela recebeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante no XI Festival de Cinema de Brasília.

Em 1978 deu início ao seu terceiro e último projeto cinematográfico, “O Diário da Província”. O filme tem como pano de fundo a crise do café de 1929, e transforma em personagem o jornal rio-clarense de maior expressão nas décadas de 20 e 30: O Alpha. O longa contava com José Lewgoy, Gianfrancesco Guarnieri, Paula Ribeiro e Beatriz Segall. A equipe de pesquisa foi composta por Nelson Anunciato (Fubá), Paula Ribeiro e Fernado Cilento Fitipaldi. Foi premiado no festival de Vantiz na França e vendido para distribuição na Alemanha e França.

Nesse ínterim foi locutor do programa Carnet Social da Rádio PRF2 (Rádio Clube) em Rio Claro, interior de São Paulo. Em dezembro de 1979 lançou, também em Rio Claro, o Momento – A semana passada a limpo. Tablóide com viés político-cultural. Entre seus colaboradores se destacavam: a fotógrafa Claudia Andujar, Jaime Leitão, Henfil e Ignácio Loyola Brandão. Com o fim do Momento, Palmari ainda tentou publicar a Folha Solta, mas a empreitada não passou dos primeiros números.

No ano de 1992 sofreu aneurisma cerebral e foi transferido para Porto Alegre, onde faleceu no dia 3 de outubro.

Em 1993 foi aprovado um Projeto de Lei (nº.08/93) dando o nome do renomado cineasta rio-clarense Roberto Palmari, ao local, que passou a ser conhecido como Centro Cultural Roberto Palmari.

Hoje o Centro Cultural Roberto Palmari é palco de inúmeras ações culturais, tais como cursos de teatro, oficinas variadas, cursos de dança, festivais de dança, apresentações teatrais, exibição de filmes, encontros de escritores, atividades musicais, entre muitas outras atividades voltadas para o desenvolvimento sócio-cultural dos cidadãos rio-clarenses pertencentes aos mais variados segmentos da nossa comunidade.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Biografia: Beto Brant

Beto Brant nasceu em Jundiaí em 1964, indo ainda pequeno para São Paulo. É graduado em cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) em 1987.

Inicialmente foi diretor de videoclipes. Os mais marcantes foram os clipes dos Titãs, todos do álbum Titanomaquia (1993): Nem sempre se pode ser Deus, Taxidermia, Será que é isso que eu necessito? (este lhe rendeu o prêmio MTV Brasil Music Awards). Sua carreira como curta-metragista foi marcante. O curta foi o primeiro filme de sua lista de produções premiadas em festivais ao conquistar o título de melhor curta-metragem no Festival de Havana.

O primeiro longa-metragem, Os Matadores, conta a história de assassinos de aluguel da fronteira com o Paraguai. O thriller policial apresentava um elenco considerável para um iniciante: Murilo Benício, Chico Diaz, Adriano Stuart, Maria Padilha, Wolney de Assis e Stênio Garcia. A estréia teve boa receptividade e rendeu, entre outros feitos, as estatuetas do Kikito de Ouro de melhor diretor no Festival de Gramado e a do Lente de Cristal no Festival de Cinema Brasileiro de Miami.

O segundo longa foi Ação entre Amigos. O enredo da trama expõe o dilema de quatro ex-militantes do período de resistência à ditadura militar e possibilidade de se depararem, anos mais tarde, com o torturador do passado. Quatro personagens diferentes, quatro perfis de ex-torturados diferentes que misturaram conformismo com sede de vingança e travaram, pouco a pouco, um debate sobre anistia e justiçamento. O elenco foi composto por figuras menos conhecidas, elemento que permitiu uma maior identificação entre personagens e público. Mais um longa, mais prêmios: o "bi" em Miami, o Troféu Passista no Festival de Recife, além de uma repercussão internacional marcante.

O terceiro longa foi O Invasor. A trajetória de sucesso do filme começou com o Festival de Brasília, com os prêmios de melhor diretor, melhor trilha sonora e o de ator-revelação para o integrante dos Titãs, Paulo Miklos, amigo feito no período dos clipes. O músico surpreendeu por sua performance dual cômica/soturna, venceu a categoria de melhor filme latino-americano em Sundance e dividiu as atenções com o rapper Sabotage (autor dos diálogos de Miklos, de músicas da trilha e de uma participação especial). O elenco conta com Marco Ricca, George Freire, Alexandre Borges, Jayme Del Cueto, Mariana Ximenes, Tanah Correa, Chris Couto e Malu Mader. Em Recife, venceu a competição com sete prêmios: melhor filme, direção, fotografia, montagem, trilha sonora (Sabotage), ator (Marco Ricca) e atriz coadjuvante (Mariana Ximenez).

É destaque da geração de longas-metragens dos anos 90, sua brilhante carreira não surpreende em festivais culminando premiações, principalmente em seu último filme, O invasor (2001) como no Festival de Brasília (melhor diretor) e no Sundance Film Festival (melhor filme latino-americano). Um dos melhores frutos do investimento estatal e exemplo do difícil percurso que um cineasta enfrenta para alcançar uma boa produção é O invasor.

O filme, apresenta uma característica das produções brasileiras: chegou a ser disputado e comprado no Festival de Berlim por distribuidoras estrangeiras sem ter um distribuidor nacional interessado. Com orçamento baixo (R$ 1 milhão), os patrocínios vieram de prêmios (R$ 370.000 do próprio Ministério da Cultura e R$ 300.000 da estatal BR Distribuidora), em apoios (como do Estúdio Mega, da Quanta - Equipamentos, e da Videofilmes - empréstimo de câmeras e equipamentos), além de diversas locações cedidas gratuitamente e até cachês modestos para os atores. Beto Brant, dotado de um estilo próprio na forma como conta suas histórias ou pelo conteúdo delas, brinca com fórmulas narrativas do cinema policial norte-americano com tramas provocativas, essencialmente brasileiras. Seu objetivo era o de ver seus filmes serem exibidos na TV aberta, como "qualquer outra fita do gênero".

Não será propriamente uma surpresa se alguém resolver traçar um paralelo entre O Invasor e Cidade de Deus, da mesma forma que Ação entre amigos e O que é isso companheiro? foram confrontados. Parâmetros de comparação não faltam: é possível traçar esta abordagem pelo conteúdo, pela estética ou até mesmo pelas próprias estruturas com as quais os dois filmes foram construídos. Outra característica do trabalho de Beto Brant é realizar filmes que começam e terminam com reticências, mas que não se tratam de obras abertas. Os filmes terminam num clímax surpreendente e que não se extingue, deixam o espectador em suspenso, estupefato com o ponto em que as coisas chegaram. Talvez seja este o efeito que o cineasta deseja atingir com relação ao próprio status da realidade brasileira.

Filmografia
2009 - O Amor Segundo B. Schianberg
2007 - Cão Sem Dono
2001 - O Invasor
1998 - Ação Entre Amigos
1997 - Os Matadores
1993 - (curtametragem)
1989 - Dov'e Memeghetti? (curtametragem)
1987 - Aurora (curtametragem)

Prêmios
- Melhor Roteiro – Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA),CÃO SEM DONO (2007)
- Melhor Trilha Sonora – Festival de Goiânia,CÃO SEM DONO (2007)
- Prêmio de Melhor Diretor – Festival do Rio, Crime Delicado (2005)
- Prêmio de Melhor Roteiro Adaptado – Academia Brasileira de Cinema, Crime Delicado (2006)
- Prêmio de Melhor Roteiro e Melhor Fotografia – Festival Brasileiro de Miami, Crime Delicado (2006)
- Ganhou o Prêmio de Melhor Filme Latino-Americano, no Sundance Film Festival, por "O Invasor" (2001).
- Ganhou o Kikito de Ouro de Melhor Diretor, no Festival de Gramado, por "Os Matadores" (1997).
- Ganhou o prêmio de Melhor Diretor, no Festival de Brasília, por "O Invasor" (2001).
- Ganhou o Troféu Passista de Melhor Diretor, no Festival de Recife, por "Ação entre Amigos" (1998).
- Ganhou 2 vezes o Lente de Cristal de Melhor Diretor, no Festival de Cinema Brasileiro de Miami, por "Os Matadores" (1997) e "Ação entre Amigos" (1998).
- Ganhou o prêmio de Melhor Curta-Metragem, no Festival de Havana, por "Job" (1993).
- Dirigiu o clip da música "Será que é isso que eu necessito?", da banda Titãs, pelo qual ganhou o MTV Brasil Music Awards.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Biografia: Alejandro Jodorowsky


"A maior parte dos cineastas fazem filmes com os olhos. Eu faço filmes com os colhões. (...) Exijo dos meus filmes o mesmo que os norte-americanos exigem das drogas psicodélicas."

Esta é com certeza uma das mais célebres frases do diretor, dramaturgo e quadrinista Alejandro Jodorowsky, conhecido por seu cinema transgressor, pouco preocupado em agradar ao grande público e que mistura símbolos místicos de várias culturas com imagens surrealistas. E, por mais extravagante que possa ser, ela é extremamente coerente com sua obra.

Alejandro Jodorowsky nasceu em Iquique, no Chile em 07 de fevereiro de 1929, mudando-se para Santiago em 1942, ao ingressar na universidade para estudar psicologia. Formado, muda-se em 1955 para Paris onde estudou mímica com Marcel Marceau. Nessa époica conhece Maurice Chevallier e com ele faz seu primeiro filme A Gravata (1957) que por muito tempo permaneceu desaparecido. Nessa mesma época conhece o dramaturgo espanhol Fernando Arrábal e o pintor francês Fernando Arrabal. Os três juntos fundariam em 1962 o Moviment Panique, uma corrente de pensamento e expressão artística concebida em homenagem ao deus grego Pan. Era um grupo multímidia onde as performances eram sempre ao vivo e misturavam teatro de vanguarda, literatura e cinema. Nessa mesma época cria uma tira de história em quadrinhos Fabulas panicas e publica diversos livros e dirige diversas peças teatrais vanguardistas em Paris e na Cidade do México.

É no México que Jodorowsky faria a sua estréia como diretor de cinema com o filme Fando e Lis (1967), baseado em uma peça de Fernando Arrábal que juntos haviam dirigido anos antes. O filme estreou no Acapulco Film Festival e sua primeira exibição causou um grande tumulto. Fando e Lis com sua história de um jovem de vinte anos e sua amiga paralítica, infantis e abandonados, em busca de uma cidade chamada Tar, chocou a platéia mexicana de tal modo que Jodorowsky, sob ameaça de violência, teve de sair da sala fugido pelas portas dos fundos e disfarçado e o filme foi banido no México.

Apesar dessa "efusiva" recepção, Jodorowsky permaneceu em seu estilo inconfunível e marca o seu nome no cinema com duas obras primas nos anos 70. Em 1971 lança El topo, um faroeste surrealista onde um pistoleiro na busca de capturar os responsáveis por um massacre, acaba por realizar uma viagem espiritual em busca da transcendência. El topo estrou sem alarde nos EUA em dezembro de 1970, numa sessão programada para a uma da madrugada no teatro The Elgin. Entretanto, El topo provocava fascinação em muitos dos que o assistiam e a propaganda boca-a-boca fez com que o filme conseguisse uma expressiva bilheteria e projetasse o nome de Jodorowsky no cinema mundial. O ex-beatle John Lennon e sua esposa Yoko Ono impressionados com o filme propõem a Jodorowsky o financiamento de um de seus filmes. Como resultado, chegaria aos cinemas, dois anos depois, A Montanha Sagrada (1973), a obra prima de Jodorowsky que foi ovacionada no Festival de Cannes no mesmo ano.

Agora famoso, Jodorowsky retorna à França em 1975 com o obejtivo de fazer uma versão para o cinema do romance Duna de Frank Hebert. O filme teria a participação no elenco de Orson Welles e Salavador Dalí, além da trilha sonora composta pelo Pink Floyd e o conceito visual criado pelos artistas H. R. Giger, Dan O'Bannon e Möebius. Entretanto, os produtores declinaram da idéia, e o romance acabou sendo filmado nos Estados Unidos por David Lynch, que não concordando com os cortes que os produtores fizeram em sua obra, acaba por renegá-lo.

Após essa frustração, Jodorowsky produz Tusk (1980) que conta a improvável história de amizade entre uma menina e um elefante no seio de uma rica família inglesa na Índia Colonial. Nos anos 80 Jodorowsky passa a escrever histórias em quadrinhos em parceria com nomes consagrados das HQs, produzindo uma grande número de obras primas. A parceria com Möebius dá origem a Incal e A Casta dos Metabaroes. Com o iuguslavo Zoran Janjetov ele fez Os Tecnosacersotes e com Milo Manara, Bórgia.

Em 1989 retorna ao cinema com o filme Santa Sangre, bastante elogiado pela crítica e com uma boa bilheteria o que o faz ser convidado a filmar por um grande estúdio um roteiro do produtor
Alexander Salkind. Aceita o convite e filma O ladrão do arco-íris (1990). Entretanto, durante a produção, há diversos cortes contrários à vontade de Jodorowsky que ao final, Jodorowsky acaba por também renegar o filme.

Atualmente, Jodorowsky vive na França e passa seu tempo organizando encontros de leitura voluntários. Toda quarta-feira, reúne interessados e discípulos para ler trechos de obras na maioria das vezes espirituais. Há 14 anos, cumpre essa mesma rotina, segundo o próprio, sem cobrar nada, apenas juntando contribuições para quitar o aluguel da casa onde leciona. Atua como um líder espiritual, interpretando com gestos cada palavra e buscando investigar a alma humana.