sexta-feira, 6 de julho de 2012
Crítica: Stalker (Andrey Tarkovsky, 1979)
Programação Julho 2012: Cinema Russo: Dos tempos de URSS à Russia Contemporânea
O Cine Clube Ybitu Katu exibe:
07/07 - Stalker (Andrey Tarkovsky, 1979)
Sinopse: Ninguém sabe explicar como surgiu "A Zona", um lugar estranho, cercado por soldados e arame farpado. Muitos tentam entrar, pois acreditam que lá dentro encontrarão um local onde os desejos secretos de cada um se tornam realidade. Mas apenas alguns marginais conhecidos como “stalkers”, dotados com poderes telepáticos, sabem evitar as armadilhas espalhadas e penetrar nesta zona. Um deles conduz um cientista e um escritor que querem desvendar o mistério, mas a aproximação terá de ser cautelosa. Duração: 163 minutos
21/07 - Fausto (Aleksandr Sokurov, 2011)
Fausto é um pensador, rebelde e pioneiro, mas também um ser humano anônimo feito de carne e sangue, governado por impulsos internos, cobiça e luxúria. Última parte da tetralogia de Sokurov sobre a natureza do poder, o filme é livremente inspirado no conto Fausto, de Goethe.Duração: 134 minutos.
28/07 - Euphoria (Ivan Vyrypayev, 2006)
Em alguma região inóspita da Rússia, Vera e Pasha trocam olhares em uma festa de casamento. Vera é casada com Valeri e tem uma filha pequena, o que não impede Pasha de procurá-la para esclarecer por qual motivo trocaram olhares naquele dia. É quando uma mordida de cachorro abruptamente transforma a vida de todos. Duração: 71 minutos.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
26/05: Viajo porque preciso, volto porque te amo (Karim Ainouz e Marcelo Gomes, 2009)
Crítica: Viajo porque preciso, volto porque te amo (Karim Ainouz e Marcelo Gomes, 2009)
sexta-feira, 11 de maio de 2012
12/05: Casanova e a Revolução (Ettore Scola, 1982)
Crítica: Casanova e a Revolução (Ettore Scola, 1982)
Extraído de http://www.ensaiosababelados.com.br/casanova-e-a-revolucao/
sexta-feira, 4 de maio de 2012
05/04: Qué tan lejos (Tania Hermida, 2006)
Crítica: A nova era do cinema do Equador
Cinema produzido no Equador? O que era raro, agora pode se tornar freqüente. Pelo menos é o que pretende a cineasta Tania Hermida, que estreou na direção de longas-metragens com “Qué Tan Lejos” (2006), exibido na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e durante o II Festival de Cinema Latino-Americano, também realizado na capital paulista.
E, para alcançar esse objetivo, ela está envolvida, como candidata na lista do governo Rafael Correa, no processo de votação para a Assembléia Constituinte, que irá ocorrer no final de setembro. “Trata-se de uma tarefa nova e complicada, pelo fato de eu estar representando todo um setor da cultura que quer uma transformação profunda na gestão cultural do país”, afirma Hermida, que esteve em São Paulo para o II Festival de Cinema Latino-Americano.
Por meio de reformas, ela espera criar mais campos de trabalho para os novos profissionais audiovisuais. Também professora de cinema da Universidade San Francisco de Quito, capital do Equador, Hermida confessa que tem sido muito interessante assistir ao “nascimento” da cinematografia equatoriana. E ela, também, se surpreende.
Sucesso inesperado
“Qué Tan Lejos” foi considerado um fenômeno em seu país. Além de ter estreado em 14 salas -algo que nunca havia ocorrido com nenhum filme equatoriano-, ficou seis meses em cartaz e levou cerca de 200 mil pessoas ao cinema (o Equador tem 13,2 milhões de habitantes). Inclusive, de acordo com Hermida, em muitas salas, o filme obteve mais público que as produções norte-americanas. “Os números mostraram que os equatorianos querem se ver nas telas dos cinemas”, diz. O filme também foi bem recebido no exterior.
Filmado em cinco semanas, “Qué Tan Lejos” se caracteriza como um “road movie”, assim como “Família Rodante”, do argentino Pablo Trapero, e “Diários de Motocicleta”, do brasileiro Walter Salles. Na história, a estudante equatoriana Tristeza (Celilia Vallejo) e a turista espanhola Esperanza (Tania Martinez) se encontram casualmente em um ônibus que se dirige à cidade de Cuenca. Devido a uma rebelião da população indígena (que representa 40% dos habitantes do país), o transporte rodoviário é interrompido, e elas decidem pegar carona na estrada, mesmo sendo difícil, para chegar ao destino final.
“Sempre quis fazer um filme em que a geografia (os Andes e a costa do Pacífico), que moldou quem eu sou hoje, fosse também um personagem importante”, afirma Hermida. “Desde criança, viajo muito, dentro e fora de meu país, e este 'estar em viagem' me dá a sensação de ser o momento mais fértil para a aprendizagem, porque te obriga a colocar em dúvida todas as suas certezas.”
Ao longo da trajetória, as duas personagens perdem suas idéias feitas sobre o país e se vêem livres de tudo que consideravam importante ou indispensáveis para elas mesmas. “No final da viagem, elas estão 'vazias' e, ao mesmo tempo, prontas para começar a viver outra vez”, conta Hermida. A diretora, aliás, costuma comparar a vida das protagonistas com o atual momento do Equador, “que está em crise e em processo de reinvenção.” No ano passado, o país elegeu como presidente o professor e economista Rafael Correa, de esquerda, alinhado com Hugo Chávez e Evo Morales.
Outra característica marcante de "Qué Tan Lejos" é o antagonismo entre os equatorianos e a turista espanhola, que acha tudo belo, exótico e misterioso no país. Em um dos primeiros diálogos do filme, entre a turista e um taxista, este relembra a história colonial e critica os espanhóis pela exploração das riquezas equatorianas.
Para Hermida, pelo fato de o Equador ser um país jovem, as referências à conquista espanhola ainda são freqüentes. “Acontece que temos que entender que somos frutos desse processo, que foi destrutivo e construtivo”, explica. A Espanha também se faz presente no cotidiano equatoriano pelo fato de ainda representar o “sonho europeu”.
Fazer cinema é um luxo?
Entre 1980 e 2005, somente 12 longas equatorianos em 35 mm foram produzidos. Para Hermida, isso ocorreu devido à lógica neoliberal, vigente durante aqueles anos, para a qual tudo que não é rentável devia ser ignorado pelo país. “Além disso, imperava a idéia de que fazer cinema era um luxo, que só teríamos direito de produzir algo depois de o Equador solucionar a pobreza e a corrupção, considerados problemas mais urgentes.”
A chegada (e o sucesso) de “Qué Tan Lejos” aos cinemas marca um esforço dos realizadores locais. Em 2006, a criação do Conselho Nacional de Cinematografia (CNCINE), primeira entidade pública para a gestão da iniciativa audiovisual do Equador, permitiu a realização de novas produções.
“Foi um feito histórico, uma vez que foi resultado da iniciativa dos próprios cineastas”, diz Hermida. De acordo com Rafael Barriga, crítico de cinema, realizador e diretor de programação do Ocho y Medio, o principal cinema independente do país, em entrevista ao site LaLatina, neste ano, há dois outros longas de ficção em 35 mm prontos no Equador para entrar em cartaz.
Entre outros objetivos, o CNCINE é responsável pela formação e especialização de profissionais, promoção e difusão de filmes e criação de festivais, que acabam sendo importantes ferramentas para a exibição de longas locais e de países vizinhos, como o Brasil, Argentina e Paraguai, por exemplo.
“Eu só consegui assistir aos filmes ‘Dois Filhos de Francisco’ e ‘Cheiro do Ralo’ em festivais. No Equador, há somente cinco salas -uma pública e quatro privadas- onde podem ser vistas produções mais independentes ou que não sejam hollywoodianos”, lamenta a diretora.
De qualquer maneira, Hermida, principalmente devido às mudanças sociais e políticas em seu país, mantém as esperanças. Se o cinema equatoriano já nasceu, ela aguarda agora o seu crescimento.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Programação Cine Clube Ybitu Katu - Maio de 2012: Road Movies
12/05: Casanova e a Revolução (Ettore Scola, 1982) - Itália
19/05: NÃO HAVERÁ SESSÃO EM DECORRÊNCIA DA VIRADA CULTURAL EM BOTUCATU
26/09: Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo (Karim Ainouz, 2009) - Brasil
sábado, 28 de abril de 2012
28/04: À Leste de Bucareste (Corneliu Porumboiu, 2006)
Crítica: A agonia romena dos últimos dias de Ceausescu: À Leste de Bucareste (Corneliu Porumboiu, 2006)
sábado, 21 de abril de 2012
21/04: Katalin Varga (Peter Strickland, 2009)
Crítica: Katalin Varga (Peter Strickland, 2009)
Depois de uma leva de filmes romenos urbanos, com preocupações frequentemente associadas ao fim do comunismo, como os premiados À Leste de Bucareste e 4 Meses, 3 Semanas, 2 dias, pra ficar em dois que chegaram ao nosso circuito comercial, eis que surge esse corpo estranho que é Katalin Varga, resgatando o que a Romênia rural tem de mais atemporal, mal-assombrada. Não é a Romênia dos vampiros, mas há fantasmas por todo lado.
Um desses fantasmas assombra a personagem-título. Katalin Varga (Hilda Péter) está sendo expulsa de casa pelo marido, porque um segredo seu, de anos atrás, chegou aos ouvidos de todo o vilarejo. Ela mal tem tempo de se despedir - junta algumas roupas, coloca o filho sobre a carroça e pega a estrada. Katalin diz ao menino que eles vão para a casa da avó, que está doente, mas logo descobrimos que o destino dos dois é outro.
Durante boa parte do filme o roteirista e diretor inglês Peter Strickland nos esconde o tal segredo. Mas pela forma como filma a viagem da mulher, com o som desenhado para amplificar os menores barulhos, dá a entender que o ambiente (e a forma como o homem interage com esse ambiente) tem parte de culpa nessa história. Sinos de gado, trote de cavalo, um regato, o vento, o barulho da carroça, sons de inseto, tudo contribui para o tormento de Katalin Varga, como se Terrence Malick filmasse uma história de Cormac McCarthy.
Se o uso do som não é muito sutil em alguns momentos, Strickland compensa com a criação de um competente universo bucólico de fantasmagoria. Não por acaso, o acerto de contas de Katalin começa ao redor de uma fogueira, com uma dança acelerada que parece se passar nos portões do inferno. Quando o diretor finalmente nos conta em detalhes o tal segredo da mulher, ela está sentada numa canoa em movimento, e a paisagem turva ao fundo adiciona vertigem a essa viagem no tempo a que somos submetidos. Para um estreante, Strickland faz um trabalho bastante seguro. A menção a McCarthy não é gratuita - as narrativas sangrentas do escritor têm a mesma preocupação com a descrição de pequenas coisas que a câmera do diretor tem para eleger planos-detalhes. Ele não vitimiza Katalin além da conta (ela não perde o sono, por assim dizer, como mostra o filme) e reúne religiosidade, selvageria e memória em um combinado forte. É um cineasta a acompanhar.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
07/04: 4 meses, 3 semanas, 2 dias (Cristian Mungiu, 2007)
4 meses, 3 semanas, 2 dias - Cristian Mungiu (2007)Em 1987, nos últimos dias do comunismo, Otilia (Anamaria Marinca) e Gabita (Laura Vasiliu) dividem um quarto num dormitório estudantil. Elas são colegas de classe na universidade de uma pequena cidade romena. Gabita está grávida e o aborto é ilegal no país. Otilia aluga um quarto num hotel barato. Lá elas recebem um certo Sr. Bebe (Vlad Ivanov) , chamado para resolver a questão. Mas, ao saber que Gabita está com a gravidez mais adiantada do que havia informado, Sr. Bebe aumenta as exigências para o serviço. Ele cobra um preço que as duas não estão preparadas para pagar. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano de 2007. Duração: 113 minutos
Crítica: 4 meses, 3 semanas, 2 dias (Cristian Mungiu, 2007)
Filmes que ganham a mais prestigiosa láurea do cinema de autor – a Palma de Ouro no Festival de Cannes – conquistam, também, a responsabilidade de ter que satisfazer a enorme expectativa criada instantaneamente na comunidade cinéfila internacional. Não é uma tarefa fácil. Do ponto de vista do espectador, encarar um longa-metragem premiado em Cannes significa estar frente a frente com um candidato a obra-prima. Pois bem: jogando no lixo todo o aparato estético disponível para apegar-se apenas a uma narrativa crua e muito bem construída, “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” (4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile, Romênia, 2007) sacia todas as expectativas, e vai além.
A rigor, Cristian Mungiu fez um filme-irmão do sensacional “A Morte do Sr. Lazarescu” (2005), obra responsável por lançar os holofotes do mundo cinéfilo em direção à minúscula Romênia. Ou seja, fechou um ciclo vitorioso. Graças à exposição gerada pelo filme de Gabriel Puiu (que ganhou a mostra paralela Um Certain Regard em Cannes 2005), o cinema barato e despojado produzido no país do leste europeu conquistou o respeito e a admiração de Cannes, tendo outras obras premiadas por lá (“Como Comemorei o Fim do Mundo”, “A Leste de Bucareste” e “Califórnia Dreaming”). A Palma de Ouro atribuída a “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” coroa esta etapa do cinema romeno. É um troféu que valoriza tanto o filme em si quanto toda a cinematografia do país.
Afinal de contas, o cinema romeno contemporâneo é um movimento articulado e coletivo, como foi o Dogma 95 na Dinamarca (aliás, movimento que lançou um manifesto estético de onde os filmes da Romênia bebem bastante). Os longas produzidos por lá dividem muitas características. A estética é minimalista, crua e despojada, que aparenta desleixo técnico mas tem grande rigor formal: longas tomadas sem cortes, câmera na mão, luz natural e som direto, exclusivamente diegético (ruídos cuja origem está dentro do espaço cênico). Não há música para indicar o que o espectador deve sentir. É um cinema visceral, que quebra intencionalmente diversas regras da gramática cinematográfica clássica, mas o faz com a autoridade de quem sabe que isto é necessário para gerar uma resposta emocional verídica na platéia.
Observe, por exemplo, a longa cena do jantar, em que a câmera permanece parada, focalizando com clareza o desconforto de Otilia (Anamaria Marinca, maravilhosa) diante da situação indesejada. Por longos minutos, enquanto ela permanece estática e impaciente, as pessoas que a rodeiam na mesa conversam despreocupadamente, sem perceber o drama que se desenrola na cabeça da garota – e que nós, a platéia, conhecemos bem, porque estávamos com ela antes. Vários participantes da conversa permanecem fora do quadro quando falam, algo inimaginável em um filme de Hollywood. Só que o diretor Cristian Mungiu sabe o que faz. Ao se recusar a desviar o olhar do rosto de Otilia, ele cria uma tensão e uma angústia crescentes do espectador. Este rigor formal ajuda a platéia a compartilhar a assustadora situação vivida por Otilia e Gabita (Laura Vasiliu, ótima), as duas personagens principais.
As duas moças estão na faixa dos 20 anos e dividem um quarto numa república de estudantes em Bucareste. Como todo estudante, elas não têm grana. A ação se passa em 1987, nos últimos anos da ditadura comunista de Nicolau Ceaucescu, quando produtos ocidentais como cigarros e chicletes só podiam ser encontrados no atuante e caríssimo mercado negro. A história, narrada quase em tempo real, tem semelhanças claras com a contada em “A Morte do Sr. Lazarescu”. Uma das meninas está grávida e deseja se submeter a um aborto ilegal, que só pode ser realizado num hotel vagabundo e por um médico asqueroso (Vlad Ivanov, assustador), que não hesita em tirar proveito da condição de desespero das mulheres. A longa seqüência que reúne os três personagens dentro do hotel é um primor de direção. Mungiu escolhe sabiamente cada posição de câmera, mostrando e deixando de mostrar na medida exata, e consegue criar um instante cinematográfico de fortíssimo impacto emocional.
Também roteirista, Cristian Mungiu escreveu o roteiro do filme em apenas um mês, baseado em uma história verídica que ouviu enquanto era estudante. Durante as filmagens, realizadas ao custo ínfimo de US$ 600 mil, ele se permitiu realizar diversas alterações, cortando e cortando cada vez mais diálogos, de modo a sugerir mais do que explicitar (e note como isto funciona perfeitamente, como na cena em que Otilia suborna sutilmente a atendente de um hotel com uma carteira de cigarros, sem jamais pronunciar uma única palavra sobre o “presente”). A verdade é que há muito talento escondido atrás do trabalho técnico aparentemente desleixado – a fotografia de Oleg Mutu é excepcional, com composições precisas e de clareza narrativa, mesmo sob condições difíceis de iluminação.
O que temos aqui, de fato, é o caso clássico da estética que serve à narrativa. O despojamento técnico ajuda a desnudar por completo a essência do filme: uma história pequena, humana, narrada com grau razoável de distanciamento emocional, com muito respeito à dor e aos sentimentos dos personagens. Como todos os filmes contemporâneos feitos na Romênia, a obra de Cristian Mungiu conta histórias genuinamente humanas de gente miúda, com um grau de naturalismo espantoso, reforçado pelo espetacular elenco jovem e desconhecido. É por tudo isso que “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” sacia as expectativas dos cinéfilos atentos e se configura como um dos grandes filmes de 2007.











