terça-feira, 6 de abril de 2010

Biografia: Alejandro Jodorowsky


"A maior parte dos cineastas fazem filmes com os olhos. Eu faço filmes com os colhões. (...) Exijo dos meus filmes o mesmo que os norte-americanos exigem das drogas psicodélicas."

Esta é com certeza uma das mais célebres frases do diretor, dramaturgo e quadrinista Alejandro Jodorowsky, conhecido por seu cinema transgressor, pouco preocupado em agradar ao grande público e que mistura símbolos místicos de várias culturas com imagens surrealistas. E, por mais extravagante que possa ser, ela é extremamente coerente com sua obra.

Alejandro Jodorowsky nasceu em Iquique, no Chile em 07 de fevereiro de 1929, mudando-se para Santiago em 1942, ao ingressar na universidade para estudar psicologia. Formado, muda-se em 1955 para Paris onde estudou mímica com Marcel Marceau. Nessa époica conhece Maurice Chevallier e com ele faz seu primeiro filme A Gravata (1957) que por muito tempo permaneceu desaparecido. Nessa mesma época conhece o dramaturgo espanhol Fernando Arrábal e o pintor francês Fernando Arrabal. Os três juntos fundariam em 1962 o Moviment Panique, uma corrente de pensamento e expressão artística concebida em homenagem ao deus grego Pan. Era um grupo multímidia onde as performances eram sempre ao vivo e misturavam teatro de vanguarda, literatura e cinema. Nessa mesma época cria uma tira de história em quadrinhos Fabulas panicas e publica diversos livros e dirige diversas peças teatrais vanguardistas em Paris e na Cidade do México.

É no México que Jodorowsky faria a sua estréia como diretor de cinema com o filme Fando e Lis (1967), baseado em uma peça de Fernando Arrábal que juntos haviam dirigido anos antes. O filme estreou no Acapulco Film Festival e sua primeira exibição causou um grande tumulto. Fando e Lis com sua história de um jovem de vinte anos e sua amiga paralítica, infantis e abandonados, em busca de uma cidade chamada Tar, chocou a platéia mexicana de tal modo que Jodorowsky, sob ameaça de violência, teve de sair da sala fugido pelas portas dos fundos e disfarçado e o filme foi banido no México.

Apesar dessa "efusiva" recepção, Jodorowsky permaneceu em seu estilo inconfunível e marca o seu nome no cinema com duas obras primas nos anos 70. Em 1971 lança El topo, um faroeste surrealista onde um pistoleiro na busca de capturar os responsáveis por um massacre, acaba por realizar uma viagem espiritual em busca da transcendência. El topo estrou sem alarde nos EUA em dezembro de 1970, numa sessão programada para a uma da madrugada no teatro The Elgin. Entretanto, El topo provocava fascinação em muitos dos que o assistiam e a propaganda boca-a-boca fez com que o filme conseguisse uma expressiva bilheteria e projetasse o nome de Jodorowsky no cinema mundial. O ex-beatle John Lennon e sua esposa Yoko Ono impressionados com o filme propõem a Jodorowsky o financiamento de um de seus filmes. Como resultado, chegaria aos cinemas, dois anos depois, A Montanha Sagrada (1973), a obra prima de Jodorowsky que foi ovacionada no Festival de Cannes no mesmo ano.

Agora famoso, Jodorowsky retorna à França em 1975 com o obejtivo de fazer uma versão para o cinema do romance Duna de Frank Hebert. O filme teria a participação no elenco de Orson Welles e Salavador Dalí, além da trilha sonora composta pelo Pink Floyd e o conceito visual criado pelos artistas H. R. Giger, Dan O'Bannon e Möebius. Entretanto, os produtores declinaram da idéia, e o romance acabou sendo filmado nos Estados Unidos por David Lynch, que não concordando com os cortes que os produtores fizeram em sua obra, acaba por renegá-lo.

Após essa frustração, Jodorowsky produz Tusk (1980) que conta a improvável história de amizade entre uma menina e um elefante no seio de uma rica família inglesa na Índia Colonial. Nos anos 80 Jodorowsky passa a escrever histórias em quadrinhos em parceria com nomes consagrados das HQs, produzindo uma grande número de obras primas. A parceria com Möebius dá origem a Incal e A Casta dos Metabaroes. Com o iuguslavo Zoran Janjetov ele fez Os Tecnosacersotes e com Milo Manara, Bórgia.

Em 1989 retorna ao cinema com o filme Santa Sangre, bastante elogiado pela crítica e com uma boa bilheteria o que o faz ser convidado a filmar por um grande estúdio um roteiro do produtor
Alexander Salkind. Aceita o convite e filma O ladrão do arco-íris (1990). Entretanto, durante a produção, há diversos cortes contrários à vontade de Jodorowsky que ao final, Jodorowsky acaba por também renegar o filme.

Atualmente, Jodorowsky vive na França e passa seu tempo organizando encontros de leitura voluntários. Toda quarta-feira, reúne interessados e discípulos para ler trechos de obras na maioria das vezes espirituais. Há 14 anos, cumpre essa mesma rotina, segundo o próprio, sem cobrar nada, apenas juntando contribuições para quitar o aluguel da casa onde leciona. Atua como um líder espiritual, interpretando com gestos cada palavra e buscando investigar a alma humana.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

03/04: Amores Brutos (Alejandro G. Iñarritu, 2000)

Amores Brutos - Alejandro González-Iñarritu (2000)

Sinopse
Em plena Cidade do México, um terrível acidente automobilístico ocorre. A partir deste momento, três pessoas envolvidas no acidente se encontram e têm suas vidas mudadas para sempre. Um deles é o adolescente Octavio, que decidiu fugir com a mulher de seu irmão, Susana, usando seu cachorro Cofi como veículo para conseguir o dinheiro para a fuga. Ao mesmo tempo, Daniel resolve abandonar sua esposa e filhas para ir viver com Valeria, uma bela modelo por quem está apaixonado. Também se envolve no acidente Chivo, um ex-guerrilheiro comunista que agora atua como matador de aluguel, após passar vários anos preso. Ali, em meio ao caos, ele encontra Cofi e vê a possibilidade de sua redenção. Duração: 153 minutos.

Crítica: Amores Brutos (Alejandro G. Iñarritu, 2000)

por Z5
Extraído de
http://cineplectrum.blogspot.com/2010/01/amor-caoamores-perros-2000.html

Três histórias encontram-se numa colisão de automóvel num cruzamento da capital mexicana, num choque de acasos e destinos, e aqui desembarcam todas as conjecturas acerca desses mesmos acasos e destinos: é a realidade quem sempre pergunta, responde e exemplifica. Três personagens que apenas têm em comum os amores atribulados e a paixão pelos cães (que não passa de mero pano de fundo para enaltecer através dele os problemas sentimentais), envoltos num complexo argumento preocupado em ser o mais chocante possível na aspiração de nos mostrar, sem estereótipos, os campos sociais distintos balanceados entre as luzes da fama e da notoriedade e o submundo urbano. E mesmo diferentes no estatuto que lhes está rotulado, as personagens vivem, sofrem e choram os seus problemas de igual forma, como meros escravos das suas fatalidades.

Esta é a primeira parte de uma trilogia (que inclui “21 Gramas” e “Babel”) e que marca não só a estreia de Alejandro Iñàrritu nas longas-metragens como também o inicio da próspera colaboração entre Iñàrritu e Guilhermo Arriaga (e que iria terminar ainda durante a gravação de “Babel”), o responsável pelo brilhante roteiro que deu vida ao filme. Aqui começa também a constante referência de vários públicos ao estilo utilizado pelo director mexicano nos seus filmes, estilo esse característico de Quentin Tarantino: a narrativa fragmentada, não linear, e a utilização da violência como timbre das cenas fortes são marcas muito próprias do cinema de Tarantino, mas também não deixa de ser claro que estamos perante dois estilos bastante distintos na sua essência e nitidamente provenientes de escolas diferentes.

A violência presente não se remete a entreter ou a fascinar, os diálogos e as situações chocantes não são fragmentos perdidos ou supérfluos, são a resposta à pretensão do realizador em querer fazer um retrato social de uma capital violenta e multifacetada e apresentar nela personagens de elevada profundidade dramática e envoltas numa tensão quase sufocante. O elenco é soberbo, com especial destaque para Gael Garcia Bernal que adquire aqui o merecido reconhecimento internacional, a fotografia inquieta e a “câmara na mão” ajudam a criar um clima de gravidade que, juntamente com a montagem “um só objectivo”, não nos deixa ficar alheios ao sofrimento tão palpável e presente.

Drama realista, gritante, honesto e deveras perspicaz. Um ensaio de Humanidade que encontramos todos os dias na rua disfarçado de Casualidade.

PS: Vencedor de 11 prémios Ariel, Prémio da Crítica em Cannes e nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.


História do Cinema Mexicano

O Cinema chegou ao México apenas oito meses depois de sua primeira exibição em Paris pelas mãos de Claude Ferdinand Bon Bernard e Gabriel Veyre dois enviados franceses dos irmãos Lumière, os pais do cinema, para a divulgação do cinematógrafo na América Latina. Bernard e Veyre acabam permanecendo um período maior no México e acabam por realizar 35 filmes, considerados os primeiros da história do cinema mexicano, todos obras documentais sobre os políticos da época. Em 1896, Salvador Toscano Barragán abre a primeira sala de exibição e dois anos depois realiza o primeiro filme de ficção mexicano, Don Juan Tenorio (1896). O primeiro longa-metragem, no entanto, surgirá apenas em 1906, Fiestas presidenciales en Mérida (1906) de Enrique Rosas e primeira ficção longa metragem El grito de Dolores o La independencia de México (1907) de Felipe de Jesus Haro.

Com a Revolução Mexicana (1910), o cinema desse país dá um grande salto, realizando inúmeros registros documentais da revolução, sendo esta revolução o primeiro acontecimento histórico totalmente documentado pelo cinema. A chegada do som ao cinema mexicano nos anos 30 coincidiu com a visita do cineasta soviético Sergei Einsenstein que vem ao México gravar Que viva Mexico! (1931). Sua visita influenciou e estimulou o nascimento de um novo cinema mexicano, que, fortalecendo-se com o passar dos anos, forma uma verdadeira indústria cinematográfica nos anos 40 e 50, os chamados Anos de Ouro do Cinema Mexicano. Nesse período o cinema mexicano dominou a América Latina e imortalizou em toda a sua extensão atores como Pedro Infante, Dolores Del Río e o inesquecível Cantinflas, tendo como diretores principais nesse período Gabriel Figueroa e Emílio Fernández.

Em 1946 chega ao México o diretor espanhol Luis Buñuel que coloca definitivamente o México no mapa do cinema mundial. Fugindo da Guerra Civil Espanhola, Buñuel chega aos EUA em 1938 e depois de seguidos fracassos chega ao México em 1946, naturalizando-se. Luis Buñuel filma no México alguma de suas maiores obras primas Los Olvidados (1950); Él (1952), Nazarin (1958) e O Anjo Exterminador (1962). Suas obras eram carregadas de surrealismo já que era entusiasta desse movimento artístico, sendo inclusive amigo pessoal de Salvador Dali e juntos já haviam dividido a produção e a direção de O Cão Andaluz (1930) que à época mexeu com os alicerces do cinema mundial. Buñuel deixa o México após 1964, mas o surrealismo se mantém presente no cinema mexicano devido às obras do chileno radicado no México, Alejandro Jodorowsky. Jodorowsky migrou para o México em 1960, onde dirigiu peças de teatro, publicou histórias em quadrinhos e se iniciou como diretor de cinema em 1967 com Fando y Lis. Em 1971 lança El topo, um faroeste surrealista vanguardista. Com o apoio financeiro de Jonh Lennon, Jodorowsky lança em 1973 sua maior obra prima A Montanha Sagrada, tendo inclusive de ser obrigado a terminar as filmagens nos Estados Unidos já que vinha sendo ameaçado de morte pelo governo mexicano.

Durante os anos 80 o cinema mexicano passa por uma profunda crise, reerguendo-se apenas a partir dos anos 90 com os filmes Solo com tu pareja (Alfonso Cuáron, 1991), Cronos (Guilherme Del Toro, 1992) e Como água para chocolate (Alfonso Arau, 1992). Entretanto, é a partir dos anos 2000 que o México volta a surpreender o cinema mundial com obras que arrebatam diversos festivais internacionais. Diretores como Alejandro G. Iñarritu (Amores Brutos, 21 Gramas, Babel), Carlos Reygadas (Japón, Batalha no céu, Luz Silenciosa), Fernando Eimbecke (Temporada de Patos, Lake Tahoe) e Amant Escalante (Sangre, Los Bastardos) vêm atraindo a atenção do mundo para esse novo cinema mexicano e, apesar de possuírem estilos muito diferentes, unem o México culturalmente e levantam questões relevantes a toda a América Latina.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Programação Abril 2010: Cinema Mexicano

Desde os anos 40, marcados pelas atuações do inesquecível Cantinflas, o México desperta o interesse do cinema mundial. Marcado por uma sensacional fase surrealista nos anos 60 e 70 , o cinema mexicano vêm retomando a sua produção nos últimos anos, e alcançando grandes êxitos em festivais internacionais, principalmente por conta de nomes como Iñarritu, Carlos Reygadas e Amat Escalante, que, apesar de estilos diferentes, unem culturalmente o México e levantam questões relevantes a toda a América Latina.

O Cine Clube Ybitu Katu exibe:

03/04: Amores Brutos (Alejandro G. Iñarritu, 2000)
Em plena Cidade do México, um terrível acidente automobilístico ocorre. A partir deste momento, três pessoas envolvidas no acidente se encontram e têm suas vidas mudadas para sempre. Um deles é o adolescente Octavio, que decidiu fugir com a mulher de seu irmão, Susana, usando seu cachorro Cofi como veículo para conseguir o dinheiro para a fuga. Ao mesmo tempo, Daniel resolve abandonar sua esposa e filhas para ir viver com Valeria, uma bela modelo por quem está apaixonado. Também se envolve no acidente Chivo, um ex-guerrilheiro comunista que agora atua como matador de aluguel, após passar vários anos preso. Ali, em meio ao caos, ele encontra Cofi e vê a possibilidade de sua redenção. Duração: 153 minutos.

10/04: A Montanha Sagrada (Alejandro Jodorowsky, 1974)
Jodorowsky interpreta o papel do "alquimista" que reúne um grupo de pessoas que representam os planetas do Sistema Solar. Sua intenção é submeter o grupo a uma série de ritos de natureza mística para que se desprendam da bagagem "mundana" antes de embarcar numa viagem em direção à misteriosa Ilha de Loto. Uma vez na insula, iniciam a ascensão à Montanha Sagrada para substituir os Deuses imortais que em segredo dominam o mundo. Ninguém havia visto nada igual até a data de lançamento deste filme. Foi a grande obra ovacionada no Festival de Cannes em 1973. Duração: 114 minutos

17/04: Los Bastardos (Amat Escalante, 2008)
Num período de 24 horas, o filme descreve a vida de Fausto e Jesus, dois trabalhadores mexicanos em Los Angeles. Como em todos os dias, eles sofrem grande pressão no trabalho. Mas diferente de todos os outros dias, dessa vez Jesus carrega uma espingarda na mochila. Duração: 86 minutos

24/04: O Anjo Exterminador (Luis Buñuel, 1962)
Depois de uma festa, os convidados simplesmente não conseguem deixar o local, sem que haja uma explicação racional para isso. Conforme o tempo passa, as máscaras dos antes bem relacionados começam a cair e revelar suas verdadeiras e mais profundas facetas. Grande clássico o maior diretor mexicano. Duração: 95 minutos

Cartaz Programação Abril 2010

domingo, 28 de março de 2010

Cine Clube Ybitu Katu entra na lista de cineclubes mais atuantes do país

É com grande prazer que anunciamos que o Cine Clube Ybitu Katu entra na lista de cineclubes mais atuantes do país, realizada pelo Observatório Cineclubista Brasileiro, ao lado de tradicionais cineclubes como o Cine Clube Dissenso (Recife - PE) e do Tela Brasilis (Rio de Janeiro - RJ). Para conferir a lista completa basta clicar aqui. Muito obrigado a todos que nos apóiam e ao público frequentante do nosso cineclube.

sexta-feira, 26 de março de 2010

27/03: A Noite (Michelangelo Antonioni, 1961)

A Noite - Michelangelo Antonioni (1961)

Sinopse
Depois de visitar um amigo que está morrendo no hospital, um escritor vai com sua esposa para uma grande festa numa mansão milanesa. Eles estão casados há 10 anos e constatam a falência do casamento. Todo o filme se passa numa tarde de sábado até a madrugada de domingo. Duração: 122 minutos.

Críticas - A Noite (Michelangelo Antonioni, 1961)

por Roberto de Castro Neves
Extraído de
http://www.imagemempresarial.com/Tudosobre/Filmes/mostrafilme.asp?Num=21

“A Noite” (1961) faz parte da trilogia do consagrado cineasta italiano Michelangelo Antonioni cujo tema central é a “incomunicabilidade”. Os outros dois filmes que compõem a trilogia são “A Aventura” (1960) e “O Eclipse” (1962). Numa definição meia-bomba do que seria “incomunicabilidade” para Antonioni, seria ela a impossibilidade da comunicação humana. Essa é a tese. O corolário dessa tese é que a impossibilidade leva o indivíduo ao isolamento e à autodestruição. Se não é bem isso, é bem perto disso. O plot é singelo. Aliás, mais singelo não poderia ser. Giovanni Pontano (Marcello Mastroianni), um escritor de sucesso, é casado com Lídia (Jeanne Moreau) já há algum tempo. O casal não tem filhos. Ambos estão insatisfeitos com o casamento. As razões objetivas da insatisfação de cada um não são claramente informadas. Antonioni deixa com a gente a tarefa de descobri-las e de especular sobre elas. No máximo, o diretor sugere que ele, Pontano, apesar do sucesso como escritor, é um homem entediado e inquieto. Já não valoriza elogios ao seu trabalho, desdenha a fama, acha tudo um saco e busca minorar seu desconforto com paqueras eventuais. Fosse um mortal qualquer, seu comportamento seria classificado como galinhagem das boas. Mas em sendo um intelectual, suas fraquezas vão pra conta de “angústias existenciais”. Lídia, a mulher, por sua vez, abafada pelo sucesso do marido, vive uma vidinha vazia, sem objetivo e projeto próprios. Uma vida em que todos os dias são iguais. Socialmente, faz figuração nas reuniões em que o marido é a grande estrela. Tenta passar o tempo fazendo caminhadas solitárias sem destino, entretendo-se com prosaicas cenas de rua nos arredores de Milão. É uma mulher – nos parece - à beira de uma depressão. Ou em ponto de bala pra arrumar um amante. Pois bem, é através desse relacionamento em crise, com inúmeras tomadas longas em que nada acontece, silêncios, paisagens hostis e sufocantes, etc que Antonioni constrói seu discurso sobre a “incomunicabilidade”, o peixe que o diretor quer vender na trilogia mencionada. Se você ainda não viu esse filme e gosta de cinema, recomendo que assista a essa obra-prima.

por Carlos Augusto de Araújo
Extraído de http://www.65anosdecinema.pro.br/2223-A_NOITE_(1961)

"A Noite" é mais uma pérola do cinema italiano. Realizado pelo grande cineasta Michelangelo Antonioni, que também participa da elaboração do roteiro, o filme forma com "A Aventura" e "O Eclipse", a trilogia da incomunicabilidade do cineasta, na qual ele se debruça sobre a solidão e o tédio proporcionados pela vida moderna das grandes cidades.
A trama se desenvolve durante um dia e uma longa noite na vida de um casal, cuja relação se acha comprometida pela falta de comunicação. Além do belo trabalho de Antonioni, destacam-se a participação de Tonino Guerra, na redação do roteiro, a excelente fotografia de Gianni Di Venanzo e as magníficas atuações do trio principal, formado por Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau e Monica Vitti.

quinta-feira, 18 de março de 2010

20/03: Quê? (Roman Polanski, 1972)

Quê? - Roman Polanski (1972)

Sinopse
Uma jovem poetisa americana viajando através da Itália, após tentativa de estupro, encontra um solar onde conhece um estranho Mediterrâneo. Sua inocência latente e jeitinho angelical vai despertar a líbido em qualquer espécie masculina. Ela conhece o absurdo, a decadência humana e entra em uma jornada mais parecida com uma "Alice no País das Maravilhas" sexual. Seria ela um anjo? Duração: 109 minutos

Crítica: Quê? (Roman Polanski, 1972)

Se fosse um filme em que as cenas de sexo fossem presentes seria pornográfico como um Milo Manara. Nele se vê os cortes oníricos de fellini. Mas foi Carlo Ponti quem se colocou presente no roteiro, produção e assistência de Polanski. Por isso é um filme diferente do diretor.

Diferente porque ele deixa o suspense aterrorizante pra uma comédia onírica, que por remeter à insegurança de acontecimentos do sonho também se caracteriza como suspense. Mas nada assusta, estamos num mundo à beira da praia, umas férias, poesia que acalma e excita. A poetiza não larga seu diário durante todo o filme, e ela na sua maior parte fica nua, nos fazendo ficar extremamente ligados ao filme. Esse erotismo é artifício de narração, como Manara faz: veja a semelhança da atriz Sydne Rome com as mulheres desenhadas por Manara. Uma modelo, apenas. Ela é desejada sexualmente até mesmo por cães, e se torna a cobiça da mais nova arte que se desvenda aos nossos olhos. Uma arte meio vazia, kitsch, carnavalesca, circense e, claro, sacana. A mulher aos olhos dessa arte é um corpo que nos atrai, sua beleza é mais que a forma procurada, desejada – é uma forma divina. Não há paródia dentro da publicidade do corpo nu eroticamente explícito, não há mesmo. Nós aceitamos o espetáculo pobre em artifícios racionais e corremos como cachorros tarados atrás de um corpo belíssimo de uma poetiza espontânea, ingênua e feliz.A felicidade de um sonho bom, de uma passagem à irrealidade do sexo latente. Foi isso que os anos 70 conseguiram levar ao status do pop, uma arte nova, arte que novamente usava a sedução para atrair público e nos evidenciar o hedonismo.

Sim, o filme é uma comédia... Mas uma comédia muito inusitada. Nos lembra algo que no Brasil se costumou chamar de pornochanchada. Óbvio que com mais apuro estético – é quando a nobre arte, personagem do filme que é dono de todo o cenário que vemos, o senhor Noblart, morre e algo novo, mas junto à porcaria que leva a poetiza à Istambul. Mas durante todo o sonho fetichista, um soldado francês conversa com um brigadeiro francês, e a Itália é refúgio ao modo simples de se ver o mundo difundido pelos americanos. A arte nova está lá, no velho mundo, onde estava a velha morta também. Nietzsche que o diga. Mas o senhor Noblart não morre antes de ver algo que antigamente o dava instigação à vida – a vagina da nova poetiza, que não é mais apenas uma sereia sedutora que desvirtua os heróis, mas a própria heroína que sente prazer em todos os lugares por onde passa, na irresponsabilidade bonita de uma criança adulta cheia de libido. Ela conhece o filme, sabe que ele é filme, libera o dispositivo aos espectadores que babam para a movimentação de seus seios (assim como os personagens masculinos do filme, jovens ou velhos).
Dos presentes à ceia familiar, apenas Alex (Marcelo Mastroiani) sabe que ela, a poetiza é manipulável. Mas à base da violência, somente. Violência que ele, como um bom autor de realidades fetichizadas, adora proferir e receber. Não é o fim dos tempos retratado? Na verdade todos preferem achar que o fim sempre esteve presente – apenas agora ele se mostra. Um fim sem teleologia, sem sentido – sem fim.

quinta-feira, 11 de março de 2010

13/03: Os Companheiros (Mario Monicelli, 1963)

Os Companheiros - Mario Monicelli (1963)

Sinopse
Turim, Itália, fim do século XIX. Em plena efeverscência da Revolução Industrial em solo italiano, os operários de uma grande fábrica têxtil são submetidos a jornadas de trabalho desumanas, tendo que trabalhar 14 horas diárias em condições injustas. Muitos são os acidentes de trabalho, que resultam num elevado índice de inválidos e muito sofrimento e insatisfação entre os operários. No centro destes acontecimentos, chega à cidade o professor Sinigaglia (Marcello Mastroianni), um professor socialista que percorria a Itália espalhando o seu sonho de conscientização política e mobilização dos trabalhadores. A partir de seu encontro com os operários e da difusão de seus ideais, os trabalhadores voltam a acreditar e lutar por seus direitos, ainda que isto possa significar um alto preço a ser pago. Duração: 123 minutos

Crítica: Os Companheiros (Mario Monicelli, 1963)

por Luiz Carlos Merten
Extraído de http://blogs.estadao.com.br/luiz-carlos-merten/os-companheiros/

Ocorrem certas coincidências que… No post anterior, sobre as indicações de Buñuel para o OScar, fui checar quem havia recebido o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1978, quando o mestre teria sido (foi?) indicado pela segunda vez por ‘Esse Obscuro Objeto de Desejo’. O vencedor foi ‘Préparez Vos Mouchoirs’, dirigido por Bertrand Blier, filho do ator Bernard Blier. Querendo explicar quem era o pai, citei-o como intérprete de filmes de Mario Monicelli. Ia até citar ‘Os Companheiros’ (I Compagni), de 1963. Larguei o blog e fui fazer os filmes na TV de amanhã. Eis que a Rede Brasil anuncia para segunda, às 22 horas, que filme? Tã-tã-tã. Justamente ‘Os Companheiros’, com Marcello Mastroianni, Annie Girardot, Renato Salvatori, Bernard Blier, Folco Lulli. Já devo ter falado aqui sobre este filme. O telespectador que poderá vê-lo amanhã não tem noção do que foi a estréia de ‘Os Companheiros’ no Brasil. Naquele tempo, os filmes não chegavam tão rapidamente, e menos, ainda, os estrangeiros que não fossem hollywoodianos. Se o filme é de 1963, devo tê-lo visto em 1964, 65, talvez até 66, ou seja, após a ditadura. ‘Os Companheiros’ era o tipo do filme – da realidade – que os militares queriam varrer do mapa. Mastroianni faz o professor Sinegaglia que chega a Turim, na virada do século 19 para o 20, para formar um sindicato e organizar a classe trabalhadora. ‘Os Companheiros’ teve sua vida nos cinemas, antes de chamar a atenção, e depois foi parar no circuito universitario, no sindical. Nada vai devolver a sensação de assistir a ‘I Compani’ na clandestinidade, ou quase, com as discussões que ocorriam depois. Monicelli é um grande diretor italiano. Fez comédias que se tornaram clássicas – ‘Os Eternos Desconhecidos’, ‘A Grande Guerra’, ‘O Incrível Exército de Brancaleone’, ‘Quinteto Irreverente’, ‘Parente É Serpente’ etc. As comédias de Monicelli são tragicomédias (é com hífen, agora?). ‘Os Companheiros’ talvez seja a exceção. É o grande drama de Monicelli e, no meu imaginário, Annie Girardot e Renato Salvatori, a dupla autodestrutiva de ‘Rocco’ – eles se haviam casado na vida – volta com força total. Sinegaglia é um homem politico. Vive para organizar os trabalhadores, mas é um solitário errante, de cidade em cidade. Faz muitos anos que não vejo ‘Os Companheiros’, desde a minha juventude. Curioso que a lembrança do filme me tenha voltado hoje, num viés, e ele agora esteja disponível para ser (re)visto amanhã. Me parece um chamamento difícil de resistir.

quinta-feira, 4 de março de 2010

06/03: O Apicultor (Theo Angelopoulos, 1986)

O Apicultor - Theo Angelopoulos (1986)

Sinopse
Spyros é um homem consumido por um amor secreto e incestuoso pela própria filha. No dia do casamento dela, ele abandona a carreira de professor, a esposa e a casa para retomar a profissão do pai e do avô: cuidar de abelhas. Seguindo a rota tradicional do apicultor pelo país, em busca das flores que produzem o melhor mel, ele dirige de cidade em cidade revisitando o passado e os velhos amigos, tentando conciliar os ideais do passado com as rápidas mudanças que acontecem no país. Um dia, ele dá carona a uma jovem promíscua, que fala pouco e parece representar uma nova geração sem memória e sem preocupação com o passado. Duração: 117 minutos

Crítica sobre a obra de Theo Angelopoulos

por Luiz Carlos Merten
Extraído de http://blogs.estadao.com.br/luiz-carlos-merten/theo-e-deus/

Lá vou eu encarar, a pedidos, o cinema de Theo Angelopoulos. Aliás, na semana que vem – acho que é na semana que vem, a partir de 17, ou 19 -, ele estará sendo homenageado pelo Festival de Guadalajara, no México. Sabem que não lembro qual foi meu primeiro Angelopoulos? Terá sido Paisagem na Neblina? Se foi, não poderia ter sido melhor começo. Angelopoulos é grego e isso, de cara, ajuda a entender sua fascinação pelo mito. Em ‘Paisagem na Neblina’, Orestes voltava para vingar o pai. Em Um Olhar a Cada Dia, era Ulisses, o rei de Itaca, que desceu aos infernos para recusar a imortalidade. E na sua atual trilogia, iniciada por ‘To Livadi Poli Dakrisi’ e que tem prosseguimento com ‘I Skoni Tou Chronou’ (The Dust of Time), é Eleni – Helena. Em Berlim, quando o entrevistamos, Orlando Margarido e eu, o mestre estava de muito bom humor. Citou Godard, que fez, nos anos 50, o curta ‘Tous les Garçons s’Appellent Patrick’. Se todos os garotos podiam se chamar Patrick, para Godard, por que todas as mulheres não podem ser Helenas para Angelopoulos? É curioso como a arte contemporânea (re)vê o mito. Na literatura, o Ulisses de James Joyce, Leopold Bloom, vaga pela cidade, pela urbe. O de Angelopoulos, no cinema, só tem olhos para ruínas, pois o diretor transpõe o mito para o dia a dia das guerras civis na Europa. Destruição e morte. O cinema de Angelopoulos tem sido atormentado pela tragedia dos expatriados. Outros podem usar o plano-sequência (tem hífen?), mas raros, como Angelopoulos, são cineastas do tempo, da procura e, posto que ela tem de acabar, nem que seja dramaturgicamente, do limite. ‘Paisagem na Neblina’ mostra duas crianças, um casal de irmãos, acompanhado por aquele Orestes motoqueiro, em busca de um pai (improvável?) que mora na Alemanha. Em ‘O Passo Suspenso da Cegonha’, repórter chega a uma cidade de fronteira em busca de um político que desapareceu com a mulher. O repórter pensa tê-los visto fugazmemnte em meio a uma multidão de refugiados. O casal é interpretado por Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau, juntos 30 anos depois de um dos filmes/marcos da modernidade cinematográfica – ‘A Noite’, de Michelangelo Antonioni. Existem cenas de ‘O Passo Suspenso’ que ficam gravadas na mente e o cinéfilo não se esquece – os refugiados que passam interminavelmente nos vagões de trem, o casamento em que os noivos são separados pela fronteira, cada um de um lado, numa margem do rio, à espera de um encontro difícil, senão impossível. Em ‘O Apicultor’, também com Marcello Mastroianni, Angelopoulos mostrou um homem solitário, a própria encarnação do vazio da existência. Mas, naquele filme, embora interessado em ‘adoçar a passagem do tempo’ – sua explicação para o ato de filmar -, ele prescindiu do plano-sequência para criar seu road movie existencial. Talvez seja o filme mais ‘diferente’ do autor, sendo rigorosamente igual aos outros. Mastroianni, o apicultor, perdeu a batalha mítica já na abertura do filme. A mulher e os filhos desertaram e o deixaram sozinho. No primero dia da primavera, como reza a tradição, ele pega suas colméias e as leva para o sul, para comungar em silêncio com a paisagem, meditando sobre o fim da sua estrada. Mas chega essa mochileira, eternamente partindo (como o apicultor parece preso a si mesmo). Angelopoulos fez seu Bergman – silêncio do amor, de Deus. Mastroianni fala em grego, de ouvido, sem entender uma palavra, coisa impressionante. A trilogia de Helena é sobre a história da Grécia no século 20. Em ‘The Dust of Time’, Willem Dafoe é um diretor de cinema que quer contar a história de seus pais. Comunistas, perseguidos em seu país, eles se exilaram na antiga URSS. Uma cena já nasceu antológica. A multidão reúne-se na praça, onde é anunciada a morte do camarada Stálin. O plano é longo e lento. A multidão reúne-se e dispersa-se. Gente chorando, gente sem rumo. Na tela fica somente esse velho que não sabe para onde ir. Quanto tempo dura? cinco, dez minutos? O tempo é uma experiência relativa. Muitas estátuas de Stálin assombram o filme (como já assombraram outros trabalhos do grande diretor). A verdadeira tragédia das guerras civis contemporâneas, Angelopoulos sabe, é que elas só existem porque os homens são ignorantes, não aprendem nunca e acham que a delimitação de fronteiras poderá conter a expansão da sua angústia existencial. A fronteira volta em ‘The Dust of Time’. Talvez seja esse o grande tema a percorrer o cinema do autor, de filme para filme. A angústia humana, potencializada pela extensão do tempo, no plano sequência. O homem moderno distanciou-se do mito. Ulisses, em sua odisséia, continua navegando por mares desconhecidos, sem a perspectiva de um porto seguro no fim do caminho. Helena segue atraindo/distanciando os homens. Angelopoulos é pessimista/realista. Theo, curiosamente, é Deus em grego e o cinema dele não deixa de ser – é – um registro poético da nossa efêmera passagem pelo planeta.